Entrevistas

“Céus e Terra”, de Franklin Carvalho

1 Comentário

  Por Mariana Moreno

Desde a infância, as imagens da morte rondam a mente de Franklin Carvalho, a tal ponto de a obsessão permanecer na vida adulta e virar ideia para um projeto de mestrado. Em vez do texto tradicional acadêmico, o jornalista preferiu enveredar pela ficção. Sorte dos leitores porque foi assim que nasceu “Céus e Terra”, vencedor do Prêmio SESC de Literatura deste ano na categoria romance.

O livro conta a história de um menino pobre do sertão baiano, que é convocado para ajudar a salvar um homem crucificado. Os dois acabam morrendo.  Como uma espécie de fantasma, o garoto de 12 anos começa a acompanhar a rotina da pequena cidade de Araci e assim passa a compreender os símbolos e tradições locais que não puderam ser integralmente assimilados durante sua breve vida terrena.

“Céus e Terra” é resultado de suas pesquisas sobre a morte para o mestrado em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, e seus outros dois livros, “Câmara e cadeia” e “O encourado”, apresentam temas como apocalipse e vampiros. Como surgiu seu interesse por esse universo? As tradições religiosas que você presenciou no sertão da Bahia tiveram influência na construção de suas histórias?

Essa temática parte de experiências pessoais, da minha infância. Digo, de brincadeira, que a morte roçou a minha nuca. Aos seis anos, perdi meu pai e logo depois dois amiguinhos, mas sobrevivi, como era natural, porém restaram indagações. Além disso, minha cidade possuía ruas mal iluminadas, com casas antigas e cheias de lendas, e os anos 1970 eram repletos de esoterismo, inclusive na TV. Aos doze anos, tinha uma turma de primos que líamos muito sobre mitologia, UFOs, experiências de Madame Blavatsky, mistérios incas, maias e egípcios, e a revista Planeta, sem falar que ouvíamos Raul Seixas diariamente. Foi aí que encontrei uma edição compacta da Divina Comédia de Dante, com ilustrações de Gustave Doré, e fiquei encantado. Essas imagens todas sempre estiveram nos meus sonhos, mas nunca como pavor, antes via como uma tendência para algo na arte, por isso adorei conhecer Buñuel e os surrealistas. Também percebi que para as pessoas o sagrado não está fora da vida, mas faz parte do cotidiano. Quando resolvi fazer o mestrado, pesquisei muito sobre religião e morte, mas troquei o projeto acadêmico pela ficção, por enquanto. Ainda leio trabalhos científicos sobre esses assuntos, e escrevo nesse passo, uma etnografia inventada, o que vejo nas ruas, o que conheço dos livros e o que crio.

No seu conto “O Encourado”, um vampiro ronda as cidades do sertão e tenta ser aceito no mundo dos homens. Em “Céus e Terra”, no entanto, o espírito de Galego, apesar de não entender muito bem sua nova condição, se mostra resignado e não se revolta contra a morte prematura. Esta resignação seria também própria de um menino pobre, que vivia como um “criado” na casa de parentes, a quem a vida parecia não permitir grandes sonhos?

A tensão entre a sociedade e os diferentes está presente em muitas narrativas, de diversos tipos. Vulcano e Obaluaê são rejeitados assim que nascem por causa de seus estigmas. São Lázaro, um dos santos mais populares do Brasil, é retratado com cachorros lambendo suas chagas, mas com a cidade ao fundo. Ele, que é o santo da doença e da cura, está banido. Na literatura, Frankestein busca a aproximação, mas é rejeitado e se torna mais violento. Os personagens de histórias de terror são primeiramente alijados e representam a dificuldade de adesão ou aceitação de qualquer ser humano. Quando se fala em integração, é claro que devem ser considerados também os elementos econômico, estético, social etc. A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz diz que o sertanejo pobre é exilado antes mesmo de migrar, na terra onde nasce, porque não tem acesso a ela. O Encourado é um vampiro que sublima o isolamento bebendo as lágrimas das pessoas, tentando achar passagem entre elas, até que consegue uma solução inédita. Já Galego se contenta em observar os homens, mas é a sociedade que o convoca, escolhendo sua alma para venerar, tornando-o um santo e lhe pedindo milagres. Na verdade, os monstros também são arrolados no papel didático. No Encourado, uma mãe diz ao filho: “A vida sem monstros seria tão assustadora…”.

