Entrevistas

“O último abraço”, de Vitor Hugo Brandalise

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Nelson Irineu Golla, de 74 anos, e sua mulher, Neusa, de 72, tinham muitos sonhos quando se casaram, ainda jovens, na zona leste de São Paulo. Entre eles o de terminar a construção da casa própria, criar os três filhos e, só então, na tranquilidade da aposentadoria dele, passar a viajar mais e a curtir mais a vida. A velhice tranquila, no entanto, foi interrompida por um problema de saúde de Neusa, que, após dois AVCs, passou a viver numa clínica para idosos. Nelson, também debilitado por um problema no braço, viveu dias de dor e revolta, sem saber como atender aos apelos da mulher, que definhava dia a dia, perdendo a fala, os movimentos e a vontade de viver. Ele a visitava diariamente e, numa dessas visitas, sem que ninguém na clínica desconfiasse, Nelson deitou-se sobre Neusa, com uma bomba de fabricação caseira atada ao peito.

A história desse casal é contada em “O último abraço”, uma grande reportagem do jornalista Vitor Hugo Brandalise, que tem como pano de fundo o cotidiano de pessoas de classe média baixa numa região de São Paulo em transformação, de bairro operário a bairro de classe média. Margeando a história dos dois, ele mostra os costumes e hábitos sociais, além dos traços da economia brasileira de então.

A obra também trata de uma questão pouco discutida no Brasil: a eutanásia. Quais as consequências jurídicas do ato de Nelson Golla? Como as famílias lidam com os seus idosos, num país que tem uma maior expectativa de vida, mas não necessariamente um bom sistema de saúde? Na entrevista abaixo, o autor conta mais detalhes de como foi sua apuração e a sua relação com os personagens dessa história.

 Quando leu sobre a história do casal Nelson e Neusa e decidiu apurar mais sobre ela, você já tinha em mente que poderia se transformar de grande reportagem num livro?

 Pensei nisso, sim. Imaginei que os elementos presentes naquela ocorrência estranha e extraordinária, aqui perto, na zona leste de São Paulo, poderiam se tornar um livro. Um senhor idoso explode uma bomba em cima de sua esposa dentro de um quarto de asilo? A notícia saiu na Folha de S. Paulo de 30 de setembro de 2014. Em sete parágrafos, dizia que eles eram casados há décadas, que ela estava gravemente debilitada, e que ele a visitava todas as tardes no asilo. Que desespero viviam, para tomar uma decisão como essa? E por que uma bomba? Ele havia deixado uma carta (que não havia sido publicada) explicando seus motivos – o que diria nela? No Brasil a morte piedosa é criminalizada. Ele seria, então, o assassino de sua mulher, mesmo que eles tenham tomado juntos a decisão? Havia muitas perguntas não respondidas e, para cada uma delas, questões morais abordadas em vários livros de ficção. E agora era real, na cidade em que eu vivia. A história me atraiu muito, e mergulhei no tema.

A história foi publicada no BRIO e no Estadão antes de virar livro. Nesses tempos em que o jornalismo está em crise de produção e em que os veículos estão tentando encontrar fórmulas para sobreviver e ter audiência digital, qual o desafio de, no limiar entre literatura e jornalismo, conseguir os meios para se contar uma boa história como a de “O último abraço”?

 É preciso, antes de tudo, que o jornalista tenha tempo. Não apenas por questões práticas: três meses se passaram entre o primeiro contato com a filha de Nelson, por meio de uma mensagem numa rede social, e a primeira vez em que a encontrei pessoalmente. Mas também para pesquisa: o volume de informações a absorver era enorme, desde estudos sobre a questão do suicídio na terceira idade até a maneira mais indicada de se abordar pessoas traumatizadas por uma ocorrência como essa. É um ritmo nem sempre possível atualmente, em especial a quem trabalha nos grandes veículos, pressionados por velocidade na publicação. Creio que o desafio é não perder de vista o fato de que, embora obviamente haja notícias rápidas, histórias como a de Nelson e Neusa têm um ritmo próprio, a ser percorrido com paciência e cuidado.

Como foi a sua relação com o principal personagem durante a apuração para as matérias e para o livro? Ele gostou da ideia? Vocês mantêm contato ainda? E como foram os encontros com a família? Imagino que, com um tema delicado desses, não deve ter sido fácil para eles falarem sobre o assunto.

