Entrevistas

“Fátima: Milagre ou construção?”, de Patrícia Carvalho

2 Comentários

 

Por Hérica Marmo

Em 1917, quando surgiram notícias sobre a aparição de Nossa Senhora a três pastorinhos na inóspita Cova da Iria, na cidade de Fátima, em Portugal, a visão era descrita como uma mulher de saia no joelho e casaco, com argolas nas orelhas e provavelmente meias brancas nos pés. Era isso o que Lúcia, de 10 anos, e seus primos Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, repetiam a todos os que os interrogavam sobre o fenômeno que diziam ter presenciado a partir do dia 13 de maio daquele ano e nos cinco meses seguintes. Não é possível encontrar nessa descrição a imagem que ficou perpetuada com a de Nossa Senhora de Fátima, que há décadas atrai milhares de peregrinos ao santuário construído em seu nome no local em que teriam ocorrido os eventos. Como essa e outras informações mudaram completamente ao longo desses cem anos é o que mostra a jornalista portuguesa Patrícia Carvalho em “Fátima – Milagre ou construção”.

Baseado em documentos históricos, como relatórios da própria Igreja, correspondências e reportagens, o livro mergulha na história de Portugal para explicar os caminhos que essa transformação seguiu. Passa pela Igreja Católica enfrentando uma perseguição do governo republicano, numa época em que o país era muito religioso e com um alto nível de analfabetismo; pelas duas Guerras Mundiais, uma delas com a participação do país; pela ditadura de António Salazar; e pelo medo de o comunismo chegar ao território português e enfraquecer novamente a Igreja.

Embora a celebração do centenário das aparições seja a maior efeméride católica desse ano, com direito à visita do Papa Francisco no 13 de maio, a intensa pesquisa de Patrícia também revela que desde o primeiro momento e até hoje existe, dentro da própria Igreja, uma grande resistência ao possível fenômeno. Mas mesmo que nem o Papa vá em visita oficial – e sim como peregrino – e que vários padres se declarem abertamente anti-Fátima, o mito e as romarias ao santuário só fazem crescer, na contramão do que se passa com a Igreja pelo mundo. Sem querer contestar o milagre ou corroborá-lo, o livro conta com profundidade como tudo em volta do acontecimento se tornou tão gigantesco.

 

Você começa o livro dizendo que tinha uma relação distante com Fátima. O que te motivou a pesquisar sobre o tema e o que mais te surpreendeu descobrir mesmo depois de cem anos e tantos livros já publicados a respeito das aparições?

Sou católica de formação, mas não sou uma pessoa religiosa. Por outro lado, gosto muito de história. E assim que comecei a pesquisar para o livro percebi que havia uma relação muito profunda entre o que aconteceu e o momento que se vivia no país. A República tinha sido implantada há pouco tempo e travou uma verdadeira guerra contra a Igreja. Havia também a Primeira Guerra Mundial. Era um período de muita fome, muitas doenças… Foi interessante entender a importância do contexto histórico. As surpresas foram muitas. Os documentos que existem têm muita informação. As pessoas que leram o livro se surpreendem, por exemplo, com o fato de a Lúcia dizer que na segunda aparição a Senhora os mandou aprender a ler. Lembro que, quando li aquilo, eu sorri e pensei: “A menina queria ir para a escola”. Nessa época, o analfabetismo em Portugal era quase 90% da população. E a mãe dela sabia ler, ao contrário da maior parte das pessoas da aldeia. Lúcia era uma menina esperta e queria aprender mais coisas. Mas o que mais me surpreendeu, além da diferença do que era a mensagem de 1917 e o que foi sendo construído e a própria imagem da Senhora, foi o fato de a Igreja começar a comprar os terrenos e pedir o projeto de construção do santuário ainda antes de iniciar a investigação dos casos.

Você também explica nas primeiras páginas que o livro expõe os fatos através dos documentos, mas prefere que cada um tire suas conclusões. A escolha por uma narrativa cronológica foi pra reforçar essa isenção?

