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“Rebentar”, de Rafael Gallo, é um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura

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O escritor paulistano Rafael Gallo é um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura, que anunciou o resultado da edição deste ano na última segunda, 10. Seu livro “Rebentar”  (Record) foi o escolhido entre os sete finalistas da categoria ‘romance de autor estreante com menos de 40 anos’.

Gallo foi revelado em 2011 pelo Prêmio SESC de Literatura com o livro de contos “Réveillon”, que lhe rendeu também uma indicação ao Jabuti em 2013. Em 2015, lançou “Rebentar”, seu primeiro romance. A trama conta a história comovente de uma mãe que perdeu o filho e tenta refazer sua vida sem ele, 30 anos depois.  Com uma escrita poética, o escritor fala do combate incessante de muitas mães e da cartografia emocional de suas buscas.

Quatro outros autores da Editora Record estavam entre os finalistas do prêmio.  Vencedora da edição 2015 do Prêmio SESC de Literatura, Sheyla Smanioto concorreu na mesma categoria de Gallo com o romance “Desesterro”. Na categoria melhor romance do ano, estavam na disputa  “Enigmas da primavera”,  de João Almino, “Rio Negro, 50”, de Nei Lopes, e “O senhor agora vai mudar de corpo”, de Raimundo Carrero.

O Prêmio São Paulo de Literatura é um dos mais prestigiados do país e conta com a maior remuneração individual. O autor do melhor livro de romance do ano recebe R$ 200 mil e os vencedores na categoria para autores estreantes levam R$ 100 mil cada.

Em entrevista ao blog da Record, Rafael Gallo falou sobre a nova conquista:

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Além de vencedor do prêmio SESC em 2011, você foi  indicado ao Jabuti e agora conquistou o Prêmio São Paulo com seu primeiro romance. O que este prêmio representa na consolidação da sua carreira como escritor?

Eu acho que a carreira de escritor tem muito disso: estamos sempre a consolidá-la. O que tem seu lado ruim, claro, porque a gente fica se sentindo, muitas vezes, como se andasse sobre uma ponte em que temos que colocar cada tira de madeira sob nossos pés, para cada passo, com um certo medo de que a coisa toda possa desmoronar antes de você se firmar (risos). Mas o Prêmio São Paulo é aquele tipo de coisa que me faz sentir como se tivesse colocado a tira da medida áurea, aquela que finca um ponto de equilíbrio muito mais sólido. É uma coisa muito grande para mim, estou até agora meio besta.

Como foi escrever “Rebentar” e fazer essa ‘transição’ do conto para o romance?

No começo, foi bastante desafiadora essa questão da transição. Os contos têm um universo mais restrito de personagens, então conduzi-los é mais como cuidar de uma criança, sabe? Aquela coisa que você fica meio de olho, para ver se não se afasta muito ou chega perto de algum perigo, mas que ainda está ao alcance do olhar. Já no romance, a história vai a se perder de vista. É como fazer uma viagem de longas distâncias, maiores do que você é capaz de enxergar com precisão desde o começo. Mas o caminho, como nessas viagens, vai se revelando pouco a pouco, e a travessia passa a ter sua beleza, quando você a aproveita pela travessia em si.

Você tem projetos em andamento? Se puder adiantar, sobre o que será sua nova história?

Sim. Eu estou trabalhando em alguns contos, para um futuro livro de narrativas breves, mas também estou compondo um novo romance, que no momento é a prioridade. Não gosto de adiantar muito de um romance incompleto, primeiro porque tudo pode mudar bastante e, segundo, porque tenho um ciúme danado das minhas histórias enquanto elas ainda não estão prontas para serem entregues ao leitor (risos). Mas se “Rebentar” foi o livro da mãe, de sua ternura e suas dificuldades, o próximo romance será uma espécie de “livro do pai”. Outra história, outros temas e personagens, mas o foco nessa outra metade de nossas origens, de nossas vinculações matriciais.

Leia um trecho do livro “Rebentar”

“Conforme Ângela dá meia-volta, seus passos ressoam o ruído dos grãos de areia espalhados pelo concreto contra seus sapatos. Ela deixa a plataforma do píer, dando as costas para o mar. Atravessa a faixa da orla, em direção à trilha que leva ao descampado onde deixara o carro estacionado. Com o rosto inclinado para o chão, observa suas pegadas anteriores marcadas na areia, cada uma delas se desmanchando sob o peso de seus passos seguindo agora no sentido oposto. Ainda restam sombras de dúvidas quanto à sua decisão de encerramento. Embora tivesse refletido muito a respeito de sua renúncia e soubesse o peso de sua escolha, Ângela pressente também que esse novo caminho diante de si pode se revelar, ao fim, como  apenas mais um entre tantos outros rumos iniciados, interrompidos, desfeitos e refeitos sem nenhuma mudança efetiva em sua trajetória como mãe de um filho desaparecido. Dali a não muito tempo pod eria estar, por exemplo, novamente sentada em um avião, voando em direção a qualquer canto do país de onde se anunciasse a hipótese de alguém, ou um cadáver, ser passível de identificação com Felipe. Por essa e tantas outras razões, sabia que não poderia tomar sua decisão pela renúncia de forma leviana; não se permitiria fazer algo assim pela metade, com a perspectiva de voltar atrás a qualquer momento. Se quisesse de fato se desprender da esperança de reencontrar seu menino, teria de ser resoluta a ponto de não restar nada que a colocasse novamente nessa trilha de uma maternidade à espera de restauração.

Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente; essa dor nenhum deus teve de suportar. Cada noite que cai desaba sobre os pais com o peso renovado da notícia: você perdeu sua criança e ela está em algum lugar nessa escuridão afora, desprotegida de seu lar. Essa mensagem silenciosa se impregna nas paredes da casa, nos vãos entre os azulejos, nos ponteiros dos relógios e nas páginas dos calendários, nos retratos da família, no chão que se pisa. É um luto com uma diferença fundamental: alguém que não é reencontrado nunca se perde em definitivo. Há sempre uma nova possibilidade, uma nova tecnologia de rastreamento, uma nova pista sobre seu paradeiro, uma nova esperança. Se o filho morre todos os dias, sua ressurreição também é constante e dolorosamente insubstancial. Tantos renascimentos possíveis, iminentes, abortados em uma série sem fim de fracassos nas buscas.

Na verdade, não há infinitas mortes nem infinitas vidas, nunca houve: o que resta, no lugar da criança desaparecida, é uma anulação constante entre vida e morte — polos opostos de um mesmo vazio sem contornos. Os pais e o filho para sempre habitando esse vão: morrendo vida afora, vivendo adentro de uma morte que não se consuma.”

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