Na imprensa

“Nas sombras do Estado Islâmico”, de Sophie Kasiki

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A poeira da guerra

A estrada se prolongava como um tecido amarelo pela planície devastada.

Os bombardeios das tropas de Bashar tinham aberto crateras

entre as quais subsistiam, aqui e ali, algumas miseráveis fazendolas,

algumas ainda habitadas. Mas não era possível ver os moradores.

Nunca. Estavam escondidos. Montinhos de terra circundavam os

buracos como se fossem lábios. Atravessei essa paisagem corroída,

deformada pela violência da guerra que ali impera há mais de cinco

anos, carregando meu filho no colo, adormecido e escondido sob o

meu niqab. Com um braço, segurava o seu corpo pesado e morno.

Com o outro, apertava forte a cintura magra de um homem que até

ontem eu não conhecia. Agora, nossas vidas dependiam dele. Malik,

nosso salvador.

A moto seguia tão rápida quanto o seu cansado motor permitia,

e o vento jogava um véu escuro contra o meu nariz e a minha boca,

dificultando a respiração. Cada minuto que passava, cada hora desde

o início da nossa fuga, contava para a nossa sobrevivência. Estávamos

sendo procurados e perseguidos em Raca. Quando descobrissem que

eu conseguira escapar da cidade, viriam nos esperar ali, na estrada

para a fronteira. Malik evitava os buracos e protuberâncias que se

alternavam no asfalto coberto de areia. Como uma amazona insegura

em sua garupa, me atrapalhava com os véus agora visivelmente

cobertos, como tudo mais na região, pela triste e amarelada poeira

da destruição.

Na estrada, vindo em sentido contrário, passavam com estardalhaço

enlameadas caminhonetes, com muitos rapazes que balançavam

junto das 12.7, metralhadoras montadas em tripés. Vestindo roupas

militares de camuflagem meio esquisitas, eles tinham barbas e cabelos

compridos, bigodes aparados. Levavam rifles kalachnikov pendurados

nas costas. Com o punho erguido ao passarem por nós, estampavam

o orgulhoso riso dos combatentes. Jovens vindos de todas as regiões

eram ali chamados mudjahidines e, em outros lugares, jihadistas. Era

o exército do Estado Islâmico se dirigindo para o combate.

Nosso itinerário fora calculado para evitar check-points, ou pontos

de controle. No primeiro deles descobririam que eu não era esposa de

Malik — bastaria erguer o véu que escondia meu rosto ou simplesmente

me interrogar em árabe para perceber que não entendia a

língua. Para mim, a sentença seria a morte por apedrejamento e, para

ele, a tortura, seguida de decapitação. Meu filho desapareceria para

sempre em um orfanato mantido pelo Estado Islâmico.

A moto bate em uma saliência da estrada, freia e derrapa. Em

seguida, Malik novamente acelera, e o veículo retoma a direção.

Aperto ainda mais o corpo de Hugo, cuja cabeça pesa forte em meu

ombro dormente. Avançamos na direção da fronteira turca. Um

automóvel com dois homens do Exército Livre da Síria (ASL) seguia

na nossa frente, abrindo caminho para localizar check-points móveis.

Outro veículo seguia atrás, fechando o comboio. Nesse último os

ocupantes estavam armados e reagiriam se fôssemos identificados.

Apesar do medo, do esgotamento físico e do desconforto, a sonolência

tomou conta de mim e encostei a testa nas costas de Malik.

Assustada, me perguntava como pudera chegar àquele ponto, dependendo

de desconhecidos, fugindo para salvar minha vida e carregando

meu filho adormecido, em um país em guerra.

Essa pergunta seria recorrente nos meses seguintes, quando teria

mais tempo para analisá-la. E também teria de responder a dezenas

de questões ansiosas, dolorosas e até acusatórias de minha família,

de meus amigos, assim como da polícia. Todos exigiriam explicações.

Tentaria satisfazê-los. Buscaria as possíveis origens do grande

cataclismo que atravessara minha vida havia menos de um ano,

comprometendo e ferindo meus amigos, meu marido, e pondo em

risco de vida meu filho e a mim. Buscaria no passado longínquo revisitaria minha infância e juventude, revendo os erros cometidos

e procurando enfrentar com lucidez as insatisfações e ilusões.

Toda trajetória de vida é singular. A minha me levou ao grupo

Estado Islâmico, com meu filho de 4 anos, pouco antes de eu completar

33.

Não consigo encontrar um fato isolado, dentro da galáxia de

pequenos acontecimentos que compõem minha vida, que possa explicar

tudo. O grande erro seria acusar a religião como causa única

e suficiente. Converti-me ao islã, ou seja, sou uma “convertida”,

como se diz, e abracei a nova religião com entusiasmo. Mas seria

fácil demais, e inexato, dizer que foi por isso que parti.

Não existe explicação maior e inevitável para o drama que começou

no último mês de fevereiro.

 

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