Foi uma opção muito clara. Por duas razões. A primeira e mais importante é para se entender como o processo evoluiu. Porque muitas vezes hoje, quando se fala de Fátima, já se fala do conjunto. Já se refere a Fátima como um lugar de paz, já se refere às mensagens da Senhora com grandes questões contra a Rússia, contra o comunismo. Mas, no início, Fátima não era nada disso. Em 1917, a mensagem que as crianças diziam que ela transmitia era basicamente: rezem o terço, não façam nada que ofenda a Deus. Com a junção, ali pelo meio, de que haveria um segredo. A Lúcia se referia como se fossem umas coisinhas, umas palavrinhas. E depois, com o passar dos anos, o segredo evoluiu para aquela coisa toda, com três partes. Eu quis escrever o livro em ordem cronológica para que as pessoas pudessem ter essa percepção do que Fátima era em 1917 e como foi ficando. À medida que o próprio contexto histórico do mundo ia evoluindo, a mensagem foi sempre acompanhando. Com uma introdução anti-comunista, depois com a previsão de que haveria uma Segunda Guerra Mundial, quando ela já estava acontecendo. E, nos últimos anos, muito mais voltada para a paz.  Por outro lado, como eu também sabia muito pouco sobre o processo, achei que era a forma mais fácil de contar a história para mim mesma. E eu queria que os leitores percebessem o que eu mesma estava percebendo.

O livro conta que na mesma época em que surgiram as notícias sobre as aparições na Cova da Iria, havia outros vários relatos de visões em Portugal. Por que você acha que Fátima foi o que tomou maior vulto?

Porque, além ter acontecido no momento certo, teve as pessoas certas tomando conta do processo. Antes da pesquisa, eu não tinha noção de que haviam tido tantas aparições em Portugal. Muito menos que havia tido uma três dias antes, em Ponte de Barca. Um menino, também pastor, relatou que viu uma imagem de uma Senhora, que dizia para as pessoas rezarem o terço, que a guerra ia terminar. Chegou a sair no jornal e a matéria diz que estava atraindo milhares de pessoas. Foi um pouco do que começou a acontecer com essas aparições todas em Portugal. Mas depois o assunto morria. Quem acredita nas aparições aos três pastorinhos dirá que os outros relatos não davam em nada porque não eram sérios e o da Cova da Iria era. Eu acho que Fátima teve a grande vantagem de ter um bispo, D. José Correia da Silva. Ele chega  a Leiria (sede da diocese a que Fátima pertence) em 1920. No ano seguinte, por ordem dele, os terrenos são comprados e então começa o projeto do tal santuário que ele sonhou. Só em 1922 se abre o processo canônico. Ele era um devoto de Lourdes, na França, conhecia o santuário. Entendia a importância que aquilo tinha, não só em fazer renascer o fervor católico, que estava um bocado machucado por causa da guerra religiosa, mas também enquanto um centro importante. Aquela zona não tinha nada. Cova da Iria eram terrenos inóspitos com umas casinhas. Ele percebeu que tinha uma oportunidade de dar início a um grande centro religioso. Se fez convencido que as aparições eram verdadeiras ou se fez duvidando das aparições, apenas pelo aspecto econômico ou de implantação de um lugar de fé, não sei dizer. Mas, para mim, a atuação dele foi a grande razão para as aparições de Fátima terem vingado e as outras, não.

Antes de eu começar a pesquisar, as pessoas me falavam do cônego (Manuel Nunes) Formigão. Nunca no bispo, curiosamente. E eu acho que o bispo foi muito mais importante. Formigão foi o grande publicista.  Foi a pessoa que divulgou. Ele interrogou as crianças e foi quem começou a questionar a imagem da Senhora com a saia abaixo do joelho. Dizia que seria pecaminoso a mãe de Deus aparecer assim. Imediatamente as saias da Senhora descem. O livro mostra que algumas informações que pareciam não muito corretas começam a ser limadas. É ele o único responsável por escrever o relatório da tal investigação da Igreja, que só sai em 1930. Publicou muitos livros, tinha artigos em jornais com o pseudônimo de Visconde de Montelo. Portanto, foi muito importante na divulgação.

Apesar de profundo defensor da causa, o cônego Formigão demorou muito tempo para concluir o relatório de investigação para Igreja reconhecer o fenômeno. Essa demora demonstrava que, no fundo, ele tinha dúvidas?

Eu não sei alguma vez ele chegou a estar convencido. Apesar de a Igreja dizer que o Formigão demorou porque tinha muitos afazeres, eu fico com a clara sensação de que havia ali questões que ele não conseguia ultrapassar. A mais importante de todas é a falsa profecia do 13 de outubro. As crianças andaram seis meses a dizer que a Senhora em outubro iria revelar quem era e a que veio. Foi crescendo a expectativa sobre o que ela ia dizer naquele mês. E o que ela disse em outubro, segundo a Lúcia jurou de pé junto e insistiu durante bastante tempo? Que a guerra acabava naquele dia. Ora, isso não aconteceu. A guerra ainda demorou um ano a terminar. O Formigão interrogou as crianças sobre isso mais de uma vez e percebe-se claramente pelo relatório que a Igreja jamais conseguia encontrar uma explicação para isso. Ele avança por uma série de possibilidades e teorias. Mas percebe-se que não se convence.

