Entrevistas

“Ferrugem”, de Marcelo Moutinho

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Por Manoela Sawitzki

Carioca de Madureira, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho retoma em seu quarto livro de contos, “Ferrugem”, temas que o acompanham desde a estreia, em 2001.  Nesta vasta “paisagem humana” que atrai seu olhar e alimenta sua escrita, dramas cotidianos de personagens aparentemente comuns deslizam entre passado e presente, desejo e experiência.

O lançamento de “Ferrugem” acontece nesta terça-feira, 31 de janeiro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, a partir das 19h. Na quinta-feira, o autor dará autógrafos em São Paulo, na Livraria da Vila Fradique Coutinho, também às 19h.

 A questão da memória tem sido matéria essencial pra tua escrita. Por isso gostaria de começar pela tua memória enquanto escritor. Teu primeiro livro publicado, Memória dos Barcos (o título, aliás, já dizia a que você vinha, ou o que te movia), é de 2001, mas como e quando você sentiu que precisava escrever e passou a escrever de fato? O conto, como forma, esteve ali desde o começo?

Sempre tive afeição pela escrita, desde bem criança. Isso, inicialmente, ocorreu por intermédio das histórias em quadrinhos. Li muita HQ até conhecer a célebre coleção Vaga-Lume, da editora Ática. Adorava aquela série. Autores como Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Maria José Dupré… À literatura dita adulta, cheguei por meio das estantes de minhas irmãs mais velhas, que tinham muitos títulos do Círculo do Livro. E, sobretudo, pelas vias da crônica e da poesia. Aliás, foi sob a forma de poema que arrisquei as primeiras palavras escritas. Costumo dizer que eu “cometia” poemas, de tão ruins que eram – embora tenha até ganhado um concurso lá no Colégio Hélio Alonso do Méier, onde estudei no fim dos anos 80. A passagem para a prática da prosa só foi acontecer após a faculdade de Jornalismo. Talvez por achar que o texto da reportagem não dava conta daquilo que gostaria de dizer, que faltava algo. Desde o começo, o gênero foi o conto. Não que tenha algo contra o romance – adoro ler romances. É que, ao menos até hoje, as histórias que escrevi pediram brevidade. E, no meu caso, é a história quem manda.

E quanto ao jornalismo? Você escolheu esse curso num momento em que ainda havia uma espécie de aura em torno da profissão – grandes nomes, textos, cronistas e espaço pra reportagens que se aproximavam do jornalismo literário. E muitos escritores fazendo parte do cotidiano de jornais e revistas. Foi esse o universo que te atraiu?

Certamente. Quando fiz o vestibular, o Brasil vivia sua primeira eleição direta após o longo período da ditadura civil-militar. Era um momento de pujança, de intensos debates, e os jornais estavam no centro desse processo. Refiro-me mais aos espaços de reportagem e de opinião do que às colunas de crônica. Essas que, infelizmente, rarearam de lá para cá na imprensa escrita.

Você já disse que privilegia personagens que estão “fora da pauta”, fazem parte do cotidiano e estão por toda parte. Este novo livro, Ferrugem, é como um arquivo repleto deles. A cobradora de ônibus, a caixa do supermercado, o gandula, o cantor que imita Roberto Carlos numa boate de strip… só pra citar alguns. O que te leva a procurar por essas vozes? E como é o processo pra chegar em presenças tantas vezes silenciosas e silenciadas?

Percebo, às vezes, certo ensimesmamento na literatura brasileira contemporânea. Uma repetição de personagens que são escritores, ou jornalistas, ou de alguma forma ligados às ciências humanas. Não que isso mereça, em si, críticas.É apenas uma constatação. E, no meu caso, o interesse é outro. São as histórias, as vozes desses indivíduos que, como você bem observa, não raro sofrem um interdito na nossa ficção. Em vez de explorar a angústia do protagonista com a própria escrita, o jogo de espelhos meta-literário – assuntos que podem render ótimas narrativas, reitero -, me apraz imaginar o cotidiano de uma trocadora de ônibus, com suas tiradas, seu entorno, seu modo de ver o mundo. Ou iluminar a arte dita menor do cover de Roberto Carlos que se reveza no palco com as travestis de uma boate da Lapa.Tudo isso com o auxílio da fabulação, é claro, já que estamos falando de texto ficcional. O filósofo Walter Benjamin escreveu que não há nada especial em nos orientarmos em uma cidade, mas que é preciso aprender a se perder na cidade assim como nos perdemos numa floresta. Para que agucemos os sentidos, para que possamos ouvir os nomes das ruas “como o estalar de ramos secos”. Lembro da frase do Benjamin quando você me pergunta sobre meu processo para chegar a esses personagens, a essas “presenças silenciosas”. O processo é viver também fora da bolha do mundo literário.

