Entrevistas

“Anita”, de Thales Guaracy

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Por Manoela Sawitzki

Durante uma viagem a Nice, o jornalista e escritor Thales Guaracy conheceu a casa onde viveu o lendário Giuseppe Garibaldi. Ao se aproximar do personagem, compreendeu que “a história de Garibaldi não podia ser contada sem sua mulher, cuja importância foi ainda maior que a conferida pela história oficial”. Guerreira impetuosa, amante apaixonada e mãe, ela foi capaz de passar “de vítima do seu tempo e da sociedade para agente e protagonista da sua própria vida”. O que Garibaldi silenciou nas entrevistas concedidas ao escritor Alexandre Dumas, que dariam origem à sua biografia, Guaracy imagina e conta no romance que leva o nome dessa mulher extraordinária: Anita.

 

A conquista do Brasil: 1500-1600, seu livro anterior, trata de infâmias que fazem parte dos primórdios da ocupação europeia no Brasil. O que te levou a escrever em seguida sobre Anita e Giuseppe Garibaldi, personagens conhecidos por seu heroísmo, mitificados como “heróis de dois mundos”?

Tanto na ficção quanto no romance, procuro compreender a realidade em toda a sua profundidade. Essa profundidade está nos fatos chocantes da história brasileira, muitas vezes escamoteados pela história oficial, que procuro trazer à tona em A conquista do Brasil. Mas ela está também nos impulsos, motivações e segredos dos personagens históricos, que foram capazes de mudar a história, como aconteceu com os Garibaldi. No caso do indivíduo, navegamos em dados mais subjetivos para tentar entender o que aconteceu. Por isso, preferi adotar a ficção para abordar a história. Anita tem uma rigorosa pesquisa, mas as lacunas, aquele espaço onde entram os sentimentos, os motivos profundos, as emoções, eu acabo preenchendo com a interpretação dos personagens. É a minha interpretação, claro, repito. Mas aí que está a novidade. A história de Anita já foi contada outras vezes, mas eu acredito ter algo de novo, mais contemporâneo a revelar. Acho que hoje podemos ter uma visão diferente de Anita, graças a uma maior compreensão da história. Sua vida ainda é incrivelmente reveladora e relevante para os dias de hoje, em que tanto se discute o feminismo, os direitos e o papel da mulher.

Como foi o processo de pesquisa para dar base histórica ao romance Anita, e vozes aos seus personagens?

Minha pesquisa começou sem querer, numa viagem a Nice. Ali conheci a casa onde nasceu Garibaldi, bem em frente à marina da cidade. Eu vi os mastros dos barcos no pier batendo uns contra os outros pelas janelas da casa e pensei estar vendo a mesma cena que Garibaldi em toda a sua infância. Imaginei Garibaldi na cidade histórica, que é bem preservada, e diante do mar de Nice, que ainda é o mesmo. Dali entendi seu ponto de partida, seus desejos, seus ideais, e percebi que a história de Garibaldi não podia ser contada sem sua mulher, cuja importância, a meu ver, foi ainda maior que a conferida pela história oficial. Tudo me interessou muito, pessoalmente: queria saber como o homem mais corajoso, voluntarioso e desprendido de todos os tempos pôde se render a uma mulher. Quem seria realmente ela. Então, comecei a estudar também Anita. E concluí que ela não era apenas a mulher de Garibaldi, mas o ponto central da vida dele, e assim tornou-se também o ponto central do livro.

 E quais foram as principais fontes da pesquisa que veio depois da viagem a Nice? As memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, esteve entre elas, por exemplo?

Li muita coisa sobre Anita e Garibaldi, além de ir aos lugares onde foram. Certamente um dos livros mais importantes sobre Garibaldi é o de Dumas, que, como nós escritores hoje, além de romances escrevia também biografias por encomenda. Quando Dumas entrevistou Garibaldi, ele já era um personagem legendário, mas sua biografia ficou incompleta, porque o herói italiano ainda faria muita coisa extraordinária depois de sua publicação. Estranhamente, na entrevista para o livro, Garibaldi se recusou a falar sobre Anita. Quando Dumas insistiu, ele respondeu simplesmente que havia coisas sobre as quais não podia falar. Portanto o livro não fala nada sobre Anita, mas essa recusa me chamou muito a atenção. Se Garibaldi não queria falar sobre a mulher, não é porque diminuía sua importância. Ao contrário. Ela era tão importante, e o que acontecera era tão dramático, que ele simplesmente não podia ou conseguia falar sobre isso. A meu ver esse tabu tem relação com a forma como ela morreu, algo que Garibaldi jamais veio a comentar, com Dumas e mais ninguém. Isso me deu certeza de que ali estava a chave da vida entre os dois – e  me deu o insight para o clímax do romance.

