Entrevistas

“Cravos”, de Julia Wähmann

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Por Carlos Henrique Schroeder

Dançar com palavras

Romance de estreia da carioca Julia Wähmann é uma bela aproximação com a linguagem da dança através da memória e da saudade – e uma homenagem às criações da coreógrafa e diretora alemã Pina Bausch.

O livro é todo feito de silêncios, do não-dito, de espaços, tal qual uma dança. Como foi reproduzir isto numa linguagem mais fechada: como a da literatura?

Foi uma decisão natural que em certo ponto me gerou uma série de dúvidas. Sempre tive tendência ao não-dito, ou ao menos ao não explícito, a deixar sugestões. Como a dança faz. Quando achei que os buracos estavam muito grandes, ou quando tive receios do leitor não entender, enfim, quando achei que a coisa poderia estar muito dentro da minha cabeça e fora da página, procurei algumas maneiras de preencher os espaços sem entregar tanto. Um amigo que leu o livro recentemente disse que gostou da maneira como ele se parece um pouco com cinema, com as cenas que pulam de uma pra outra num corte: você está na praia no Rio e de repente vai parar numa cidade chuvosa na Alemanha; ou está num bloco de Carnaval e poucas páginas adiante está na plateia de um teatro assistindo a um balé. Adorei essa leitura que ele fez, eu não associei o resultado do livro ao cinema, mas acho bem pertinente. Acho que é do Waly Salomão uma frase que diz que a memória é uma ilha de edição. Logo a literatura também pode ser. Muitas vezes os silêncios são coisas que queremos esconder, outras vezes são passagens que apenas não funcionam, ou que são óbvias demais, que se tornam redundantes.

O livro é um espetáculo da Pina Bausch com a bailarina Julia Wähmann?

Passei anos fazendo aulas de dança e nunca cogitando levar isso “a sério”, porque eu tinha limitações etc. A dança contemporânea relativiza um pouco esses padrões, apesar de quase sempre ter o clássico como base de formação. Você pode ser desengonçado, ou esquisito, ou limitado, ou ter um corpo fora do padrão do balé clássico, e isso vira sua singularidade, seu charme, enfim, essas coisas que os outros veem em você, e que você às vezes não percebe –  sua capacidade de assustar, que é também o “se sentir possível” de que falo no livro. Hoje acho que escrevi pra me convencer a voltar pra esse universo de maneira mais prática, e porque precisava encontrar uma forma de contar aquela história de amor que preenche mais a primeira parte do livro. E é também uma tentativa de registrar algumas cenas que me marcaram muito, seja da Pina ou de outras danças citadas, já que as artes cênicas são tão efêmeras. Quando vi Nelken, em Wuppertal, na Alemanha, postei no Facebook algo como “Deus, se um dia eu tiver Alzheimer, por favor não me deixe esquecer essa dança”. Talvez seja uma tentativa de, ao reler essas passagens, me lembrar um pouco desses eventos.

Fotos do espetáculo "For the Children of Yesterday, Today and Tomorow."

Foto do espetáculo “Nelken”

Sobriedade diante da embriaguez do mundo?

Sim. Se pensarmos o livro em duas partes, na primeira há uma espécie de resistência da narradora em relação ao personagem a quem ela se endereça, e isso se desfaz na segunda metade. Como se não houvesse escapatória pro luto, e como se a dança da Pina fosse uma corda que vai içando a narradora do fundo do poço, e que permite a ela pensar aquela história de uma outra forma.

Geografia íntima? Saudade e memória?

As 3 coisas. Recentemente eu estava às voltas com umas dificuldades técnicas para postar um texto no Ornitorrinco (o site para o qual eu escrevo) e pedi o socorro do Gabriel Pardal, editor do site, e ele perguntou sobre o que era o tal texto novo. Eu disse que era sobre saudade, e ele achou graça quando acrescentei que este é possivelmente meu único tema.

Quanto tempo da primeira imagem até a palavra final de Cravos?

Uns 10 anos, mais ou menos. Isso se a gente não enveredar pela teoria literária daqueles tarados que dizem que a gente nunca termina um livro etc.

Mas a ideia mais sólida do que veio a ser o Cravos se deu em 2013, quando eu cursava uma pós-graduação em Letras na PUC-Rio e, para uma das disciplinas, me debrucei sobre o Kontakthof, que é uma peça que a Pina Bausch realizou com 3 elencos diferentes: os bailarinos de sua companhia, um grupo de idosos e um grupo de adolescentes. O trabalho acabou virando a minha monografia de conclusão do curso, e alguns trechos da segunda parte do Cravos saíram dali. Eu precisava descrever algumas cenas da coreografia pra que o orientador e pudesse visualiza-las minimamente, e o retorno dele foi que podia ver a dança. Logo depois viajei pra Alemanha, onde assisti Nelken (“cravos” em alemão) e Wiesenland. Eu tinha visto o Ten Chi no Rio, e já costumava escrever pequenos diários de viagens, e fiz um dessa temporada. De alguma maneira essa experiência começou a se misturar a essa outra história que eu já tinha mais ou menos escrita aos pedaços, a do sujeito que tirava flores dos bolsos. As flores, portanto, foram um primeiro ponto de contato entre as duas coisas, então comecei a perseguir uma forma de costura entre esses dois encontros. Fez mais sentido partir para uma ficção que para uma pesquisa acadêmica, até porque eu não tinha exatamente uma questão ou um problema para tentar resolver nos moldes stricto sensu.

Em 2015 publiquei o Diário de Moscou, um minilivro pela coleção Megamíni, da 7Letras, e ali estava um pouco do DNA do Cravos, uma história aos pedaços endereçada a um interlocutor. Isso foi bem importante também para estruturar a narrativa.

