Entrevistas

“Uma vida pequena”, de Hanya Yanagihara

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Por Conor Di Colli

Segundo romance da escritora americana Hanya Yanagihara, “Uma vida pequena” acompanha, por décadas, as trajetórias de quatro amigos, desde que concluem os estudos em uma pequena faculdade de Massachusetts e mudam-se juntos para Nova York. O relato – profundo, perturbador e emocionante – garantiu ao livro lugar em praticamente todas as listas de melhores obras de 2015 na imprensa estrangeira, além do posto de finalista de dois dos principais prêmios literários do mundo: o Man Booker Prize e o National Book Award. Nesta entrevista, a autora fala – entre muitos outros assuntos – sobre seu processo de escrita, as inspirações para a construção da trama, sua relação com Nova York e com os outros escritores, e sobre amizade, um dos grande temas do livro.

Certa vez, um escritor me disse que escrevia para a página em branco. Disse que é importante não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve? 

Geralmente, escrevo para o meu melhor amigo. Alguns escritores escrevem para uma audiência imaginária. Acredito que é melhor escrever para você mesmo e, se preferir, escrever com uma pessoa em mente. Uma Vida Pequena foi escrito tanto para mim quanto para o meu melhor amigo. Sem ele, esse livro não existiria. Toda vez que terminava um capítulo, eu o procurava e ele me respondia imediatamente e oferecia ideias e sugestões para minhas dúvidas. Durante o período em que escrevi esse livro, ao todo foram 18 meses, a gente se encontrou quase todas as sextas-feiras para discutir os temas, a vida dos personagens. Além de me ajudar com a narrativa, essa aproximação com ele também me ajudou com questões pessoais sobre amor, relacionamento e o que esperar da vida. Tudo que esse livro tem a dizer sobre as questões de amizade, por exemplo, foi baseado nas conversas que tive com o meu melhor amigo.

Você teve uma infância bastante inusitada. Você e seu irmão foram praticamente criados em hotéis de beira de estrada. Você pode falar um pouco sobre esse período?

Nós nos mudamos com frequência devido às necessidades do meu pai, que era médico oncologista. Atravessamos o país quase dez vezes. Não tinha glamour. Eram viagens de carro que duravam semanas, meses. Ao lado do meu irmão mais velho, eu brincava por corredores de motéis de beira de estrada enquanto os nossos pais trabalhavam.

Costuma-se dizer que o lugar em que um escritor nasce e vive influencia na sua personalidade e voz literária. O que acha disso?

Não acho que a voz de um escritor esteja diretamente conectada ao lugar em que ele escreve. Porém, alguns autores como Richard Price e Junot Díaz não conseguem separar a ficção do lugar em que estão rodeados. Mas isso não é verdadeiro para todos os escritores. Além de viajar bastante, eu também tive muitos empregos ao longo da vida. Acho que esses empregos me influenciaram mais do que os lugares por onde passei. Em alguns empregos, você tem um monte de amigos e isso acaba influenciando as suas escolhas intelectuais e o jeito que você pensa.

Ao contrário dos seus contemporâneos, você não tem um diploma em Escrita Criativa e não faz parte do circuito das revistas literárias. Você escreveu Uma Vida Pequena enquanto trabalhava como editora na revista Conde Nast Traveler, ou seja, a vida de escritor não é a sua profissão. Quando e como a literatura começou a fazer parte da sua vida? 

Aqui nos EUA, especialmente em Nova York, a cultura de escritores que carregam diplomas em Artes e Escrita Criativa é muito forte. Se você quer ser escritor, isso é quase como uma obrigação. Então, não possuir essas credenciais foi um desafio para mim, pois nunca fiquei exposta a outros escritores. Até aí tudo bem! Porém, quando precisava de citações de outros escritores para colocar na capa do meu livro, eu e meu editor conversamos com mais de 20 escritores e pedimos uma avaliação do livro. Ninguém aceitou. Isso aconteceu simplesmente pelo fato de eu não conhecer nenhum escritor, não fazer parte desse clube. Mesmo após a publicação e o sucesso do livro, não ando com escritores. O que ajudou um pouco na divulgação do livro foi o fato de eu trabalhar com a publicação de revistas, mas fora isso não tive nenhum escritor ao meu lado para me ajudar a navegar durante essa jornada absurda que envolve o lançamento e a divulgação de um livro. Ao mesmo tempo, quando você não faz parte desse sistema, está livre de quaisquer regras e isso foi uma grande liberdade.

Agora, mesmo depois do sucesso de público e crítica de Uma Vida Pequena, você trabalha na T, revista do The New York Times. Como você divide o tempo entre o seu trabalho e a sua vida de escritora? 