Essa falsa profecia, em algumas circunstâncias, eu acho que teria sido suficiente para acabar com o mito de Fátima ali mesmo. Só não foi porque ocorreu o chamado Milagre do Sol. Muitas pessoas disseram que viram o sol bailar e se aproximar da Terra. Ficaram completamente encantadas com aquilo. Outras não viram nada. Outros ainda viram e dizem que foi um fenômeno normal que acontece naquelas condições atmosféricas. Mas isso ofuscou parte da mensagem. Se não tivesse acontecido isso, iam questionar.

Mais adiante, você aborda o período que ficou conhecido como Fátima II, em que o momento histórico de Portugal volta a ter influência no que acontece por lá. E isso talvez seja o que o mundo mais conheça em termos de questionar o que tem de veracidade ou  conveniência das aparições. Como a ditadura de Salazar ajudou Fátima e como Fátima ajudou a Salazar?

Não é uma relação muito linear. Salazar fazia questão de não ser visto lá. Foi fotografado no santuário uma única vez, na visita do Papa Paulo VI, em 1967. Mas a relação dele com o cardeal Cerejeira, chefe da Igreja Católica em Portugal, era muito próxima. E pesquisadores que analisaram essa relação não têm dúvidas de que todas as decisões que o cardeal tomava em relação a Fátima tinham o conhecimento e o aval de Salazar. Algumas poderiam ser até sugeridas por ele. Houve um crítico dentro da Igreja estrangeira que dizia: “Sem Fátima, Salazar não teria existido”. Não sei podemos ser tão taxativos. Mas estávamos numa época em que não interessava que as pessoas tivessem um grande pensamento político. É um pouco do que chamam de ópio do povo. Ter um lugar em que as pessoas achavam que todos os seus problemas podiam ser resolvidos. Manter aquela mentalidade que é muito de Fátima, em muitos aspectos mais próxima ao Antigo Testamento, daquele Deus castigador. Tudo isso era uma mensagem que era boa de manter na mente dos portugueses, de acordo com o regime em que se vivia. Nesse sentido, Fátima ajudou as pessoas a ficarem inebriadas e sem levantar muitas ondas. Nessa época, tornou-se oficialmente o centro de religião do país. Há uma série de encenações montadas, como grandes peregrinações organizadas para agradecer por Portugal não ter sido invadido pela guerra da Espanha. Depois por não ter participado da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Lúcia disse numa carta que Salazar foi o escolhido de Deus para governar os destinos do país. Tudo isso criava uma aura em torno dele e uma aceitação das decisões que ele tomava. E, ao mesmo tempo, mantinha as pessoas sempre quietinhas e calminhas. Afinal foi o senhor padre que mandava fazer assim, portanto não vamos levantar muitas ondas. Nesse aspecto, Fátima e o regime estão completamente ligados. Mas começa a estar ligado também ao contexto internacional, com o crescimento do comunismo. Existia um medo em Portugal que a Guerra Civil Espanhola pudesse transpor as fronteiras. Os vermelhos, como eles diziam, tinham ganhado, e lá na Espanha foi duríssima a repressão que fizeram à Igreja. E tinha também a Segunda Guerra Mundial, que de fato não entramos nela. E ainda estava muito vivo na memória de quando entramos na Primeira Guerra. E isso serviu para dar uma grande credibilidade para Salazar, interna e externamente.

Entre os críticos de Fátima, há padres que se intitulam anti-Fátima e publicam livros com essa bandeira. Até mesmo o Papa Francisco vai ao Santuário como peregrino em vez de visita oficial. O mito não ajuda a manter a força da Igreja Católica?

