Dica de leitura

“Cadeia: relatos sobre mulheres”

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ACOLHIMENTO

O nome está errado. A quarta-feira não é de acolhimento, mas de triagem — nomes, sofrimentos e precisões. As provisórias são apresentadas ao pelotão do jaleco branco. Muitas mulheres, poucos minutos nas cadeiras de seu Lenilton, d. Jamila, dra. Paloma, ou quem mais estiver por ali para desenfronhar dentes ou nervos. Em fila indiana, algemam-se umas às outras. Em marcha de procissão, os olhos farejam os pés. Para se mover no presídio, nem mesmo algema é propriedade de presa. Tudo é coletivo. A provisória é aprendiz de regras, uma noviça de cadeia, ainda pouco domesticada ao modo de vida na prisão. Quarta-feira é dia de barulho naquele apertado conjunto de salas. O colete preto insiste no dever de silêncio impresso nas paredes do Corró, cela de dois metros por dois, onde até dez provisórias esperam reconhecimento.

O Corró é campo gradeado no território da saúde. A palavra é corruptela de “cela correcional”. Na história da maneira de falar dos presídios, seria uma herança da ditadura militar. Nas celas correcionais, o preso político esfriava os miolos antes do interrogatório. No Núcleo de Saúde, Corró é sala de espera, mas com grades e algemas não sei se alguém alimenta esperança. Do lado de fora, há um mostruário ousado: vários tipos e formas de algemas esperam o corpo indócil. Demorei para entender, a mais larga das algemas não disciplina pulso, mas tornozelo nômade. Fora do Corró, no sofá esgarçado da entrada, amarram–se as presas do Seguro, o cortiço-esconderijo das ameaçadas de surra ou morte.

No acolhimento aprendi regra básica: prisão não começa no último bonde. Uma presa não titubeia na linha do tempo: passado em abrigo ou reformatório contabiliza tempo de cadeia. Lorrayne é uma das noviças, e das mais tagarelas no Corró. Cambaleava pela praça do crack da periferia da capital federal quando uma viatura da polícia a recolheu. Desceu de um bonde apinhado de noviças, dormiu a primeira noite em cadeia como adulta. No bonde, elas são multidão anônima e qualquer; no acolhimento, se personalizam pela desgraça do fora. “Já esteve presa?”, perguntou d. Jamila, “Sim, no caje”, o ex-reformatório de adolescentes do Distrito Federal. O colete preto moveu-se ao ouvir a desgraça implodida; é daquelas palavras tombadoras de surdez no presídio.

Lorrayne foi a presa mais jovem do presídio, dezoito anos e três dias. “Uso maconha, roupinol, cocaína, antirrespingo, papel”, o verbo foi mesmo no presente e a lista, desordenada. Conheceu cocaína aos onze anos, filha de bandoleira, pousou na casa da avó antes de vaguear pelas ruas: “Minha avó só me espancava, ela dizia que eu parecia minha mãe.” D. Jamila não se interessou pela genealogia familiar, queria mesmo era saber das drogas. “O que é antirrespingo e papel?”, em cinco anos de presídio as palavras indicavam novidade. Antirrespingo é primo pobre do lança-perfume, um preparado de solvente com efeito cáustico. Papel é sintético, finge-se de confeito. Lorrayne cresceu para esclarecer o desconhecimento da psicóloga, o colete preto fez carranca de desprezo. O diálogo antecipava corretivo no Isolamento, mas o arquivo já ajustava a altivez da noviça, catorze dias como provisória isolada desde a descida do bonde. D. Jamila consome seus minutos de acolhimento com três perguntas sobre os descaminhos no fora: se a provisória usa drogas, se os remédios são companhia para dormir e, na surpresa de ouvir “Não” às drogas e aos remédios, assunta sentimentos sobre a chegada ao presídio. A psicóloga diz ser essa a “pergunta-choque”: as grades são matéria concreta e a bandida é agora presa. Das doze noviças daquela tarde de triagem, duas responderam “Não” às drogas e aos remédios. Lorrayne disse “Sim-Sim”, por isso d. Jamila nem chegou à terceira pergunta.“No caje”, confidenciou, “tomava dois laranjinhas, eram estabilizadores de humor. Tenho duas caras, o psiquiatra já me disse.”