Sim, trabalho no Times, mas estou largando esse emprego em breve. Vou tirar um ano de folga, mas vou sentir falta da vida de escritório. Acho que é útil para um escritor ter um trabalho fixo, pois isso ajuda a estruturar melhor o seu tempo e, assim, você também não tem que se preocupar tanto com questões financeiras. Geralmente, escritores são pessoas introspectivas que passam muito tempo dentro de si mesmas. Ir a um escritório, por exemplo, te obriga a estar rodeado de outras pessoas, outras experiências. E isso é algo que ajuda na ficção, pois você se torna um grande observador. Vou viajar para pensar nos próximos projetos, mas não me vejo como o tipo de escritora que não tem um trabalho fixo. Para mim, o ideal seria trabalhar de duas a três vezes por semana em um escritório. Sou uma pessoa preguiçosa por natureza, então o trabalho no escritório me ajuda com a questão da rotina, de saber que tenho que levantar e ir para algum lugar. Se ficar em casa o dia inteiro só escrevendo, acredito que não iria conseguir lançar outro livro.

Fiquei sabendo que você já escrevia ficção desde a época da faculdade. Onde foram parar esses ‘romances’? 

Sempre quis escrever ficção, escrevi bastante na faculdade, mas não tinha autoconfiança. O problema é que aos 20 anos eu queria que tudo acontecesse muito rápido. Acho que todo mundo passa por isso nessa idade, você quer que seu trabalho seja reconhecido o quanto antes. No meu caso, logo percebi que não seria a pessoa mais jovem a conquistar um grande marco artístico, não seria a escritora mais jovem a escrever o grande romance americano, nem nada do tipo. Mas essa pretensão é coisa da idade. Quando você envelhece e ganha experiência, logo percebe que ser o primeiro da sua geração a fazer algo considerado grande não é tão importante quanto parece. Nesse período, também aprendi que para escrever um livro você precisa sentar e escrever, não é preciso seguir o estilo de vida de um escritor para se tornar um bom escritor. Mas não me vejo como uma típica escritora em Nova York, eu não vou em festas e eventos para escritores, não ando com pessoas da área, essa não é a minha vida. Estou interessada em escrever livros, não em ter o estilo de vida de um escritor.

Como a sua experiência como repórter e editora de revistas te ajuda com a ficção? 

O jornalismo me ensinou a entender conceito de estrutura e ritmo. Se você trabalha como um editor é preciso deixar a história caminhar em uma boa velocidade, evitar que o leitor fique entediado logo de cara. Isso é algo que consegui transportar para o meu livro — embora Uma Vida Pequena tenha mais de 700 páginas. Outra coisa que aprendi e que é muito importante é a questão de entregar um manuscrito limpo, sem erros de ortografia, deixar da melhor forma possível. Acho que uma das coisas mais importantes que aprendi no jornalismo é lidar com o tempo e não ficar preso em pequenos detalhes. No jornalismo, se você tem um prazo, mesmo se você não esteja satisfeito com tudo, uma hora ou outra vai ter que entregar o texto. Esse aprendizado me ajudou a colocar tudo em outra perspectiva, pois muitos escritores de ficção tem esse problema na hora de entregar o texto: eles simplesmente não sabem a hora de parar.

Li que Uma Vida Pequena começou após você ter a ideia de um personagem (Jude) que nunca melhora. Você pode comentar um pouco sobre isso? Antes de você começar um livro, o que vem primeiro: narrativa, voz, personagem, espaço?  

Uma Vida Pequena é quase como um conto de fadas, muito dele é artificial e exagerado, a ideia era para ser como um livro de fantasia. Quando comecei, pensei primeiro nos personagens e, em seguida, na estrutura. O meu principal desafio era escrever um livro em que, mesmo após diversas tentativas, o personagem não muda — simplesmente não consegue. E essa ideia de personagem que não muda vai contra a maioria dos romances que encontramos na livraria, em que os personagens alcançam redenção no fim da jornada. O leitor percebe, logo no começo de Uma Vida Pequena, que o Jude não vai mudar. Foi aí que morou o meu grande desafio: como manter o leitor interessado nessa narrativa, como escrever sobre esse personagem sem deixar o leitor cansado. Também queria desafiar essa ideia de que um livro pode, sim, funcionar quando o personagem não consegue se desenvolver em termos emocionais. Eu estava muito interessada nessa mania feia e pequena de supor que as pessoas que não conseguem mudar sofrem de alguma falha de caráter. Na vida real, às vezes olhamos para esses casos e logo julgamos que essas pessoas não tentaram o suficiente, que elas estão no caminho errado. Espero que o leitor tenha ficado atento com essas discussões que tentei trazer para o livro. Hoje, discutimos sobre felicidade o tempo todo, mas essa discussão virou algo tóxico. Ela gera um julgamento muito alto, pois pensamos que todo mundo tem que ser feliz, tem que ter direito a esse status de felicidade e, infelizmente, por diversos motivos, essa não é a realidade de muitas pessoas.

Quais as vantagens e desvantagens de ser uma escritora de ficção em 2016? 