Você é editora de livros. O que isso auxilia ou prejudica no processo de escritura?

Atrapalha um pouco, porque eu acabo sendo uma espécie de editora de mim mesma e já escrevo economizando. Meu orientador na PUC pedia que eu enviasse as sobras também, textos descartados, mas eu já fazia esse trabalho de cortar. Talvez algumas coisas aproveitáveis se percam nesse processo.

Queneau é uma referência explícita. O quanto dos escritores que você admira (e quais) permeiam este primeiro romance?

Eu não sou nem grande leitora nem grande entusiasta do Queneau, tampouco da Oulipo, e o Exercises de style foi um livro que li com alguma irritação. Mas ao mesmo tempo achei fascinante, e achei tão dança contemporânea, porque é isso que se faz para tecer uma coreografia, você repete exaustivamente os mesmos gestos, e a cada vez eles saem de um jeito, porque um dia você tá cansado, noutro quica ao finalizar um passo, noutro escorrega, enfim, é aquela história de nunca entrar no mesmo rio, e parando pra pensar isso vale até pro arroz que a gente cozinha. Então está lá o Queneau, que afinal tem mesmo a ver com o livro e as minhas intenções.

Não sei avaliar bem o quanto outros escritores que admiro estão aí. Algumas das pessoas que leram as primeiras versões, ou que já o leram finalizado, acharam que o livro flerta com poesia em alguns momentos, e gosto muito e procuro ler bastante poesia, sobretudo  contemporânea.

Vivian Wyler, uma grande editora, diz encontrar um pouco de Miranda July, Paloma Vidal e Ana C. no texto, o que tomei como um baita elogio, porque sou grande admiradora da obra das 3. Acho que as leituras ficam dentro da gente decantando, e em algum momento elas vêm pro texto sem se anunciarem, não sou muito capaz de identificar. Recentemente li um livro da Maggie Nelson, uma escritora americana, e fiquei com vontade de plagiá-la. Quem sabe num próximo livro ela apareça de alguma maneira.

E Major Tom e Bowie?

O livro tem uma série de músicas, citadas direta ou indiretamente. O Major Tom (personagem da música “Space Oddity”, que reaparece em “Ashes to ashes”, ambas do David Bowie) e o Bowie, assim como o Michael Jackson (e é incrível que em um mês, em 2009, houve uma chacina de bailarinos: Michael, Pina e o Merce Cunningham) entraram naqueles tais buracos que mencionei. E foi meio isso mesmo, um dia no carro me caiu a ficha que o Major Tom morria, até que um amigo argumentou dizendo “não é bem assim, em ‘Ashes to ashes’ bla bla bla” e eu queria soca-lo por ressuscitar o Major Tom quando eu já tinha chorado a morte dele. Mas enfim, isoladamente, o Major Tom morre, e ele o Bowie (que acabou morrendo também, que tristeza) sublinham a morte no livro.

Os dois polos: o que você mira e o que te observa?

Na página 38 tem uma cena no Carnaval que é quase a cena do Cafe Müller da página 89; a cena da página 71 poderia ser a dança da página 109, e em diversos outros momentos da segunda parte volto aos (des)encontros da primeira. Mirei nessa condição de espectadora, ou de leitora, como você preferir, de alguém que assiste a tudo e vai fabulando, tecendo relações e conexões com episódios que inicialmente não estavam lado a lado. Não sei ao certo o alvo. Queria falar de grandes paixões, e falei, e embora eu não use a palavra no livro (não tenho certeza, mas nem precisaria), é uma história de amor. Me esforcei pra fugir dos clichês, mas queria que isso ficasse bem evidente. E ficou, não é?

Um elefante no trem e cravos submersos: de onde vêm essas imagens tão fortes?

A história da Tuffi, a filhote de elefante, é verdadeira. Está no site da cidade de Wuppertal, tal qual descrevo no livro. Acho fascinante que alguém tenha tido a ideia de enfiar um elefante num trem suspenso, que a ideia tenha sido levada a cabo, que a elefante tenha se jogado pela janela. Uma criatura que já vivia aprisionada num circo, tenho pra mim que o salto foi uma tentativa de fuga daquela vida, como a dança pode ser.

Os cravos estão no cenário de Nelken. O palco é totalmente coberto por cravos artificiais e os bailarinos têm de se virar pra dançar ali. Ao final os cravos estão amassados, alguns arrancados do piso, e flores novas vão substituindo as velhas. Imagine entrar num teatro e ver sobre o palco uma “plantação” de cravos cor-de-rosa? O espetáculo já começa ali. Ao final dá um certo desolamento vê-los desconfigurados, ao mesmo tempo que é lindo que eles estejam assim depois de tudo o que aconteceu ali.

Constância na vida x inconstância da dança?

Acho que só a Coca-cola e o McDonalds são constantes. Às vezes a gente precisa, né?

Você se assustou com o que escreveu?

Me assustei mais na medida em que fui costurando os fragmentos e consegui chegar a um todo que fazia algum sentido. O maior medo de todo mundo que escreve é o de conseguir traduzir – com todas as limitações e imperfeições e que tais – razoavelmente o que está na cabeça. E quando você consegue isso – idem – vem esse outro medo de que pessoas poderão ler e se relacionar com o seu texto e tal. Então sim, me assustei um bocado.

A incomunicabilidade e a impossibilidade: “lugar para existências tão grandes”?

Fazer um filme, coreografar uma dança, escrever um livro… é tudo impossível e a gente continua tentando.

 

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