 

Pelos olhos de Galego, vemos a história de seu povo e de sua cultura e percebemos destinos que se repetem, com uma ou outra particularidade. Apesar de toda a brutalidade, a inocência das crianças e a solidariedade entre as mulheres são alguns elementos que parecem suavizar a trama. Que outros recursos você utilizou para tornar leve um livro que começa de forma macabra?

Há muitas coisas que acontecem antes, e que não param de acontecer durante e depois da narração de uma morte. Todas as movimentações do cotidiano, os boatos na feira, o passeio na tarde de domingo, o casamento, a conversa sobre política na barbearia, o banho de rio, os trabalhos das pessoas em casa e na rua, apontam para a sobrevivência. No meio da história, um jovem vem morar na cidade e, por ser de fora, parece incólume à tradição mais densa. Ele arruma emprego, participa de festa, paquera, fuma seus primeiros cigarros, faz amizades, ama. Tem uma vibração encantadora, que levanta o olhar das pessoas. Está vivíssimo, é quase o Teorema de Pasolini. Gosto especialmente dos dois circos que chegam, porque as crianças da vizinhança ajudam a montá-los. Nem se trata de descrever os espetáculos, mas de mostrar como as pessoas constroem a alegria necessária.

Com um tom muitas vezes debochado, você chama atenção para o sincretismo religioso, uma das características mais marcantes de nosso país. E você, como lida com a religião? Há algo de semelhante entre a sua visão e a de Galego?

O sincretismo é algo presente em todas as religiões, que durante séculos compartilharam práticas e mitos. Mas o que observei na prática é algo diferente, é o comportamento de indivíduos que em momentos de dificuldades recorrem a várias religiões, às vezes ao mesmo tempo, e que deixam aberta a possibilidade de se utilizar – e crer – no que estiver à mão. Isso, por vezes, acaba criando mais insegurança, pois quem apela para diversas entidades também teme diversas entidades. A minha pesquisa e o meu romance me ajudaram a perceber esse ruído. Pessoalmente, tenho fé, mas    busco uma contemplação do tipo mais silenciosa e antiga, que herdei do ambiente do sertão. Não convivo bem com o deslumbre e não persigo o ocultismo, a não ser poeticamente, na ficção. Aliás, enquanto escrevia Céus e Terra, eu tinha retomado leituras de Física e Cosmologia – Alexandre Cherman, Michio Kaku, Mário Novello, João Magueijo – e foi na natureza, na formação e morte das estrelas, na entropia e nas discussões sobre o tempo que achei várias soluções para Galego.

Em outra entrevista para o blog da Editora, você comentou que tem um livro de contos inéditos. Pode adiantar o que vem por aí? Algo também sobre a morte ou o cenário será outro?

O desafio dos personagens é sempre tentar sobreviver, com tenacidade, e as ameaças são colossais, ao mesmo tempo mitológicas e ambientais. É preciso decidir entre agir com violência ou renunciar a ela, recorrer ou desistir da religião, da política, da sociedade. Num dos contos, a caatinga é invadida por gigantes que saíram do Antigo Testamento, e um carpinteiro tem que lidar com isso e ao mesmo tempo se defender de jagunços. Em outra narração, num futuro não muito longe, a verdade será aquilo que a internet diz sobre as pessoas, e nem todo mundo está feliz com isso. Tento fazer uma ficção que encarne os medos reais e também as esperanças que não deixamos de ter.

Comentários
  • Antonio Sousa

    Muito boa entrevista. Tanto o
    entrevistado quanto a entrevistadora são muito perspicazes. Deu vontade de ler o livro

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