Prata da Casa

A mística das bienais do livro

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Por Bruno Zolotar

Não faço parte da turma que, a cada Bienal do Livro, acha que o formato e o conceito precisam ser repensados. Há anos as Bienais, tanto do Rio quanto de São Paulo, vêm crescendo com público e as vendas aumentando. O que aconteceu com a edição que terminou ontem tem um nome: crise. A crise é democrática. Chegou para todos os setores e obviamente ia chegar também na Bienal.

Estamos vivendo um momento econômico complicado com mais de 10 milhões de desempregados. Então, além do dinheiro curto, existe o medo de gastar demais e ficar sem emprego, o que chamam de confiança do consumidor. E as Bienais não são um programa barato. Uma família de 4 pessoas, com carro, gasta fácil pelo menos R$ 150 para ir à Bienal. Isso sem comprar um  livro.  Pelo preço médio do livro no Brasil, dá para comprar pelo menos 5 livros numa boa livraria paulistana ou em sites com este valor, em vez de ir para uma Bienal .

Mas toda compra tem um lado não racional e o leitor não enxerga a Bienal tão somente como um lugar para comprar livros. A coisa não é tão cartesiana.

Existe uma mística sobre as bienais do livro. É um programa. Para alguns, um programão. As pessoas vão lá como vão para um festival como o Rock in Rio. Sabem que tem que ter disposição, andar horas, que existe desconforto, gritaria, mas que também é uma espécie de celebração em torno do livro, que só acontece a cada dois anos, em cada cidade. Há programação cultural, há palestras, há autógrafos, há áreas interativas e, obviamente, há também muitos livros e muitas promoções.  É um grande circo temático em torno do livro.

Nesta última edição de SP, no geral, houve queda nas vendas, como era de se esperar. Isso veio principalmente por um fluxo menor de pessoas, mas também pela redução das compras unitárias por leitor. Se em anos anteriores era comum ver a compra de três ou quatro livros por cliente, neste ano a média caiu para dois ou três. E, com o dinheiro mais curto, as pessoas fizeram seu dinheiro valer mais e privilegiaram as promoções. Aliás, como acontece com qualquer um de nós quando vai ao supermercado nestes tempos de crise.

Eu, que devo ter aí na conta uns 10 anos de bienais, concordo que existem algumas questões com relação a conceito e custos, mas continuo achando que a Bienal é, verdadeiramente, onde você sente o pulso do mercado. Onde a indústria encontra o seu público. Onde você olha no olho do seu leitor e entende porque aquele livro que lançou deu certo ou errado. É onde você vê a tangibilização da relação de carinho entre autores como Carina Rissi e Eduardo Spohr e o seu público. Gente que fica 4 ou 5 horas numa fila para poder ter um ou dois minutos de proximidade com seu autor preferido. Antigamente a gente só via isso no mundo da música. Hoje vê nos livros. E muito disso foi construído nas Bienais do Livro.

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