Essa é uma questão interessante. No mundo das artes, mulheres nunca foram levadas tão a sério como os homens, mas é claro que sempre há exceções. Se você abre o jornal e olha os títulos de ficção que são discutidos diariamente, você se depara com um número muito maior de autores masculinos. A indústria literária, em geral, ainda gira em torno dos homens. Sim, estamos em 2016 e isso ainda acontece, ainda é incômodo, ainda é desigual. Mas infelizmente essa questão de homens vs. mulheres não fica restrita apenas à literatura ou ao mundo das artes. Porém, não sei se isso me afeta muito pois não tenho interesse em saber como os meus livros vão ser recebidos. Depois que algum livro sai da minha casa, ele não pertence mais a mim.

Falando sobre a eterna discussão entre homens e mulheres, houve muitos comentários sobre a falta de uma grande personagem feminina em Uma Vida Pequena. O que você tem a dizer sobre isso? 

É sempre uma conversa oportuna quando as pessoas perguntam: “o que um autor pode ou consegue escrever, um escritor deve escrever apenas sobre a sua própria tribo?”. Na comunidade literária, existe esse tabu de que mulheres deveriam escrever apenas sobre a perspectiva de outras mulheres, enquanto homens deveriam escrever sobre a perspectiva de homens. Mas esse pensamento é tão raso e antigo. Olhe o exemplo de Hillary Mantel que, na maioria de seus livros, escreve com perfeição sobre homens e ‘assuntos masculinos’. O contrário também acontece. O mais curioso é que algumas pessoas me perguntaram: você sabia que não há nenhuma mulher no seu livro? Essa é uma pergunta estranha, pois pensei que estava claro que essa foi uma escolha intencional.

Após um livro que te consumiu diariamente por 18 meses, como você pretende seguir para o seu próximo projeto? 

Tive uma grande ressaca após Uma Vida Pequena. Não esperava por isso. Você termina um projeto e geralmente pensa que está preparado para seguir em frente, mas às vezes o projeto não está pronto para sair de você. Desde a publicação desse livro, há mais de um ano, ainda estou presa nele e esse é um dos motivos para eu tirar longas férias. Preciso de tempo e espaço para pensar no próximo projeto. Costumo ter o livro completo em minha cabeça antes de começar a escrever. Então, preciso desse tempo de incubação, preciso de tempo para nadar, andar por aí sem compromissos. Isso me ajuda a sair da tal ressaca.

A trama de Uma Vida Pequena se desenvolve em Nova York, mais especificamente em SoHo, Manhattan, onde você vive. O que Nova York representa para você? 

Vim para cá assim que me formei. Antes, se você era uma pessoa ambiciosa, Nova York era a cidade para se morar — ainda é assim hoje, mas antigamente, nos EUA, não tinha mais nenhum lugar para ir. As coisas que amo em Nova York são justamente as coisas que me deixam louca. Mas vamos lá: o bom daqui é que ainda é uma cidade cheia de pessoas ambiciosas e interessantes. Você entra em qualquer lugar em Nova York e nunca vai ser a pessoa mais interessante ou inteligente daquele lugar. Em todo canto da cidade há tantas pessoas inteligentes em temas e questões tão específicos que você nem sabia que existia. Também gosto que Nova York é uma cidade onde diferentes classes e estereótipos se encontram e andam juntos. Nem sempre é assim, mas geralmente há essa ideia de que você é celebrado pelas suas particularidades.

Quando você entregou o manuscrito de Uma Vida Pequena, seu editor achou que era um livro muito grande e difícil de ser vendido. Após a publicação, você provou o contrário: o livro foi indicado para importantes prêmios literários e também teve um grande sucesso comercial. Quais elementos você acha que ajudaram Uma Vida Pequena a ter se tornado esse sucesso todo? 

Olha, acho que tive bastante sorte. Esse não era um livro que tinha pretensão de se conectar com muitas pessoas, lembre-se que foi um livro que escrevi exclusivamente para mim e para o meu melhor amigo. Uma Vida Pequena sempre foi um livro tão pessoal, então foi uma surpresa perceber que meus temas particulares ressoaram tão bem com o grande público. Porém, esse é um livro bem americano e contemporâneo quando trata de temas como ambição, sucesso e felicidade. Não é um livro político, mas tem algo a dizer sobre os diversos significados que podem ser aplicados ao conceito de uma uma boa vida. Mas acredito que as questões sobre amizade e os problemas sentimentais da condição humana foram responsáveis pelo grande interesse que o livro recebeu.

Quais elementos necessários para uma grande amizade? 

Como eu disse, a grande reação do público em relação a esse livro foi em torno da questão da amizade. No livro, não incluí pessoas utilizando telefones na mesa. Lá, eles se encontram para jantar e falam sobre os mais diversos assuntos. Essa é a mesma experiência que tenho com meus amigos na vida real. No meu caso, não tenho um smartphone, então, mesmo se quisesse, não iria conseguir utilizar o telefone no meio de um jantar com amigos. Hoje em dia é difícil manter uma amizade duradoura, escuto esse tipo de comentário a toda hora. Acho que qualquer grande amizade deve ser encarada como um relacionamento que requer muito trabalho — assim como qualquer outro. Acredito que amizade não tem a ver apenas com encontros e jantares para colocar o papo em dia. A grande amizade requer um tipo de esforço emocional que hoje em dia parece estar em extinção.

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