Benjamin tem sido então uma referência de deriva, um guia pra esse “narrar a cidade” no seu cotidiano? Quem mais te acompanha?

A referência de Benjamin vem, principalmente, dos textos Rua de sentido único e Infância em Berlim por volta de 1900, nos quais a questão da cidade é central. E a relação narrativa/cidade sempre me atraiu, nas suas mais variadas vertentes. Para você ter uma ideia, quando cursei a pós-graduação, meu trabalho final foi sobre a obra do cineasta Wim Wenders. Mais especificamente sobre a forma como ele transforma Lisboa, Berlim e Paris – não a capital francesa, mas a pequena localidade que faz parte do Estado do Texas – em protagonistas de três de seus filmes: “O céu de Lisboa” (“Lisbon Story”), “Asas do desejo” (cujo título original, vale lembrar, é “O céu sobre Berlim”) e “Paris, Texas”. Há alguns anos, organizei uma seleta de ensaios que versam sobre o modo como o Rio de Janeiro apareceu, ao longo da história, na música brasileira. No ano retrasado, foi a vez de uma coletânea de textos na qual 35 escritores trataram afetivamente dos bairros onde moraram, mote que já havia norteado a antologia “Prosas cariocas”. O próprio ofício de cronista, que exerci por quase cinco anos, está profundamente ligado ao espaço urbano. Então, voltando para o campo da literatura, poderia dizer que me acompanham todos os autores cujas obras têm um vínculo íntimo com as ruas da cidade, com esse emaranhado polifônico de construções e existências.

O conto “As praias desertas” traz a voz de mulher que retorna, eu diria, mais do que pra um homem, pra imagem de um homem. O tempo passa, a cidade muda, mas essa imagem perdura nela. Ele me fez pensar muito em algo que Didi-Huberman escreveu: “A imagem arde pela memória, quer dizer que de todo modo arde, quando já não é mais que cinza: uma forma de dizer sua essencial vocação para a sobrevivência, apesar de tudo”. A literatura, a escrita, enfim, é uma forma de impedir que certas imagens desapareçam, concorda?

Concordo totalmente. Em certo sentido, a literatura é uma forma de sacanear a morte. O conto a que você se refere se inspirou na canção homônima, composta pelo Tom Jobim e gravada pela Elizeth Cardoso em 1958.E, nessa canção, especificamente nos versos que dizem: “as praias desertas continuam /esperando por nós dois”. A imagem de uma promessa. A história tem muito a ver com uma das epígrafes do livro, um verso do Vicente Huidobro que encontrei, anotado a caneta, num caderno do Iberê Camargo: “En todos los caminos se ha perdido una estrella”. No fundo, a protagonista, assim como vários outros personagens de “Ferrugem”, vive sob o espectro dessas estrelas que se perderam no caminho. No caso da protagonista-narradora, no hiato entre o pacto quanto ao encontro futuro e a expectativa de sua realização. Essa imagem “que arde pela memória”, e de todo modo arde,evocada em sua pergunta, é a imagem que tenta ser imune à corrosão. É o ferro que luta para inverter o processo natural e, assim, comer a ferrugem, como no poema de João Cabral de Melo Neto do qual tirei o título do livro.

A sensação de um passeio por crônicas sentimentais ganha toques estranhos, especiais em dois contos, “Caiu uma estrela na minha sala”, e “Domingo no Maracanã”.  São deslizamentos pelo fantástico feitos de forma suave. Quando o fantástico, o extraordinário tem lugar na vida cotidiana?

