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A escrita invejável de Katherine Mansfield

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   Por Mônica Maia

A escritora neozelandesa Katherine Mansfield, bonita, talentosa, inteligente e célebre por seus contos, era uma mulher de saúde frágil e morreu de tuberculose aos 34 anos. A confissão da sua colega Virginia Woolf, a papisa da literatura modernista britânica dos anos 1920, dá a dimensão do talento de Katherine: “Eu tinha inveja de seu texto, talvez o único texto do qual tive inveja.” Outras grandes autoras também tiveram.

A literatura de Mansfield se move entre os universos paralelos de seus personagens, sejam estes geográficos, culturais ou psicológicos. É a partir deles que a autora repercute sua experiência fracionada entre a herança familiar da Nova Zelândia colonial e a realidade europeia do período posterior à Primeira Guerra Mundial, quando foi viver definitivamente em Londres, aos 20 anos. Mas sua obra guarda atualidade e frescor surpreendentes, como o leitor contemporâneo pode degustar nesta coletânea de contos publicados entre 1915 e 1922.

Nestes contos, a autora relata mudanças marcantes na trajetória de seus personagens, com fatos perturbadores decorrentes de acontecimentos mais ou menos triviais, sejam estes resultado da inexperiência de uma moça em sua primeira viagem internacional; a busca desesperada por trabalho; a crueldade infantil; o preconceito social e a luta de classes; o tédio conjugal; a traição no casamento; a bissexualidade; o consumismo; a vaidade  entre pretensos representantes da cena cultural. Com minúcia e poder descritivo comparável à linguagem cinematográfica, Mansfield recria ambientes, mobiliários, figurinos, refeições, aromas, músicas, elementos que ambientam os impasses de seus personagens – indivíduos imersos em refinadas nuances emocionais expressas nos fatos e nas contradições que os movimentam. As descrições dessas cenas são tão fidedignas que podem remeter os leitores de hoje ao capricho visual das melhores produções audiovisuais contemporâneas.

Influenciada por um dos mestres do conto, Anton Tchekhov, Katherine Mansfield privilegia pessoas comuns: balconistas, cantoras decadentes, senhorias gananciosas, donas de casa, crianças agitadas, empregadas furtivas, pretensos artistas, pequenos empresários ou cidadãos do mundo aparentemente sem história. Eles experimentam uma ruptura afetiva, emocional ou social, e são suas epifanias que coroam essas narrativas com uma prosa aparentemente simples, mas repleta de ritmo poético e assonâncias sem equivalência na língua portuguesa. Não é simples traduzir Katherine Mansfield, que, no passado, já teve sua prosa vertida no Brasil por referências literárias como os escritores Érico Veríssimo e Edla Van Steen, ou a poetisa Ana Cristina Cesar.

Alguns dos contos de Mansfield criam enigmas ao assumir descrições que por vezes beiram o fantástico, como em “Prelúdio”. Este conto é parte da tríade de contos longos, cuja intenção seria formar uma novela curta, que incluiria “A casa de bonecas”.  Este último também integra esta coletânea e reporta-se à infância, abordando a desigualdade social de maneira dilacerante. Nele, a autora analisa as reações aos preconceitos sociais desde a mais tenra infância.  “A festa no jardim”, também inspirado na infância da autora na Nova Zelândia colonial, trata de forma aguçada a perda da inocência imposta por códigos sociais.

Já “As filhas do falecido coronel”, calibrada como uma sátira às neuroses familiares, tratadas em perspectiva ora trágica ora cômica, também conta com recursos do fantástico.  Por sua vez, a comédia rasgada “Je ne parle pas français” nos revela o que se passa na mente de um gigolô que posa de escritor e tece uma ácida crítica social, além de expor a tradicional oposição entre a cultura inglesa e a francesa.  “Uma xícara de chá” critica o consumismo e a alienação por meio de uma ruptura no cotidiano de uma socialite londrina. Aborda também o narcisismo e o assistencialismo na Inglaterra pós-vitoriana, nos primeiros arroubos dos loucos anos 1920.

O icônico “Êxtase” (Bliss), traduzido anteriormente no Brasil como “Felicidade”,  é um clássico que captura a potência da prosa de Katherine Mansfield. A ousadia, o ritmo, o desenrolar dos acontecimentos, o colocam entre os mais famosos escritos da autora, que produziu joias literárias como “Srta. Brill” e tantas outras narrativas emocionantes, cujas filigranas influenciaram até mesmo uma autora brasileira do porte de Clarice Lispector:

“(…) aos quinze anos com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei   altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões,  lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada eu pensava: mas esse livro sou eu! E contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era uma anônima, sendo, ao contrário considerada uma das melhores escritoras de sua época: Katherine Mansfield.”*

*Clarice Lispector, Aprendendo a viver, Rio de Janeiro, Rocco, 2004.

Se os contos de Mansfield marcaram a escrita de Clarice Lispector desde a juventude ou causaram inveja em monstros consagrados como Virginia Woolf, reeditar e divulgar essa obra, que se mantém atual e pertinente, após um século de criação, merece aplausos.

 

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