E passou a reclamar os coloridos. Os laranjinhas sem nome esclarecem segredos de seu nervoso: não dorme, não come, a voz falha, mas não pense ter sido  ela mulher rouca na rua. O resumo de suas dores dos nervos é a “Mente ficar fraca”, e ela teme a fraqueza resultar em acréscimo de artigo no presídio. D. Jamila não perguntou qual era ele. Lorrayne se foi como chegou, abusada e altiva, e eu fiquei sem saber a origem do malfeito. Os três dias da idade foram suficientes para o bonde carregá-la do fora para longo futuro no dentro.

VIGIA

Torre do presídio da capital federal é despotismo: janelas espiadoras, sala rica em telas, antenas e rádios. A torre tem lentes para o pátio, a Rodoviária e a Ala C. Pátio é chão grande de cimento. Se não fossem os muros altos, presa fantasiaria viver minutos de liberdade. Por ali se caminha, namora, toma sol ou a maçaranduba do tempo. A paisagem é seca e branca, a sirene marca início e fim de feriado da escuridão. A Rodoviária é telhado de zinco, instalação militar dura, única sombra do pátio. As visitadoras de quinta-feira perambulam pelo cimento, simulam piquenique na Rodoviária ou se protegem de chuva ou seca sob o sempre fervente zinco. Se a sirene vermelha toca, sinal de alerta: os visitantes inquietam-se na Rodoviária, as presas esperam procedimento na beirada do murão. A Ala C margeia o longo corredor de chegada à torre, nela se amontoam as provisórias. As grades permitem ouvir o escuro interior. Na cadeia os sons são vigilantes, a falta de luz convida à sonolência  ou confusão. Para vigiar nem sempre é preciso espiar. Ouvir facilita, organizar é estratégia escondida. O presídio é prenhe de espaço velado, a bisbilhotice da torre é curta. As Alas A e B abrigam doze celas cada, o trânsito é livre no interior das alas. Presa aprende rápido o modo de viver do presídio: quem dorme na jega, quem dorme na praia, como se usa o boi, como se transforma saco de lixo em esconderijo para cacarecos do fora. cobal é sigla; no presídio, sobrevivência, é trouxa do fora autorizada pelo dentro: pasta de dentes com tubo transparente, sabonete rosa ou azul, dois pacotes de absorvente, desodorante sem spray, biscoito sem recheio,  fruta só maçã ou pera. A depender do posto na hierarquia, cobal  da semana pode ser propriedade privada ou coletiva. Entre grades, guardar comida é convidar barulho. Na entrada da Ala B, as grades não bastam. São duas barreiras, a primeira é sólida, um portão de ferro amarelo. A chapa amarela abre toda ou só retângulo, a janelinha, de onde se mostram os olhos sentinelas. Da chapa amarela para o portão gradeado da entrada, há espaço vazio. No apertado baldio, jaleco branco distribui medicamentos ou emergencia atendimento. A chapa amarela e as grades protegem a sala nua, o monumento é a televisão de dois palmos de largura. Uma novela do passado deu nome árabe à saleta, Medina. Há janelas gradeadas em cada canto. Nunca atravessei a chapa amarela, o corredor das celas é breu da fronteira do baldio. Seguro é o espaço de convívio de portas fechadas. Não há televisão, só beliches e habitantes, o boi ocupa o centro da vida. Quando a chapa amarela se fecha, a vigilância não assiste ao interior, mas há encostos do poder no sempre lotado cortiço. A xerifa veste laranja, mas se passa por colete: rompe conflitos, organiza diferenças, lembra a lei. É posto disputado, supremacia de presa antiga. A pastinha da ala é presa classificada, com benefício de confiança na casa. Faz mandados, é menina de recados, descerra tranquinhas, orienta o vestuário antes de particular da presa com colete preto. Apresentar-se em desaprumo chama o corretivo e atrasa a cadeia. Há ainda as cabritas, encostos de colete esquecidas no uniforme de presa.

O Isolamento é visto do alto por janela improvisada. São três barracos no espaço herdado do reformatório infantil da capital federal. As isoladas dizem perder sono pelo grito longo do passado, o lamento das crianças atiça a insônia. Isolamento é a catacumba do inferno, daquelas repletas de fantasmas. O cheiro é de presídio fermentado, um misto de cigarro, mofo e amoníaco. Ala C é a audiência para o Isolamento, a janela da Medina tem os barracos como paisagem. Na porta dos barracos, há reduzido cimentado, escuro de lodo, com o nome ousado de pátio. Por ali, as isoladas recebem o sol com grades, criação recente da engenharia: instalaram-se ferros no teto depois de isolada escalar muro feito aranha, ensaiando fuga pelo céu.

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