Quase sempre. Embora muitas vezes não seja percebido, ou tendamos a acondicioná-lo no escaninho da banalidade, como acontece em “Caiu uma estrela na minha sala”. Já o conto “Domingo no Maracanã” se vale do fantástico para esboçar uma crítica. Um “comentário”,ainda que no âmbito da ficção, sobre o que fizeram com o histórico estádio. Quando o escrevi, há cerca de dois anos, não poderia imaginar que o texto estaria agora ainda mais atual. A fresta onde a menina descobre uma espécie de “Aleph” do futebol brasileiro é o portal mágico que se contrapõe à lógica da modernização a qualquer preço (e sabemos, hoje, que esse preço foi altíssimo). A fenda da memória, que reveste de valor simbólico um local que não deveria ser visto como mera edificação de cimento, tijolos e grama. Que, mais que isso, é depositário de mitos, dramas, reminiscências. Não à toa evoco um jogo do Bangu nesse conto. O Bangu aqui, de certa forma, é a trocadora de ônibus, a caixa de supermercado, o cover do Roberto Carlos. No universo do futebol, é o “micro” solapado pelo “macro”,uma voz silenciada pelo processo de padronização que esfarela singularidades.

Música e futebol também são presenças constantes nos teus textos. Você pode falar um pouco sobre esses cruzamentos?

Ambos fazem parte do meu cotidiano de forma muito intensa. Em “Ferrugem”, o futebol aparece no já citado “Domingo no Maracanã” e em “Gandula”, a história de um menino que quer ser o camisa 10 de seu time do coração. No caso do futebol, é minha forma de contribuir, também, para que esteja mais presente na nossa literatura contemporânea. Felizmente, depois de muitos anos de relativa ausência, temos visto o tema ressurgir em ótimos livros de ficção. Lembro aqui, por exemplo, de “Páginas sem glória”, do Sergio Sant’Anna; “O drible”, do Sérgio Rodrigues; e “Maracanazzo”, do Arthur Dapieve. Quanto à música, sou ouvinte assíduo, sobretudo de artistas brasileiros, frequento rodas de samba e tenho igualmente ligação íntima com o carnaval. De modo que esse interesse vaza de forma para as histórias que escrevo. No novo livro, há alguns diálogos neste sentido. São os casos da já mencionada “Praias desertas”; de “Something”, que evoca o sucesso dos Beatles; “Dezembros”, cuja trama se desenrola à sombra da história da Rádio Nacional; e também de “Três apitos”, que ecoa, numa história contemporânea, a pungente canção de Noel Rosa.

“Três apitos” também toca na questão do HIV de uma forma ainda pouco discutida – a contaminação entre mulheres e heterossexuais. Segue forte o estigma do “câncer gay”, ainda que ele tenha sido desmontado cientificamente nas últimas décadas.  Assim como segue forte o estigma moral, que o conto igualmente aborda.O “não esquecer” que se repete ali parece apontar também pra essas questões.  Foi a tua intenção? Como surgiu essa personagem?

A personagem da caixa de supermercado é a gênese do conto. Foi quem surgiu primeiro, antes mesmo do enredo. Queria fazer uma ponte entre a época na qual Noel Rosa compôs a canção e a atualidade. Como no local onde funcionava a fábrica dos famosos “três apitos” há hoje um supermercado, procurei situar a trama ali, naquele espaço remodelado. A ideia de incluir a questão do HIV veio pela vontade de fazer um contraponto a esses estigmas que você menciona. De me valer do tema amoroso da música do Noel para tratar um tema contemporâneo.É incrível que depois de tantos anos ainda se ache que o HIV é um vírus restrito a guetos. E tão estarrecedor quanto isso é o estigma de ‘morte em vida’ que perdura com relação aos soropositivos, apesar dos enormes avanços no tratamento, que possibilitaram que a soropositividade seja agora uma condição controlada por remédios.O “não esquecer” ecoa intencionalmente, como um apito que insiste em tocar, seja para fazer ressoar o alarido do estigma, do renitente tabu, seja para lembrar que amanhã é outro dia, que há de se fazer planos, apostas. Enfim, que a vida segue.

Você escreve sempre? Digo, a escrita, e antes dela, a atenção pra esse universo de personagens “fora da bolha” é algo permanente no teu próprio cotidiano?

Sim. A forma com a qual consigo me expressar melhor é a escrita. Quanto à atenção para esse universo, acho que a experiência de ter me dedicado a produzir uma crônica semanal por quase cinco anos acabou por abrir mais os meus olhos, por apurar a audição, fazer com que passasse a prestar mais atenção no entorno. E isso possivelmente influenciou a criação dos 13 contos que formamo novo livro.

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