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Escritores falam sobre “Baladas proibidas”, de Gabriel Godoy e Bolívar Torres

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Gabriel Godoy nasceu numa cidade pacata, com apenas 20 mil habitantes. Mas foi só começar a crescer para perceber que suas ambições se expandiam para além das fronteiras da pequena Serra Negra, no interior de São Paulo. Aos 18 anos, deixou a família para ganhar o mundo. Começou ali, meio que por acaso, um caminho perigoso pelo universo do tráfico de drogas, que lhe rendeu diversão e dinheiro, mas também sofrimento, perdas e até uma temporada na prisão. A impressionante trajetória do “Rei do Ecstasy”, como ficou conhecido na época em São Paulo, é o tema de “Baladas proibidas”, cujo lançamento acontece nesta quarta-feira, a partir das 19h, na Livraria da Travessa, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Narrada em primeira pessoa, a história de Gabriel ganha forma pelas mãos do jornalista e escritor Bolívar Torres

Aqui, os escritores Leticia Wierzchowski e Jorge Tarquini tecem suas impressões sobre “Baladas proibidas”. “Aventuras tão mirabolantes que me deixaram de queixo caído, e olha que estou acostumada com as mirabolâncias da ficção”, escreveu a autora de “A casa das sete mulheres”. Já Tarquini, que escreveu “O doce veneno do escorpião”, diz que “a narrativa criada por Bolivar, em primeira pessoa, surpreende pela franqueza do depoimento, que expõe com crueza o angustiante universo das drogas que agita os jovens de alta classe e até mesmo uma certa promiscuidade entre os traficantes e alguns agentes da lei”.

 

Por Leticia Wierzchowski

Um dia, numa tarde de outubro, tempos atrás, recebi uma mensagem do Gabriel. Não nos conhecíamos, como não conheço a grande maioria de pessoas com as quais falo pelo Facebook. Gabriel era simpático e, depois de um breve papo, disse-me que tinha uma história para eu contar. Ora, a quantidade de histórias que surgem para mim quase todos os dias é impressionante – todo mundo tem uma história para contar, mas muito poucos estão dispostos a contá-las… Não sei bem por que, mas simpatizei com o Gabriel e aceitei ler um resumo da sua história. Que história! Era um filme, um filme calcado na mais profunda realidade brasileira. E que personagem era o Gabriel – era mesmo, porque o cara que me escreveu no Facebook vinha disposto a contar o seu passado, um passado de grana solta, de drogas, de festas rave, de ascensão no tráfico de ecstasy, de sexo, de prisão, de aventuras tão mirabolantes que me deixaram de queixo caído, e olha que estou acostumada com as mirabolâncias da ficção.

Não escrevi a história do Gabriel, mas acabei fazendo a ponte para que ele alcançasse o seu objetivo – e aqui está: a história virou livro. Uma história real, de tragédia, de coragem, de violência, mas também de superação. Um retrato de um mundo que está diante dos nossos olhos todos os dias (e todas as noites), mas que fingimos não ver. Gabriel mergulhou fundo nas águas escuras do tráfico, e conseguiu voltar à tona e remar de volta à margem. Esta é a história do seu grande mergulho rumo ao breu do submundo das drogas; mas também é a história do quanto ele nadou, respirando sempre, até voltar ao sol. Uma mistura de “Breaking bad” com “Meu nome não é Johnny” – uma história totalmente real, porque a realidade abrasadora e cabal sempre supera qualquer ficção.

Leticia Wierzchowski é escritora, autora de “A casa das sete mulheres” e “Uma ponte para Terebin”, entre outros. 

 

Por Jorge Tarquini

Existe um voyeur em cada um de nós. O frisson de espiar universos obscuros, meio malditos, alimenta um tipo de tara que ultrapassa o véu da hipocrisia nossa de todo dia. Afinal, não somos todos nós meio que coadjuvantes desses “submundos” paralelos?

Conte uma história de prostituição e risos nervosos serão ouvidos na sala, denunciando altos níveis de curiosidade. Mas nunca soube de uma puta que não tivesse clientes. E daqueles bem “conhecidos”: pais de família, homens comprometidos, executivos… Talvez eles próprios pudessem contar essas histórias – mas não. São histórias que “gente decente” não conta, pois se faz-de-conta que não as viveram.

Troque de cenário: pense nas baladas luxuosas, em gente bonita e bem nascida, elegante e sincera, embalada por música eletrônica, luzes, um tanto de álcool e altas doses de Ecstasy, LSD e outras drogas sintéticas. E se se resolver contar tudo isso sob um ponto de vista diferente? É isso que Gabriel Godoy, juntamente com o escritor e jornalista Bolivar Torres, fizeram ao colocar no papel “Baladas Proibidas –  A ascensão do Ecstasy”.

Gabriel, o menino do interior de São Paulo, quase sem querer  viveu uma das trajetóriasmais meteóricas no mundo do tráfico no Estado de São Paulo: da venda em festas de Maresias e Campos do Jordão, em apenas dois anos se tornou um dos grandes do mercado da capital – chegando a vender mais de 100 mil comprimidos de Ecstasye 70 mil micropontos de LSD por mês. Um verdadeiro “rei do Ecstasy”. Até que, mesmo preso, continuar no ramo: comandava o tráfico dentro da prisão.

A narrativa criada por Bolivar, em primeira pessoa, surpreende pela franqueza do depoimento, que expõe com crueza o angustiante universo das drogas que agita os jovens de alta classe e até mesmo uma certa promiscuidade entre os traficantes e alguns agentes da lei.

Se as drogas têm o poder de exacerbar emoções e sensações, talvez se possa fazer um paralelo com a leitura deste livro: sem concessões, o protagonista é mostrado em suas grandes contradições, assim como o mundo das baladas e do tráfico pelo qual ele vive seus dramas e suas aventuras (ou desventuras?).

Uma leitura cruamente verdadeira – que nos lembra que a verdade nem sempre é iluminada. Mas vale a longa espiada que nos desnuda uma trajetória que vale a pena ser conhecida. Nem que seja pelo olhar voyeur do leitor.

*Jorge Tarquini é  jornalista, roteirista e escritor, autor de “O Doce veneno do escorpião” e “Vinte mil pedras no caminho”

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