E quanto à margem para a ficcionalização?

Não existe nada no livro que não seja fiel à história, incluindo muitos diálogos, até onde os diálogos são conhecidos. Porém, para dar vida aos personagens, é preciso também interpretá-los. Eu queria que o leitor pudesse ver Anita na sua frente, sentir seus sentimentos, assim como os de Garibaldi. Nunca um amor, uma história pessoal, foi tão transformadora da história como no caso deles. E para ir a fundo nisso seria preciso encarná-los. Cheguei a cultivar a barba para ficar como Garibaldi. Eu tentava entender a ele e a ela. Não imaginava, por exemplo, como uma mãe podia ser capaz de deixar os filhos com desconhecidos para ir atrás do marido na guerra. Só passando pelos sentimentos de Anita e Garibaldi consegui ver a ligação entre sua vida e o que fizeram.

No livro, temos o percurso de Anita desde os 14 anos, em Laguna.  Os primeiros quatro anos, sobretudo, dão notícias da extrema precariedade da condição feminina na época (meados das décadas de 1830 e 40), sobretudo na guerra. Você pode falar um pouco sobre esse contexto e essa condição?

Antes de conhecer Garibaldi, Anita foi casada com um sapateiro, para ajudar a sustentar a mãe. Hoje parece absurdo, mas na realidade ela teve uma vida como a de muitas outras adolescentes do seu tempo. E poderia ter sido outra entre tantas mulheres que terminaram a vida da mesma forma que começaram. A guerra, sua personalidade e um certo destino mostraram como uma pessoa supostamente comum, talvez destinada a ser mais uma mulher oprimida do Brasil no passado, pode se transformar. Antes de ser heroína nacional e personagem histórica, Anita passou por uma mudança talvez ainda maior, que foi a de vítima do seu tempo e da sociedade para agente e protagonista da sua própria vida. Isso é algo que toda mulher de hoje – e também o homem – ainda busca. Portanto, nada mais contemporâneo que Anita.

Garibaldi conheceu Anita, ainda Aninha do Bentão, quando ela estava próxima dos 18. A partir desse momento as histórias dos dois tornam-se indissociáveis. No romance, os atos de Garibaldi parecem profundamente ligados a ideais, enquanto que os de Anita, mesmo os mais heroicos, parecem muitas vezes motivados sobretudo pelo amor romântico. Você concorda ou acredita que as motivações dela iam além?

Cada um pode ler o romance de uma forma diferente, claro. Acho que a atração dela por Garibaldi se deu principalmente pelo desejo de se libertar da vida que levava, além dos encantos do então jovem e vibrante condottiere. Muitas outras já tinham caído de amores por ele. Anita, porém, foi a que ficou. Isso a meu ver só aconteceu porque ela tinha sua própria centelha. Por conta de sua história pessoal, tinha ainda mais razões que Garibaldi para defender o ideal da liberdade, não apenas no sentido político, como no sentido amplo: liberdade de escolha, de ir e vir, de não se casar, de casar, de ter filhos, de lutar como os homens, e mesmo de liderá-los. Muitas vezes tomou iniciativas mais ousadas que Garibaldi. Para mim, se alguém foi movido por amor romântico, foi Garibaldi, para quem Anita acabou sendo primeiro uma companheira – a única que ele podia vislumbrar, capaz de levar aquela vida com ele -, e depois inspiração para chegar onde nem mesmo ele tinha imaginado.

De fato o romance traz muitas situações em que Anita é ainda mais impetuosa que Garibaldi nas guerras que lutaram juntos. Assim como, em diversos momentos, ele tenta protegê-la – em vão. Talvez fosse difícil também para Garibaldi conceber uma mulher tão livre – mesmo para ele que lutou a vida inteira por liberdade, não?

Como eu disse, Garibaldi não falava sobre Anita. Foi preciso seguir as pistas de que dispomos para formar a ideia que ele tinha sobre ela – antes e depois de sua morte. Talvez no romance entre aí muito de mim: o que penso sobre as mulheres, como as vejo, e, dentro disso, minha interpretação sobre o que pensava Garibaldi. Certamente eles viviam num mundo complexo, em que ela era igual a ele, livre, talvez mais radical, sem deixar, porém, de ser mãe, de ser mulher, e ser fiel. O que podia afastá-los era também os que o mantinha próximos. Isso não a impedia de ter momentos de mulher ciumenta, por exemplo. Há um momento, que realmente aconteceu, em que ela, cansada de esperar o fim da guerra no Uruguai, pega os filhos e vai com eles ao front, encontra Garibaldi no acampamento, corta os cabelos do marido com uma tesoura e lhe mostra duas pistolas – uma para ele, outra para uma possível amante -, desafiando-o a traí-la. Anita preferia estar na guerra a cuidar da casa, mas não deixou de ser mãe, nem mulher – e ciumenta. Só que era ciumenta do jeito dela – e Garibaldi devia saber bem que ela não estava brincando.