 Foi muito difícil mesmo. Encontrei-o pela primeira vez apenas 15 dias depois de ele deixar a instituição psiquiátrica onde foi internado após o ocorrido. Eu havia conversado com três psicólogos especializados em luto e suicídio na terceira idade, e gostei da orientação de deixá-lo falar, de perguntar pouco. Os encontros sempre foram duros para mim, mas percebi que não lhe custava muito contar sua história. Ele chorava, mas não se esquivava. Depois de três ou quatro encontros, ele mudou de ideia dizendo para esquecer, pois “é claro que um jovem como você vai ter coisa melhor a fazer além de correr atrás de um velho’. Eu reforcei a importância social que via na experiência de vida dele. Algumas semanas depois ele me ligou dizendo que continuaria as conversas. Ele queria, de fato, contar sua história. Creio que acreditava que relatar o que vivera poderia ajudar outras pessoas com questões semelhantes na velhice. Notei que fazia bem a ele falar do assunto – ajudaria a diminuir a dor que vivia, talvez? Falar com os familiares tampouco foi fácil. Era tudo ainda recente, e sempre havia muita emoção nos encontros. Minha relação com eles continua boa, faço visitas sempre que posso. Do começo ao fim, busquei tratar os acontecimentos e atitudes, mesmo as mais questionáveis, com um olhar de compreensão, sem julgamentos. Creio que essa postura ajudou.

No livro, contornando a história do casal, há um recorte da sociedade brasileira, em que sobressaem costumes, como o machismo do patriarca da família simples, o cotidiano de pessoas de classe média baixa numa São Paulo que também se transforma, de bairro operário a bairro de classe média. Também entrevemos a economia brasileira de um tempo em que, por exemplo, sacoleiras faziam sucesso e não havia incentivo à importação de produtos. Você pensou na construção desse retrato de época quando estava escrevendo o livro?

 Sim, você tem razão, creio que a contextualização histórica e dos costumes é relevante na história que me propus a contar. Como tento traçar um perfil do modo de pensar da família Golla (especialmente de Nelson), era pertinente tentar entender e descrever a sociedade em que ele cresceu e se desenvolveu. Nelson passou quase toda a vida na zona leste de São Paulo, próxima do ABC Paulista, onde se instalaram indústrias de automóveis ávidas por força de trabalho como a dele. A maior parte dos empregos que teve era ligada a essas empresas, e o trabalho duro era um valor fundamental em sua vida – além de necessário, pois vinha de uma família de classe média-baixa, com muitos irmãos. Nelson acabou dedicando ao trabalho, portanto, muito de sua existência. E deixou de lado aptidões artísticas que, creio, sempre apresentou. Essa era uma de suas frustrações. Mas foi também um traço que o levou a se aproximar ainda mais de sua esposa, Neusa, que o estimulava, a seu modo, nas tentativas de levar uma vida culturalmente mais rica. Neusa também buscava ajudar nas finanças da casa – e, muitas vezes, esbarrou no machismo do marido. Esse é outro traço, aliás, do ambiente em que Nelson foi criado.

O livro traz uma reflexão muito importante sobre a sobrevivência na velhice, num país em que o tempo de vida é maior, mas o acesso à saúde é precário. Também tem a questão ético-filosófica da eutanásia. São debates ainda muito pouco explorados aqui, não?

Sabemos que, no Brasil, quem não tem condição de pagar por equipamentos privados de saúde pode passar meses esperando para ser atendido na rede pública. As angústias que isso causa são enormes e, na velhice, quando as demandas se acentuam, isso se torna ainda mais difícil. A questão financeira em torno da doença de Neusa, internada numa clínica privada, era um fator de ansiedade muito grande para Nelson. Em um país até pouco tempo atrás considerado “jovem”, os debates sobre a velhice, apesar das boas iniciativas, ainda são incipientes. Na Europa, por exemplo, há um campo do conhecimento só para essas questões – o “idadismo”, com instituições dedicadas a estudar desde os estereótipos ligados à idade até as formas mais humanizadas de tratamentos de saúde nessa fase da vida, incluindo o direito à morte. À medida que a população vai envelhecendo, é natural que o debate aumente, e no Brasil também será assim. Acredito que histórias como essa são um bom exemplo da necessidade de discutir o tratamento que damos aos idosos no país. O mesmo acontece com a questão da eutanásia. Como disse um dos médicos com quem falei para escrever este livro, é a sociedade que leva as questões a serem discutidas nos conselhos de medicina – que podem definir o que se pode e o que não se pode fazer em hospitais e clínicas. Creio que a história de Nelson e Neusa, e aquilo que ele genuinamente entendeu como eutanásia, é uma demonstração de que chegou o momento de o Brasil discutir as delicadas questões que envolvem a autonomia de um indivíduo em relação ao fim de sua própria vida.

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