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Leia o prefácio de “Hebe”, biografia escrita por Artur Xexéo

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Por Artur Xexéo

Minha avó materna, dona Candoca, foi quem me apresentou a Hebe Camargo. Era ela, a minha avó, quem controlava o seletor de canais da moderníssima TV importada de 18 polegadas que tinha lugar de destaque na sala de visitas do apartamento em Copacabana. E era para lá que eu ia, quase todo dia, depois da aula. Eram três os canais. No canal 6, a TV Tupi, parte da família gostava de assistir ao Repórter Esso e ao Grande Teatro de Sergio Britto. O canal 13, da TV Rio, exibia meus programas favoritos, quase todos shows humorísticos, como Noites Cariocas e O Riso é o Limite. Ao 9, a TV Continental, ninguém assistia. Quer dizer, quase ninguém. Pelo menos uma vez por semana, minha avó sintonizava o menosprezado canal 9. Era quando ia ao ar o programa da Hebe Camargo.

Não era difícil entender por que ela gostava tanto da Hebe. Dona Candoca era leitora assídua da Revista do Rádio, mas rejeitava os cantores populares, que considerava vulgares. Nada de Marlene ou Emilinha Borba, ou qualquer outra cantora que fosse presença constante na Rádio Nacional, celeiro de artistas que mobilizavam fã-clubes. Na Nacional, sua única concessão eram as novelas. Ouvia todas. Dona Candoca era uma sonhadora. E Hebe Camargo cumpria as exigências que ela impunha para quem considerava uma boa cantora. Elegante, refinada e romântica, cantava contracenando com um botão de rosa vermelho. Não sei por que eu achava que a rosa era vermelha. Afinal, a TV era em preto e branco.

Eu me lembro de um Natal em que os netos fizeram uma vaquinha para comprar um presente para dona Candoca. O que ela mais gostaria de ganhar? Um disco da Hebe, é claro. Entregue e desembrulhado o presente, uma das músicas do LP logo se destacou no repertório: “Quem é?”, de Osmar Navarro e Oldemar Magalhães.

Quem é que lhe cobre de beijos

Satisfaz seus desejos

E que muito lhe quer

Quem é?

Durante muito tempo, a Hebe cantando “Quem é?” ocupou o primeiro lugar no hit parade daquela casa. Minha avó adorava. E, agora, confesso: eu também. Não muito depois daquele Natal, me mudei do Rio com meus pais e descobri que a TV podia oferecer mais opções que os três canais cariocas. Em São Paulo, eram cinco as estações. Eu via o Sítio do Picapau Amarelo na Cultura, o programa da Bibi Ferreira na Excelsior, o Grande Show União na Record, os teleteatros do TV de Vanguarda e do TV de Comédia na Tupi.

Além disso, quase todo dia tinha algum programa da Hebe na TV Paulista. Ela era uma estrela absoluta em São Paulo. Era difícil, no horário nobre, girar o seletor de canais e não esbarrar em algum show apresentado por ela. Descobri um jeito de matar as saudades da televisão carioca, do Rio e da minha avó: assistindo aos programas de Hebe na TV Paulista. Nós ainda morávamos na capital paulista quando Hebe se casou e largou a carreira. Foi uma comoção, refletida nas muitas páginas de jornais e revistas que cobriram a cerimônia de casamento com Décio Capuano, o nascimento do filho do casal, Marcello, o cotidiano de dona de casa que ela abraçava e as muitas especulações sobre sua volta à vida artística.

Só vi alvoroço maior quando Hebe voltou de verdade e estreou na TV Record. Antes de a Globo lançar o Fantástico, era Hebe o programa que dominava o horário nobre aos domingos. O sofá no palco do Teatro Record no qual a mais querida apresentadora do Brasil recebia seus convidados virou uma instituição nacional. Ninguém tinha prestígio suficiente neste país se não se sentasse ali para ser entrevistado. O programa na Record durou oito anos, e, depois dele, Hebe afastou-se de novo da televisão.

