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“Açúcar de melancia”, de Richard Brautigan

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Um dos representantes da geração beat, movimento contracultural que surgiu em São Francisco, nos Estados Unidos, entre os anos 1950 e 1960, Richard Brautigan teve uma vida tão incomum que seria digna de uma das ficções escritas por ele. Abandonado em um quarto de hotel aos seis anos junto com a irmã de apenas dois, aos 20, ele pediu para ser preso porque já não aguentava mais passar fome e frio. Da prisão, seguiu para um hospício e foi diagnosticado com esquizofrenia e depressão. Após terminar a terapia com eletrochoques, começou a escrever e publicar seus primeiros livros de poesia. Em 1967, lançou o romance “Pescar truta na América”, que chegou a alcançar a marca de dois milhões de exemplares vendidos à época. No ano seguinte, publicou “Açúcar de melancia”, que recebe agora, pela Editora José Olympio, sua primeira edição no Brasil.

Ambientado em um universo distópico e surrealista, onde quase tudo é feito de açúcar de melancia, o livro mostra, por meio de um narrador que nunca diz seu nome, a rotina dos moradores e dos vizinhos do vilarejo euMORTE. Apesar do nome curioso e da paisagem mágica, como rios com um centímetro de largura, o lugar se assemelha a uma cidade qualquer. As pessoas trabalham, conversam e se relacionam.  Ao longo da narrativa, no entanto, os personagens começam a assumir posturas assustadoras, que causam bem mais estranhamento do que o cenário fantástico criado por Brautigan. Um dos momentos aterrorizantes é o desfecho da trajetória de Margaret, com quem o narrador mantinha um relacionamento.

Outro lugar que compõe a história e que instiga a atenção é “Obras esquecidas”, uma região misteriosa, que segundo o narrador, abarca espaços temporais que não podem ser alcançados. Uma das coisas que se acumulam por lá são livros, usados como alimento para o fogo. O tradutor da edição brasileira, que também assina o posfácio da obra, relaciona o fato à ideia já explorada no filme Fahrenheit 451, de 1953.

Por meio de diálogos curtos, repetitivos e infantilizados, o escritor ironiza nosso próprio cotidiano enquanto nos lança em seu universo non-sense.

Leia a seguir os dois capítulos da obra, publicados no último domingo, 10, no caderno Ilustríssima do jornal Folha de São Paulo:

Iluminando as pontes

Olhei para cima através dos pinheiros e vi a estrela-

-d’alva. Brilhava no céu com um tom confortável de

vermelho, pois essa é a cor das nossas estrelas aqui.

Elas têm sempre essa cor.

Contei uma segunda estrela-d’alva no lado oposto

do céu, não tão imponente, mas tão bonita quanto a

que chegou primeiro.

Cheguei à ponte verdadeira e à ponte abandonada.

Elas ficam lado a lado sobre o rio. Trutas pulavam

no rio. Uma truta de mais ou menos cinquenta centímetros

saltou. Pensei que era um lindo peixe. Tinha

certeza de que lembraria dele por um tempão.

Vi alguém se aproximar pela estrada. Era o Velho

Chuck vindo de eumorte para acender as lanternas

na ponte verdadeira e na ponte abandonada. Caminhava

devagar, pois era um homem muito velho.

O pessoal diz que ele está velho demais pra acender

as luzes das pontes e que ele deveria era ficar numa

boa lá em eumorte e pegar mais leve. Mas o Velho

Chuck gosta de acender as lanternas e voltar pela

manhã para apagá-las.

O Velho Chuck diz que todo mundo deveria ter

alguma coisa para fazer e iluminar aquelas pontes era

o lance que ele tinha para fazer. Charley concorda

com ele.

— Deixa o Velho Chuck iluminar as pontes se

ele curte fazer isso. Assim ele não apronta nenhuma

travessura.

Isso é uma piada porque o Velho Chuck deve

ter tipo uns noventa anos e está bem longe de fazer

travessuras, movendo-se na velocidade das décadas.

O Velho Chuck enxerga muito mal e não me viu

até quase bater em mim. Eu esperei ele chegar perto.

— Oi, Chuck — falei.

— Boa noite — respondeu ele. — Vim acender as

lanternas das pontes. Como vai você esta noite? Vim

acender as lanternas das pontes. É uma bela noite,

não é?

— Sim — falei. — Linda.

O Velho Chuck enveredou pela ponte abandonada,

sacou um fósforo de quinze centímetros de seu macacão

e acendeu a lanterna ao lado da ponte que dá

para eumorte. A ponte abandonada está ali desde

a época dos tigres.

Naqueles dias dois tigres foram presos na ponte e

mortos e daí tacaram fogo na ponte. O fogo destruiu

apenas parte dela.

Os corpos dos tigres caíram no rio e ainda dá para

ver os ossos no fundo, nos pontos mais arenosos e

jogados nas rochas e esparramados aqui e ali: ossos

pequenos, costelas e um pedaço de crânio.

Existe uma estátua no rio ao lado dos ossos. É a

estátua de alguém que foi morto pelos tigres há muito

tempo. Ninguém sabe quem eles eram.