Como Anita foi vista por seus contemporâneos? No romance, seus companheiros de batalha acabam sendo profundos admiradores, mas quanto aos demais?

Muitos fatos mostram que ela ganhou o respeito dos soldados – e olha que os gaúchos eram guerreiros terríveis que nem concebiam combater ao lado de uma mulher. Nesse contexto, ela era vista como uma verdadeira liderança. Ao mesmo tempo, ela sofria com o preconceito – tanto que em Montevidéu se viu forçada a casar com Garibaldi na igreja, montando uma farsa, porque já tinha se casado uma vez com Manoel e pela lei católica não poderia contrair matrimônio novamente. Mas ela se cansava rápido da vida de esposa, mãe, dona de casa. Mesmo seus filhos tiveram de entender que a mãe era da guerra – os dois mais velhos, Menotti e Riciotti, combateriam ao lado do pai e se tornariam também grandes generais, com lugar no panteão dos heróis tanto da Itália quanto da França. Como diria o caipira, o pessoal daquela casa era fogo.

Houve também problemas com a mãe de Garibaldi, na chegada à Itália. Há registros de como outras mulheres da época olharam para essa brasileira capaz ir para o campo de batalha mesmo grávida?

O próprio Garibaldi tinha problemas com a mãe, Rosa, daquelas italianas fortes e dominadoras. Pelo que pude entender, Rosa não gostou de Anita, antes de mais nada, por preconceito – para uma italiana como ela, a brasileira que seu filho escolhera era “nera”, uma negra, preconceito muito comum na época. Além disso, ou misturado com isso, havia o ciúme da mãe possessiva. A figura da mãe de Garibaldi é preciosa para mim, oportunidade para que eu pudesse explorar no livro o mundo feminino, colocando as duas mulheres que não se gostavam dentro da mesma casa. E unidas, mesmo a contragosto, por um bem comum – o amor ao mesmo homem. É uma passagem que me ensinou muito e que eu particularmente achei muito interessante de explorar. Quanto à gravidez, Anita realmente não se importava. Deixou seus filhos com desconhecidos, para que não fossem encontrados, caso perdessem a guerra. Para ela, mais importante que os filhos, incluindo o que levava no ventre, era a situação. Creio que ela tinha em mente que se eles perdessem a guerra tudo estaria perdido, para ela e as crianças. Então a guerra era a única forma de sobreviver, para ela e seus filhos. Ela não tinha, portanto, escolha. Lógico que ela podia ficar em casa apenas rezando, mas Anita achava que podia fazer diferença na guerra, ao lado de Garibaldi. Acreditava nisso. E tinha razão.

Anita foi uma das primeiras mulheres do povo a constar nos livros de História do Brasil. Qual é o lugar dela na História da Itália hoje?  Você acha que ela, seus atos e sua herança recebem a devida atenção nos nossos dias?

Estive há pouco em Roma, depois de terminar de escrever o romance, para passear. Aproveitei para revisitar a tumba de Anita, sob uma escultura equestre, em que ela é representada em cenas marcantes de sua vida – em fuga com uma criança no colo; procurando Garibaldi entre os mortos de Curitibanos, quando era prisioneira de guerra; à frente de uma coluna de soldados, carregada pelo marido no pântano do Vêneto. Ali havia, ainda fresca, uma coroa de flores depositada em sua homenagem. Era uma terça-feira de um dia qualquer. Os italianos adoram Garibaldi, que é seu herói mais importante e popular. E certamente a tratam melhor do que nós. O Gianícolo, onde ela está, é um verdadeiro jardim em homenagem aos heróis italianos, de onde se vê toda Roma. Os italianos valorizam seus personagens históricos e literalmente os colocam no lugar mais alto. Garibaldi está em todas as cidades da Itália, em monumentos, ruas, avenidas, até mesmo casas onde esteve, é referência em toda parte. Ele representa acima de tudo o povo de seu país, que arregimentava na rua para lutar. Anita devia ser para nós um símbolo da força feminina, da liberdade e do povo brasileiro, reconhecido no mundo inteiro. É uma brasileira de quem podemos nos orgulhar. Neste país tão carente de bons exemplos, pode servir muito bem como espelho para gente de todas as gerações.

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