Nesse período, eu voltei para o Rio, formei-me em jornalismo e deixei Hebe de lado. Até receber, como repórter da sucursal carioca da revista Veja, a pauta que me reaproximaria dela: cobrir sua estreia na TV Bandeirantes. Hebe retornava à televisão mais uma vez, e eu fui enviado para São Paulo a fim de entrevistá-la — além de assistir ao primeiro programa na nova emissora, naturalmente. Fui recebido na famosa casa do Morumbi onde ela morava com o segundo marido, o empresário Lélio Ravagnani. Me senti honrado. Não era qualquer um que se sentava no sofá de Hebe — e era o sofá da sua sala de estar, não uma peça de cenografia! Mas, acredite, quem parecia honrada era ela. E a estrela não entendia por que a Veja, “uma revista séria”, estava interessada no seu regresso à TV. “Isso é assunto?”, me perguntou. “Claro que é”, respondi. “Você é a Hebe Camargo.”

Depois disso, eu só via Hebe na telinha. De vez em quando ela era citada em uma ou outra nota na coluna que mantive no Jornal do Brasil e ainda mantenho no Globo. Até o dia em que ela me achou, por telefone, no estacionamento de um shopping center no Rio. Já estava doente. Tinha passado um tempo afastada do horário nobre — agora no SBT — para cuidar da saúde, mas uma semana antes do telefonema havia retomado as atividades. Foi um programa emocionante, que celebrou a sua volta à TV. Amigos na plateia, amigos no palco, todo mundo queria mostrar à Hebe o quanto ela era querida. E foi sobre esse sentimento que eu escrevi na minha coluna daquela semana. A TV e a Hebe viveram um casamento perfeito por mais de sessenta anos. Sem a Hebe, a TV tinha ficado sem graça. Com ela de volta, a televisão fazia sentido novamente.

Pois ali, no estacionamento do shopping, o celular tocou e alguém me disse que Hebe Camargo queria falar comigo. Fiquei paralisado. Era ela mesma do outro lado da linha. Queria agradecer pelo que eu tinha escrito na coluna. Me deu vontade de chorar. Chorei. Ali, no estacionamento do shopping, imaginei quantos elogios, quantas homenagens a Hebe já tinha recebido, e mesmo assim ainda se dava ao trabalho de telefonar para agradecer àquele que talvez tenha sido o menos importante dos elogios, a mais singela das homenagens. Querendo mostrar a intimidade que tinha com ela, falei da minha avó, do programa da TV Continental, do disco que nós, os netos, compramos, da minha canção preferida… No fim, cantamos em dueto “Quem é?”. Eu não podia vê-la, mas tenho certeza de que a Hebe estava segurando a gargalhada diante de minha desafinação.

Voltamos a nos ver quando ela recebeu o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, em uma festa no hotel Copacabana Palace. Não nos falamos, pois era difícil chegar perto dela. Era a mais requisitada de todos os premiados. Dos donos do jornal aos estagiários que cobriam a festa, todos queriam ficar perto dela. Eu não tive a menor chance. A certa altura da noite, trocamos olhares. Acho que foram olhares cúmplices e que, em pensamento, reprisamos nosso dueto cantando baixinho: “Quem é que lhe cobre de beijos?”

Quis o destino que eu encontrasse a Hebe mais uma vez, quando fui convidado para escrever sua biografia. Durante um ano e meio convivi com ela, coletando dados para descrever a trajetória de uma personalidade esfuziante, que ajudou a contar a história da televisão brasileira. Impossível não lembrar todos os nossos encontros. Impossível não lembrar minha avó. Ah… e minha intuição estava certa. Enquanto apurava informações para minha pesquisa, descobri que as flores preferidas da Hebe eram as rosas vermelhas, rosas da mesma cor que eu identificava no velho aparelho de TV em preto e branco da dona Candoca.

Que este livro seja um brinde, como os muitos com que ela celebrou a alegria de viver. “À vida”, ela costumava dizer enquanto batia taças de champanhe. Com este livro, eu brindo com a Hebe: à vida!

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