Entrevistas

“Cocaína-A rota caipira”, de Allan de Abreu

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Por Nelson Vasconcelos

Sabe quando um livro conta histórias tão absurdas que pensamos que seu autor exagerou na imaginação? “Cocaína – A rota caipira”, do Allan de Abreu, poderia estar nessa categoria se não fosse um “detalhe”: tudo o que encontramos em suas 800 páginas é verdade pura. Nada é ficção. Para nosso espanto permanente, Allan nos apresenta, com riqueza de detalhes, os meandros do narcotráfico em boa parte do país. Há sempre uma surpresa à espreita, mostrando que a indústria da droga é muito mais dinâmica do que pensamos, cooptando brasileiros de absolutamente todos os níveis sociais e econômicos – incluindo políticos e autoridades, como ele conta nesta entrevista.

Allan de Abreu é jornalista e tem mestrado em literatura. Sabe escrever – e isso, acredite, é menos comum do que deveria. É esse talento que nos leva a terminar o livrão em dois tempos, surfando na prosa ágil e na mistura equilibrada de informação, curiosidade, entrevistas, diálogos… “Cocaína – A rota caipira” não deixa nada a dever aos bons thrillers. As descrições das operações da polícia e da vida dos traficantes parecem pequenos roteiros – prontos para serem filmados. É ler para crer.

E vale ler o quanto antes. Como gosta de se meter em casos escabrosos, o jornalista já promete para breve um livro que certamente dará muito o que falar. Ainda sem título, a reportagem que está escrevendo, em parceria com Carlos Petrocilo, vai tratar da corrupção no futebol brasileiro. Ou seja: Allan vai continuar nos assustando com a realidade.

Seu livro é uma grande reportagem escrita no ritmo acelerado das boas obras de suspense. Que tipo de literatura faz a sua cabeça?

Indubitavelmente, livros-reportagem, até pela minha formação profissional. Mas sem deixar de lado as verdades de toda boa ficção.

Você diz que a droga é o mal inexorável do nosso tempo, abismo do século XXI. Será que não tem cura mesmo? Qual seria o remédio?

O remédio é conhecido há décadas, a possibilidade de cura também. Nossas fronteiras são um queijo suíço, mal vigiadas, onde passa de tudo, inclusive, claro, as drogas. Uma vigilância mais profissional e estruturada poderia criar sérios problemas ao narcotráfico, penso. Além disso, nossa cooperação policial com os países vizinhos é mínima. Sem contar que essas nações contam com polícias mal aparelhadas e que estão corrompidas de cima a baixo pelas grandes organizações criminosas; no fundo, não interessa a esses países acabar com a cocaína ou a maconha, porque representam dividendos importantes em economias dependentes de atividades econômicas primárias, como é o caso sobretudo do Paraguai e da Bolívia.

Quem é o grande acionista do tráfico de cocaína no país?

Há muitos grupos criminosos que operam o narcotráfico no Brasil, formado tanto por brasileiros quanto por cartéis bolivianos e colombianos, sem contar europeus, sobretudo quadrilhas sérvias, portuguesas e espanholas, além de grandes grupos mafiosos italianos, com destaque para a ‘Ndranguetta. Mas hoje o grande “broker” do narcotráfico no Brasil atende pelo nome de PCC.

A descriminalização de drogas leves seria um passo importante?

Sou contra a descriminalização das drogas, inclusive a maconha. O Brasil tem um sistema de saúde pública ruim, completamente despreparado para cuidar das levas de viciados que inevitavelmente se formariam. Tanto que o tratamento a esses viciados no país, hoje, tem sido feito, via de regra, por ONGs, muitas delas pouco sérias. Além do mais, descriminalizar as drogas não acabaria com o tráfico. Exemplo disso é Columbia, nos Estados Unidos. Os cartéis mexicanos aproveitaram a liberalização para produzir maconha no próprio Estado, em vez de trazer do México, e oferecem a preços mais baixos, porque evidentemente não pagam impostos sobre a droga, ao contrário do comércio legal. Até a Holanda, modelo de descriminalização, tem recuado nessa política.

Quais das suas descobertas sobre o submundo deixaram você mais surpreso?

A ganância incomensurável dos grandes traficantes e a criatividade para despistar a polícia no desafio de exportar cocaína para a Europa e os Estados Unidos. São capazes de animalizar seres humanos, transformados em “mulas” quase suicidas, com dezenas de cápsulas dentro do estômago, além de diluir cocaína em óleo diesel, azeite, misturá-la a tecidos, transformá-la em plástico.

Você diria que o tráfico está bem representado no Congresso?

Sim, com certeza. A Polícia Federal já flagrou deputados atuando abertamente em favor de grandes traficantes no Judiciário, no início dos anos 2000, caso, por exemplo, do Pinheiro Landim, então do PMDB no Ceará. Ele precisou renunciar para escapar da cassação do mandato, quando o caso veio à tona. Obviamente as grandes organizações criminosas que operam o narcotráfico no Brasil sempre procuram proteção e respaldo na atividade política. Resta sabermos, atualmente, quem é que essas máfias corrompem em Brasília.

Vale um comentário sobre a família Perrella, que é bastante paradigmática.

O caso do helicóptero do empresário e senador pelo PSDB Zezé Perrella, que foi flagrado em 2013 com quase meia tonelada de cocaína no Espírito Santo, é narrado em detalhes no meu livro. A PF afirma que não havia envolvimento do tucano no caso e o inquérito, de fato, não traz nenhuma pista nesse sentido. Mas não sabemos até que ponto chegou a investigação policial, nem o que eventualmente possa ter ficado de fora do inquérito. O que dá margem para suspeitas.

Você correu riscos ou ameaças na apuração do livro? Como conseguiu se dedicar integralmente a ele?

Não. E tive o cuidado de respaldar cada linha do livro em documentos, reportagens e entrevistas gravadas. Sempre fui consciente da delicadeza do tema. Quanto à dedicação exclusiva, a verdade é que nunca pude dedicar tempo exclusivo para a produção do livro, devido às demandas naturais de uma redação de jornal. Por isso, sacrifiquei incontáveis feriados e fins de semana, além de contar com a ajuda dos meus chefes no jornal para, eventualmente, fazer as viagens que precisava.

Mas agora “Cocaína” virou história e você já descansou bastante do livro. Qual projeto você está tocando agora?

Eu e um colega jornalista, o Carlos Petrocilo, estamos produzindo um livro-reportagem sobre o empresário J. Hawilla e a corrupção no futebol do Brasil e das Américas, investigada no FIFAgate. Nossa previsão é de que seja publicado no primeiro semestre de 2018.

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