Prata da Casa

Deveríamos incendiar nossos escritórios, mas preferimos não fazê-lo

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Por Nathalia Barbosa

O mais célebre arquétipo da história é o rebelde. Quando pronuncio isso, pode ser que venha a imagem do punk revoltado de jaqueta de couro, tachas e moicano colorido, mas a literatura está cheia de personalidades – se é que podemos incluir adjetivo de prestígio nesse caso – que fogem desse padrão apropriado pela mídia.

Os exemplos são infinitos, mas alguns merecem mais atenção, principalmente pelo nível de influência ideológica que causaram. Atenho-me aqui à força das ideias em contraponto ao uso da violência física; há todo um valor simbólico resistente ao tempo.

Sócrates, por exemplo, retratado nos diálogos de Platão como aquele que rejeita o sofista e a relativização da verdade em prol da luta pelo poder, levou suas dissidências até o último gole de cicuta. A partir de toda a filosofia clássica, Nietzsche cria seu poderoso Zaratustra, que apesar de ser considerado como louco pela sociedade, retira-se para o exílio enquanto funda um conjunto de virtudes para a superação do homem e seus valores mesquinhos que lhe causam repulsa.

Seguindo a linha de rebeldes pacifistas, não poderíamos nos esquecer de Thoreau com sua Desobediência Civil e seu retiro ao Lago Walden em desacordo com a guerra estadunidense contra o México, a escravidão e a sufocante sociedade capitalista em plena Primeira Revolução Industrial. E, para os mais novos, quem nunca encontrou uma companhia durante a adolescência no Campo de Centeio com Holden Caulfield enquanto ele critica os estereótipos que lhe aparecem em Nova York?

O que todos esses rebeldes têm em comum? Eles são fundamentais em nossa vida por mostrarem que há algo de errado em nossa rotina injusta – pense em como foram decisivos Gandhi e Luther King –, condenada desde cedo a seguir um modo de produção e a se encaixar na ordem vigente sem nenhum questionamento. Esses rebeldes, mesmo que de uma forma pacifista, culta, crítica ou, até, de forma mal-humorada e cheia de palavrões, sabem nos incitar à mudança após um brusco estalo em nossas mentes: “ei, isso aqui tá uma verdadeira porcaria e não posso mais tolerar esse abuso!”.

E é aí que entra Bartleby, o escrivão: alguém que poderia quebrar vidraças, gritar com seu chefe após um cansativo dia de trabalho, chorar com tarefas inacabadas por motivos ilógicos, mas que prefere agir diferente. O que, então, Bartleby faz de especial que lhe delega o brilhante título de rebelde no meio desses supracitados?

Personagem de Herman Melville, autor de Moby Dick, Bartleby é um escrivão, recentemente contratado, “palidamente delicado, lamentavelmente respeitável, irremediavelmente desamparado” segundo a descrição de seu chefe, um consultor de justiça de Wall Street que narra a história do livro.

Descrevendo seu escritório, tal chefe apresenta o nome de seus funcionários – Turkey, Nippers e Ginger Nut – relacionando-os com suas respectivas características agitadas e estressantes em consonância com a vida apressada em 1853, já com moldes da exigência de resultados do capitalismo em ascensão. Ironicamente, o narrador, que se descreve como um idoso sereno e sem ambição, já não informa seu nome próprio, como se já não houvesse um espaço para ele na vida agitada da modernidade.

Ainda assim, ele cumpre suas funções conforme acordado e, portanto, é um homem comum que logo é esquecido. Já o novo escrivão, apesar de sua solidão – não espacial, mas subjetiva e imaterial – é alguém que, apesar da ausência de registros anteriores, merece ser, agora, nomeado pela sua excentricidade.

Embora respire, mais parece um morto ou um autômato: cumpre suas funções reproduzindo textos jurídicos sistematicamente e sem parar. Porém, chama atenção sua calma em negar algumas atividades e suas poucas palavras. Ao contrário de seus colegas de trabalho, Bartleby se opõe à hierarquia e à ordem vigente de forma altamente pacífica, pronunciando a frase “prefiro não fazê-lo” sempre que está em desacordo com o que lhe é delegado. Ora, o que espanta as pessoas ao seu redor a ponto de imobilizá-las?

Bartleby é alguém que obedece a sua vontade e seu desejo, mesmo que de uma forma misteriosa e categórica. É alguém que prefere, usa sua liberdade de escolher e, mesmo antes de Sartre expor que a definição do homem são suas ações, e não sua essência pré-determinada – sendo livre para escolher –, o escrivão já deixa isso claro mesmo em um cargo de trabalho com obrigações baseadas em pagamentos monetários.

Seu comportamento assusta e irrita porque o esperado é uma situação com alta carga explosiva. Em uma sociedade na qual se tem um paradoxo entre o recalque dos impulsos e dos desejos desde que haja a possibilidade de exteriorizar a raiva, o normal é a brutalidade dentro dos limites das ações socializantes e exploratórias que geram lucro.

Quando tiram nossos direitos trabalhistas nos impondo trabalho até a morte, quando somos humilhados no transporte público para o trabalho com lotações absurdas, quando sofremos em guerras cotidianas em nossas cidades corrompidas por governos sujos e, até, totalitários, poderíamos incendiar nossos locais de trabalhos, poderíamos nos recusar a obedecer a ordens em meio à produção sufocante, mas preferimos não fazê-lo.

Infelizmente, o sistema nos faz acreditar que devemos ser úteis 24 horas por dia em toda nossa vida e o que não é efetivado e não produz morrerá sem fazer falta, podendo ser um arquivo queimado. Em meio a esse discurso esmagador de qualquer vontade e liberdade, é preciso que Bartleby nasça em cada um para que a palavra preferir adquira sua potencialidade. Enquanto isso, o que mais assusta é a nossa passividade – uma calma que não luta contra o que é imposto, mas que acata tudo sem dizer o que realmente prefere.

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