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“Amizade é também amor”, de Fabrício Carpinejar

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Em abril, chega às livrarias pela Bertrand Brasil “Amizade é também amor”, do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar. São mais de 100 crônicas que combinam reflexões sobre companheirismo, humor e lembranças. Poeta, cronista e jornalista respeitado, Carpinejar recebeu na infância um diagnóstico de retardo mental. O texto a seguir fala mais sobre este episódio da vida do autor.

Carpinejar III crédito - Rodrigo RochaEle tem 40 livros publicados, mais de 250 mil exemplares vendidos, recebeu os mais importantes prêmios literários como Jabuti, Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras e APCA, escreve para Zero Hora e O Globo,  é colaborador do programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo, seus Twitter e Facebook movimentam milhares de seguidores e fãs.

A conclusão mais óbvia é que o gaúcho Fabrício Carpinejar, 44 anos, é expansivo, comunicativo e de fala fácil. A história poderia ter sido muito diferente. Aos 7 anos, com claras dificuldades de aprendizagem na escola, foi encaminhado a neurologista que diagnosticou retardo mental.

O laudo (abaixo) de 10 de julho de 1980 recomendava tratamento, remédios e isolamento, alegando que Fabrício não desfrutava de condições para acompanhar colegas da faixa etária.

carpinejar

“O Fabrício tem tido progressos sensíveis, embora siga com retardo psicomotor, conforme o exame abaixo. A fala, melhorando, não atingiu ainda a maturidade de cinco anos. Existe ainda hipotonia importante. Os reflexos são simétricos. Todo o quadro neurológico deriva de disfunção cerebral.”

A mãe, Maria Carpi, professora e advogada, contrariou a ordem médica, não acreditou no veredicto, rejeitou a medicação severa e passou a ensinar o filho dentro de casa, a partir de jogo da amarelinha, quebra-cabeça e colagens.

Fabrício aprendeu a ler e escrever brincando e venceu uma de suas muitas batalhas em sua trajetória de superação, todas descritas no livro “Me ajude a chorar” (Bertrand Brasil).

Sua principal lição é que diagnóstico não é destino. Diagnóstico é um momento, mas não representa todo o futuro.

Ainda teve que superar o bullying na escola, a chacota permanente dos colegas diante de sua aparência esquisita e desajeitada. Desarmou o preconceito com humor, rindo de si e provocando a lerdeza dos agressores com suas constantes e perturbadoras perguntas. Ainda reverteu sua timidez em rapidez de raciocínio (“O tímido nunca termina uma conversa, sempre pensa o que poderia ter dito”). Ainda converteu sua feiúra em charme (“Os feios são inesquecíveis”) e acabou por protagonizar campanha de moda masculina no RS.

Quebrou padrões de comportamento.  Não é por menos que recebeu do pai e dos amigos o apelido de Wolverine.

 

EU SOU O MELHOR NO QUE FAÇO, MAS O QUE FAÇO NÃO É NADA BONITO

Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido secreto.

Não tenho o queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics.

Muito menos a suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças.

Ele me compara ao personagem pelo meu alto poder de cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto.

Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta.

A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver de novo a luz.

Tenho fúria de viver.

Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.

A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro.

Eu sobrevivi a tanta coisa.

Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental.

Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que tinha algum retardo mental.

Sobrevivi à desistência dos professores com meu desempenho.

Sobrevivi à traição de amigos.

Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos adultos.

Sobrevivi à briga de rua.

Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na adolescência.

Sobrevivi a enterros de jovens amigos.

Sobrevivi a três acidentes de carro.

Sobrevivi a três separações.

Sobrevivi ao vício do cigarro.

Sobrevivi a dois assaltos a mão armada.

Sobrevivi a várias demissões.

Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos amados.

Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora.

Só não entendia onde meu pai enxergava as garras retráteis de Logan.

– E as garras das mãos, pai?

– São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela para não morrer.

(Fabrício Carpinejar)

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