Nunca consertaram a ponte e agora é uma ponte

abandonada. Tem uma lanterna em cada lado da ponte.

O Velho Chuck as acende todas as noites, apesar

de o pessoal dizer que ele está velho demais para isso.

A ponte verdadeira é toda feita de pinheiros. É

uma ponte coberta e está sempre tão escuro dentro

dela como dentro de uma orelha. As lanternas têm o

formato de rostos.

Um rosto é o de uma linda criança e o outro rosto

é de uma truta. O Velho Chuck acendeu as lanternas

com os longos fósforos que sacou de seu macacão.

As lanternas da ponte abandonada são tigres.

— Vou caminhar com você de volta pra eumorte

— falei.

— Ah, não precisa — disse o Velho Chuck. — Sou

lento demais. Você vai se atrasar pro jantar.

— E você? — falei.

— Eu já comi. Pauline me deu algo pra comer um

pouco antes de sair.

— O que teremos pro jantar? — perguntei.

— Nem vem — disse o Velho Chuck, sorrindo. —

Pauline disse que, se eu encontrasse você no caminho,

não era pra contar o que tem hoje à noite pro jantar.

Ela me fez prometer.

— Essa Pauline — falei.

— Ela me fez prometer — disse ele.

euMORTE

Já estava quase escuro quando cheguei a eumorte.

As duas estrelas-d’alvas agora brilhavam lado a lado.

A menorzinha tinha passado por cima da maiorzona.

Estavam tão próximas agora que quase se tocavam, e

daí se juntaram e viraram uma só estrela bem grande.

Não sei se coisas como essas são justas ou não.

Não sei se coisas como essas são justas ou não.

Havia luzes acesas em eumorte. Observei-as enquanto

descia a colina ao sair dos bosques. Pareciam

cálidas, convidativas e alegres.

Um pouco antes de chegar a eumorte, as coisas

mudaram. eumorte é assim: está sempre mudando.

Para o bem. Subi os degraus até a varanda da frente,

abri a porta e entrei.

Atravessei a sala de estar na direção da cozinha.

Não havia ninguém na sala, nenhuma pessoa sentada

nos sofás distribuídos ao longo do rio. Normalmente

é ali que as pessoas se reúnem, ou então ficam nas

árvores perto dos rochedos, mas lá também não tinha

ninguém. Havia muitas lanternas brilhando ao longo

do rio e nas árvores. Estava perto da hora do jantar.

Quando cheguei ao outro lado da sala, senti um

cheiro bom que vinha da cozinha. Saí da sala e caminhei

pelo corredor que passa debaixo do rio. Pude

ouvir o rio acima de mim, brotando da sala de estar.

O rio soava bem.

O corredor estava perfeitamente seco e dava para

sentir o cheiro de coisas boas que saíam da cozinha

e enchiam o corredor.

Quase todos estavam na cozinha: quer dizer, ao

menos aqueles que fazem suas refeições em eumorte.

Charley e Fred papeavam sobre algum assunto. Pauline

se preparava para servir o jantar. Todo mundo

estava sentado. Ela ficou feliz em me ver.

— Olá, forasteiro — disse ela.

— Que tem pra jantar? — perguntei.

— Ensopado — respondeu ela. — Do jeito que

você gosta.

— Maravilha — falei.

Ela me deu um sorriso simpático e sentou. Pauline

usava um vestido novo e eu podia ver o agradável

contorno de seu corpo.

O vestido tinha um decote largo e dava para ver a

curva delicada de seus seios. Tudo aquilo me deixou

muito contente. O vestido tinha um perfume adocicado

porque era feito de açúcar de melancia.

— Como vai o livro? — perguntou Charley.

— Bem — falei. — Muito bem.

— Espero que não seja sobre pinhas — disse ele.

Pauline me serviu primeiro. Ela me deu uma enorme

porção de ensopado. Todo mundo se ligou que eu

era o primeiro a ser servido e reparou no tamanho da

porção, e todos sorriram pois sabiam o que significava

e estavam felizes com o que estava rolando.

A maioria deles não gostava mais de Margaret.

Quase todos desconfiavam que ela tinha conspirado

com nafervura e sua gangue, embora nunca tivesse

existido uma evidência real.

— Este ensopado está bom demais — disse Fred.

Ele pôs uma grande colherada de ensopado na boca,

quase derramando um pouco sobre o macacão. —

Hummmm… que bom — repetiu ele, dizendo em voz

baixa: — Bem melhor do que cenouras.

Al quase o ouviu. Por um segundo ele deu uma

olhada severa para Fred, mas, como não compreendeu

totalmente o que ele tinha dito, relaxou e disse

em seguida:

— Certeza que sim, Fred.

Pauline riu levemente, pois ela ouviu o comentário

de Fred e eu dei uma olhada para ela como se dissesse:

“Não ria alto demais, querida. Você sabe como Al é

sensível quando se trata de sua habilidade culinária.”

Pauline concordou com um aceno de cabeça.

— Contanto que não seja sobre pinhas — repetiu

Charley, apesar de já terem se passado bem uns dez

minutos desde que ele tinha falado alguma coisa pela

última vez, e também havia sido algo sobre pinhas.

 

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