Muitos padres são enfáticos em dizer que Fátima não tem nada a ver com a Igreja Católica. E isso começa a surgir logo em 1917. Nessa época, alguém escreve num jornal católico sob um pseudônimo, mas certamente ligado à Igreja e que diz: “Atenção! Essas aparições particulares, em termos de ser um bom católico não contam para nada. Porque tudo o que é da religião já está contido na Bíblia e nos Evangelhos. Portanto, essas aparições, se quiserem acreditar, tudo bem. Mas se não acreditarem, vão continuar a ser os mesmos bons católicos”. E tem havido vários padres criticando a mensagem de Fátima, que é muito rudimentar, baseada no castigo e na penitência. E é uma coisa que já tinha sido ultrapassada com a imagem de Jesus Cristo, do amor e de termos sido todos salvos pelo seu sacrifício. Há vários setores da Igreja que não concordam com essa regressão, nem com o que se chama da parte mercantil de Fátima, que se tornou uma máquina de fazer dinheiro. A Igreja Católica em Portugal, assim como vários países da Europa, está sofrendo com uma involução. Estamos sempre ouvindo que há poucos padres, há poucas pessoas querendo abraçar a fé religiosa, as igrejas estão vazias. Mas Fátima é à margem disso. Há um livro que cito de um padre que condena as pessoas que passam o ano inteiro sem ir à igreja e de repente vão a Fátima de joelhos, queimam velas. Isso é muito criticado em alguns setores da Igreja. Nesse sentido, Fátima é um conceito que pode viver perfeitamente sem o resto da Igreja. Costumo dizer que Fátima está de tal maneira implementada que mesmo se a Lúcia aparecesse hoje dizendo “Inventei aquilo tudo” não ia adiantar de nada porque já há vontade de acreditar. As pessoas sentem uma emoção, sentem-se ligadas àquilo, querem crer na história. E é muito bom alguém poder acreditar que promete fazer uma caminhada e que há uma entidade divina que vai lhe resolver os problemas às custas disso. E em tempos complicados, melhor ainda. Portanto, é uma forma fácil, digamos assim, de ter um contato direto com o divino.

Desde 1917 já havia muita gente que acreditava que tudo não passava da imaginação de Lúcia, inclusive a mãe dela. Depois da morte dos primos (Francisco, em 1919, e Jacinta, em 1920), ela foi encerrada num convento e controlada pelo bispo de Leiria. Viveu para o mito que ajudou criar, mas isolada dele. Pelas correspondências que teve acesso, você acha que a Lúcia foi feliz?

Eu fico com a ideia que ela não mentia. Acho que ela acreditava que estava vendo alguma coisa. Ela tinha imaginação. Naquela época não existia televisão, nem internet. A imaginação das crianças era centrada nas histórias que ouviam e, na casa da Lúcia, contavam-se muitas histórias religiosas. Eu não sei se ela teria alguma propensão para imaginar coisas, aparições ou ilusões. Acho que ela própria se convenceu de que recebia aquelas mensagens. Uma pessoa que tem uma vida totalmente controlada e direcionada apenas para uma coisa ou acredita que aquilo está acontecendo ou, se não acredita, não sei se aguenta-se viva por muito tempo. E a Lúcia viveu muito (morreu aos 97 anos, em 2005). A ideia que eu tenho é que, sim, ela conseguiu encontrar a felicidade naquela vida que lhe foi imposta.

Comentários
  • Tadeu Giatti

    Meu questionamento: Patricia Carvalho é ateia, marxista ou simples jornalista em busca da Verdade?? Se sim, deveria saber que houve um famoso milagre do sol, em 13.10.1917. Os jornais (campo de trabalho e que externa as opiniões dessa “jornalista investigadora”) da época noticiaram tal fato. Seria tudo alucinação, cara “jornalista”?? É fácil mascarar-se como uma “jornalista investigativa”, depurada e isenta de religiosidade e, com uma postura iconoclasta, destruir tudo e todos. Rebata essa minha questão. Depois analisarei se acredito em seu “jornalismo investigativo”

  • Tadeu Giatti

    Outro ponto digno de ser combatido na obra da “jornalista investigativa”: segundo suas palavras textuais, retiradas de sua entrevista, “E tem havido vários padres criticando a mensagem de Fátima, que é muito rudimentar, baseada no castigo e na penitência. E é uma coisa que já tinha sido ultrapassada com a imagem de Jesus Cristo, do amor e de termos sido todos salvos pelo seu sacrifício…” Ora, essa mensagem rudimentar, cara “jornalista ateia, de formação católica mas não religiosa”, diz respeito ao que a Mãe de Jesus veio trazer: a continuar o caminho de pecado (vc sabe o que é isso, “jornalista” ou esse vocábulo inexiste em seu léxico?????) o mundo seria destruído. Isso que você classifica como (rudimentar: castigo e penitência), é a base da Igreja Católica. Eu a desculpo por não saber sobre isso, afinal, vc é de formação católica, mas não RELIGIOSA. Jesus, ao adentrar o mundo, trouxe salvação, com seu sacrifício, mas a misericórdia, cara “jornalista”, não exclui a penitência pelo malfeito (se vc prefere esse vocábulo ao termo pecado). E foi, justamente, essa a mensagem da Mãe de Deus, repudiada por você, como “rudimentar”. Seu linguajar, denota profundo desprezo e asco pela Fé Católica, além de desconhecimento TOTAL da Religião. Somente por esses pontos, vê-se que seu livro é uma TREMENDA FARSA.

Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais