Entrevistas

“Uma fuga perfeita é sem volta”, de Marcia Tiburi

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Klaus Wolf Sebastião é brasileiro, mas vive há décadas em Berlim. A cada ano interrompe sua profunda solidão para telefonar para a irmã caçula, em Florianópolis. Desta vez, porém, entre notícias triviais, Agnes faz uma desconcertante revelação: seu pai está morto. O fato desencadeia um vórtice de recordações, angústias, descobertas e acerto de contas. Narrativa que esconde um mistério — um segredo aninhado no próprio corpo de Klaus —, enquanto passa em revista uma história de abandono, opressão e preconceito. Com isso, expõe a ferida aberta por questões cruciais sobre nossa época.

“Klaus é alguém que, de certo modo, não existiu. Ele é daquelas pessoas que não contam. O que ele quer é existir, mas não para os outros e sim para si mesmo. Eu diria que ele quer estar em si numa época em que todos reivindicam o direito à singularidade, mas poucos fazem o esforço da interioridade”, descreve a filósofa e escritora Marcia Tiburi, nesta entrevista. Uma fuga perfeita é sem volta é seu quinto romance — e, talvez, aquele que mais se aproxime das “questões pesadas de nosso tempo: a comunicação na era da incomunicabilidade, as relações de amizade na era da falsidade e do interesse, o corpo na era da sexualidade, a fé na era da mercadoria”.

“Uma fuga perfeita é sem volta” surpreende por seu enredo intricado, pela história sui generis e pelo protagonista complexo, cuja identidade só é dada a ver aos poucos, quase como num suspense. Como nasceu esse romance?

Eu tinha um sonho recorrente que deu base ao romance, à medida que fui escrevendo nesses quatro anos, eu tive a sorte de ver esse sonho evoluir. Os sonhos dentro do romance são todos meus.

De fato, sonhei muitas vezes com a cena de abertura do romance, aquela notícia da morte do pai ao telefone em meio às notícias banais, dada pela irmã. A psicanálise não daria conta daquele sonho, nada poderia resolver, ou responder às questões que o sonho colocava. Ao mesmo tempo, o tema da incomunicabilidade, da distância, da ausência, iam aparecendo no ato mesmo de construir os personagens. Eu não penso que construímos o personagem, creio que ele aparece, que ele nasce como uma presença que se faz mais concreta a cada parágrafo.

Por que Berlim? Por que a Praia de Campeche, em Florianópolis?

Coisas do inconsciente literário. O meu personagem foi embora e, depois de muito tempo, recebe, meio que por acaso, a notícia da morte do pai. O que eu sabia, no começo da história, é que ele era filho de um pescador. Tenho amigas que moram na praia do Campeche, lá eu conheci o senhor Getúlio, filho de um amigo de Saint-Exupéry, seu Manoel. Ele me contou várias coisas sobre a amizade dos dois, sobre as passagens do escritor francês por lá. Eu me inspirei livremente nessa passagem para construir a questão da fuga que permite a evolução do romance, e que se torna uma questão mais decisiva no fim do livro. Me interessava também a questão do Desterro, nome original da ilha, e desse cidadão desterrado da própria casa e da própria língua. Essa distância no tempo que era distância na língua alemã, entre o dialeto trazido pelos colonos no século 19 ao sul do Brasil e o alemão de hoje. Ele fala o dialeto do interior de Santa Catarina, de onde seus pais vieram para viver na praia, o que não é nada comum. Ou seja, ele também não é nativo de Florianópolis. Trata-se de um cidadão que veio de um lugar interno e que foge para um lugar externo sem nunca conseguir de fato ter um lugar. Mas ele encontra um lugar.

Klaus Wolf Sebastião, protagonista e narrador, muitas vezes descreve a si mesmo como alguém “estranho”. Como você apresentaria, em poucas palavras, esse personagem?  

Ele é gago. A gagueira é uma marca corporal que interfere em toda a sua vida, em todas as suas relações. Ele tem outras marcas corporais que ficam ocultas e que são relativas à sua condição sexual. Ao mesmo tempo, ele é um funcionário, um homem simples e bastante ressentido com a vida que viveu, mas é alguém sensível, que desenha, que lê, que estuda. Ele vive em silêncio, conseguindo conversar basicamente com dois amigos por quem tem um imenso apreço. Klaus é alguém solitário, perdido, um legítimo representante do abandono típico de nossa era tecnológica, espetacular e digital. Fui sendo surpreendida por ele, inclusive por seu nome, meio alemão, meio brasileiro. Por isso é que falo de um inconsciente literário. Eu quis usar um nome bem brasileiro e o nome de São Sebastião apareceu por acaso. Quando percebi que o nome da santa que o acompanha é Irene, então, fiquei mais impressionada ainda, porque não tinha consciência disso. Mas quem escreve sabe que é assim, tudo o que estava esquecido ou negligenciado vem à tona.

E a metamorfose que ele vive durante o romance? Você chamaria assim mesmo – “metamorfose”? Como a descreveria?

Ele vive um devir. Sua história é marcada pelo desejo de devolver a si mesmo uma biografia. Klaus é alguém que, de certo modo, não existiu. Ele é daquelas pessoas que não contam. O que ele quer é existir, mas não para os outros e sim para si mesmo. Eu diria que ele quer estar em si numa época em que todos reivindicam o direito à singularidade, mas poucos fazem o esforço da interioridade. Tenho certeza que essa não é uma questão para muita gente. Ao mesmo tempo, tenho certeza que o livro conversa com as grandes questões de nossa época: gênero, raça, classe social, a questão do fazer, do trabalho, da classe cultural, da religião, a globalização, o turismo. Klaus nos confronta com o problema do pertencimento. De onde sou? Para onde vou? O que posso ser? O livro cria tensões em relação ao nosso tempo, de um modo delicado, ou seja, de um modo que vem de dentro. Saint-Exupéry – de algum modo – se torna alguém essencial nesse projeto. Mas um Saint-Exupéry bem diferente do que imaginamos.

Este é um livro de muito fôlego: mais de 600 páginas. Como sua trama foi construída?

Eu cortei grande parte do livro. Ele era mais reflexivo, mais demorado. Com os cortes ele se tornou mais ativo. Mais ágil, talvez. A narrativa segue direta, com uma trama longa e complexa, mas ao mesmo tempo, narrada de um modo bem simples e bem fácil de entender. Creio que as pessoas vão achar mais fácil do que meus livros anteriores, o que a meu ver, não atrapalha o meu livro, apesar do número de páginas.

Como este novo romance se relaciona às suas obras anteriores e, em especial, ao que você chama “Trilogia íntima”?

Ele está mais próximo em termos de narrativa de Era meu esse rosto, do que da trilogia. A intimidade continua sendo uma questão, mas a narrativa é bem diferente do caráter experimental – e até selvagem – eu diria, daqueles meus primeiros três livros.

A ideia de opressão, em diferentes formas e dimensões, é muito marcante neste romance. Escrever sobre a opressão é um chamado que deveria ser mais ouvido pelos autores contemporâneos? 

Os romances que nos tocam são aqueles que falam do nosso tempo e dos grandes dramas vividos em casa época. Cada época tem aspectos que sobressaem, como se dessem a sua cor, a sua tinta. Os romances clássicos são aqueles cujas cores não se apagam. Mas quem decide isso é o tempo. Meu romance toca em algumas questões pesadas de nosso tempo: a comunicação na era da incomunicabilidade, as relações de amizade na era da falsidade e do interesse, o corpo na era da sexualidade, a fé na era da mercadoria.  A meu ver estive falando das potências de ser “si mesmo”, digamos assim.

“Eu pensava nas pessoas que fazem parte de um terrorismo horroroso, aquele que afirma o terrorismo alheio como algo ruim, enquanto esconde o seu próprio. Eu pensava no consumismo, no entreguismo, nos que, ao compactuarem com as tendências dominantes, sobretudo a tendência econômica, fazem todo tipo de mal. O mal radical e o mal banal (…)”, afirma Klaus, descrevendo sua revolta. Este é um livro que mira brechas e resistências ante as tendências dominantes?

A condição corporal de meu personagem, sua história pessoal, familiar, seu fenótipo e seu legado de classe não permitiria que ele não tivesse um sentimento em relação à sociedade. Ele viveu e testemunhou muitas contradições. Foi vítima de muitas experiências, de vários preconceitos e erros vindos de todos os lados, das mais diversas instituições e pessoas. É vítima de um grande e profundo abandono do qual a família não é a únicacausa. A família, o pai, a irmã, não surgem no romance para problematizar  apenas as instituições e o poder, mas para fazer entrar a questão mais profunda da política como relação como outro mais próximo e mais distante. Necessariamente ele tinha que problematizar isso tudo na linha de sua história.

Klaus tem, supostamente, uma “doença”. A gagueira o inibe e serve como uma espécie de indício da intimidação que sofre seu corpo. Sua mãe era tida como “louca”. Inevitável pensar nas questões de gênero que, de certa forma, permeiam o romance. O quanto esse tema é caro à sua obra?  

No caso desse romance esse é, de fato, um aspecto central. Todo romance visa à construção de um sujeito, de um narrador que, querendo ou não, expõe uma visão de mundo. A questão de gênero apareceu como um fator fundamental na vida do meu personagem em função de sua formação e de seu corpo. Daí sua relação complexa com a irmã, com a mãe e com Irene. Um problema que ele não viveu bem, que ele recalcou para não sofrer mais.

Apesar da distância geográfica, há algo da atual conjuntura da sociedade brasileira que ressoe dentro deste romance?

Se você fizer o cálculo, ele está vivendo na Alemanha de 2017 e falando de um certo Brasil cujas notícias ele recebe do pai de vez em quando. Ele fala de coisas que acontecem em todos os lugares onde os indivíduos são oprimidos por instituições. A história se passa, se consideramos esse ano de 2016, no ano que vem. Não tenho como negar que elementos da atual sociedade entram no romance, mas o foco é a subjetividade, o autoritarismo das instituições e a busca por não perder a poesia da vida quando tudo parece perdido.

Klaus frequenta um grupo de filosofia e cita alguns pensadores em seus debates — os íntimos e os com sua amiga Irene. Como o pensamento filosófico se infiltra em sua forma de fazer literatura?

A professora de filosofia já foi muito parecida comigo. No começo eu a usava para rir e brincar comigo mesma. Era também um jeito de me desconstruir por meio da literatura. Depois ela foi se tornando uma personagem mais autônoma, passou a ter uma vida para além da filosofia e se distanciou cada vez mais de mim. Nesse romance a filosofia entra como um elemento inevitável, pois Klaus estudou em um seminário – que eu também acabei por conhecer, por ter passado a vida ensinando para padres ou religiosos – onde sempre se ensina filosofia. Mas ele tem pensamentos próprios e seus estudos servem a ele mesmo e à sua interpretação de mundo e não a um sistema escolar ou de regras. Klaus é um crítico sincero de seu tempo e também da filosofia.

Comentários
  • Bhik Dyna

    Blza MT! Aqui em Floripa temos uma máxima para resolver todas as questões existenciais: “Foco no maaaaar!” E bora pegar onda!!! Bjs

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