Record convida

A verdadeira história por trás de “O menino feito de blocos”

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Por Keith Stuart

Quando nosso filho Zac tinha dois anos, minha esposa leu que nessa idade a maioria das crianças tem um vocabulário de cerca de cinqüenta palavras. Zac conseguia dizer dez. Foi a primeira indicação que tivemos de que algo não estava certo. Bem, não foi a primeira indicação. Como Sam, a criança retratada neste livro, Zac também chorou muito — e quero dizer muito. Durante os três primeiros anos de sua vida, acho que não tivemos uma única noite de sono ininterrupta; ele acordava várias vezes, do início da noite até de manhã, e levávamos horas para acalmá-lo. Ele parecia muito ansioso, mesmo quando ainda era um bebê.

Apenas quando ele já tinha sete anos foi diagnosticado oficialmente como estando no espectro do autismo. Até então, já estávamos bastante convencidos. Sua fala e sua memória ainda eram muito restritas, ele odiava alterações na rotina, tinha dificuldade de socialização e a escola parecia apavorá-lo. Mas, enquanto percorríamos o longo e tortuoso processo de descobrir por que ele era diferente, outra coisa estava acontecendo.

Escrevo sobre videogames para viver e por isso a nossa casa é cheia de jogos e consoles. A partir dos dois anos de idade ele escalava o meu colo e brincávamos juntos com jogos simples — ele se divertia apenas em pressionar os botões no controle e ver as coisas reagindo na tela. Então, quando ele tinha seis anos, eu baixei Minecraft, uma simulação de construção criada por Markus “Notch” Persson e sua equipe na empresa sueca de desenvolvimento de jogos chamada Mojang. Minecraft não é realmente um jogo no sentido estrito da palavra: é como LEGO, mas disposto em uma vasta paisagem que você pode explorar e alterar. Ele permite que você construa material, destrua coisas, cave buracos enormes, persiga animais de fazenda e mate monstros. Porém, o mais importante é que ele não lhe diz o que fazer, nem como. Você pode fazer o que quiser.

Zac ficou absolutamente apaixonado. Junto com o irmão, Albie, passava todo o tempo que permitíamos vagando pela imensidão em blocos, construindo pequenos abrigos ou apenas cavando para encontrar materiais preciosos como ferro e ouro. Foi lindo vê-lo tão feliz e tão envolvido com alguma coisa. Era algo que ele podia fazer tão bem quanto o irmão e seus amigos; ele não era deixado para trás. Quase tão importante era o fato de que ele estava aprendendo: começou a dizer palavras novas, adorava nos contar sobre o que estava construindo e as coisas que queria fazer. Sempre que lhe perguntávamos sobre a escola, ou como estava se sentindo, ele geralmente respondia com poucas palavras, dava de ombros ou nos ignorava. Mas se perguntávamos sobre Minecraft ele se iluminava completamente. Foi uma revelação.

Foram as experiências maravilhosas do Zac com o jogo que proporcionaram a inspiração para este livro. Eu queria transmitir o enorme impacto que Minecraft teve na vida dele, como o ajudou a se expressar e, talvez mais importante, como nos ajudou a entender como ele era e o jeito dele. Após vários anos de exames médicos, terapia ocupacional, audiometrias e visitas aos pediatras, os problemas que Zac enfrentou tinham se tornado o nosso único foco. Minecraft nos ajudou a enxergá-lo e a apreciá-lo como uma criança engraçada, criativa e perspicaz: ele nos ajudou a encontrar o nosso menino.

Sam definitivamente não é Zac, mas muito do que acontece com ele foi retirado das nossas vidas e do que aconteceu conosco. Muitas vezes escrevi sobre o Zac e Minecraft para o Guardian, e, a cada vez que o faço, recebo comentários dos pais cujos filhos são autistas ou apenas um pouco diferentes. Eles expressam a mesma sensação de alívio, felicidade e animação que sentimos na nossa família quando Zac se voltou para Minecraft e o usou como uma forma de nos contar sobre si mesmo. Videogames têm uma reputação ruim; muitas vezes pensamos neles como coisas que precisamos controlar e limitar, mas também podem ser um espaço de tolerância em que as pessoas aprendem a compartilhar e criar sem julgamento ou confinamento.

Zac agora está no segundo segmento do ensino fundamental, e, embora fique atrás de seus colegas em uma série de coisas, ele está indo bem. Estamos achando que talvez um dia ele faça seus próprios jogos — ele certamente é muito bom nisso. Mas, aconteça o que acontecer, nunca vou me esquecer da maneira como ele reagiu a Minecraft ou da forma com que o jogo o acolheu e o fez se sentir à vontade. A vida impõe muitas barreiras para as pessoas que são diferentes. Qualquer ferramenta que nos ajude a apreciar essas pessoas (sejam elas quem forem, não importa como diferem de nós) é uma coisa preciosa. Isto foi o que aprendi e sobre o que este livro trata.

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