Entrevistas

“Senhor República”, de Carlos Marchi

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Neste momento delicado da vida do país, em que a classe política parece estar devendo muitas satisfações ao povo brasileiro, o jornalista Carlos Marchi lança “Senhor República”, biografia do senador Teotônio Vilela, que completaria 100 anos de vida no próximo dia 28 de maio.

Teotônio ficou nacionalmente famoso como o “Menestrel das Alagoas”, canção em sua homenagem que ganhou o país na voz de Fafá de Belém nos anos 80, embalando toda a grande torcida da campanha pelas eleições diretas, marcando a volta da democracia, após duas décadas de ditadura.

Usineiro rico e influente, autoproclamado liberal, o alagoano se tornou exemplo de político honesto e atuante, que nunca se recusou a dialogar com os oponentes. Encarnou a briga pela anistia, percorrendo todas as cadeias do país onde ainda havia presos políticos. Foi um crítico aberto do regime militar, pelo qual sentiu-se traído. Assim como Ulysses Guimarães, foi um ícone do PMDB dos primeiros tempos. Mas Teotônio circulava tão livremente entre os outros partidos, que até o PCdoB chegou a pensar em lançá-lo como candidato à Presidência da República, na sucessão do general João Figueiredo.

Eis, então, uma história rica, um personagem generoso – que, enfim, recebe uma biografia à altura.

Leia abaixo entrevista do autor ao blog e neste link o prefácio da obra, escrito pela jornalista Eliane Catanhêde.

 

O livro marca o centenário de nascimento do Teotônio, comemorado neste 28 de maio de 2017. Mas fico intrigado: por que ninguém se interessou antes por um personagem tão generoso?

Eu também. E agradeço muito que alguém não tenha lembrado, porque esse esquecimento me propiciou lembrar. Quando lancei “Todo aquele imenso mar de liberdade”, a biografia do jornalista Carlos Castello Branco, saí à cata de ideias para meu próximo livro. Em 2015, passou-me pela cabeça a biografia de um(a) grande esportista brasileiro(a), para lançar antes das Olimpíadas. Mas todas as ideias deram errado. Um dia eu vi um post da Nice (Janice Vilela), que é minha amiga pessoal há muito tempo e minha amiga no Facebook. Esse post falava do centenário de Teotônio Vilela em 2017. Na hora, cravei os olhos na foto de Teotônio e me disse: “Este é o meu personagem”.

 

Tenho a leve impressão de que a classe política está devendo satisfações ao povo brasileiro. Como você tem “convivido” bastante com Teotônio, proponho um leve exercício de ficção: você arriscaria dizer o que ele estaria fazendo, neste momento, no Senado? Arriscaria dizer em que partido ele estaria hoje?

É impossível imaginar em que partido Teotônio estaria hoje. Ele evoluía tanto, renovava tanto suas ideias e seu discurso, buscava caminhos novos, sempre com absoluta coerência, que ninguém saberia dizer em que partido estaria hoje. Certamente não seria em nenhum partido envolvido em corrupção. No Senado, ele estaria, sem dúvida, batalhando por uma profunda reforma política. Para melhorar a possibilidade do voto, para aperfeiçoar o sistema representativo, para impedir que haja partidos de aluguel, para trazer as campanhas políticas de volta à realidade da política, para acabar com as campanhas suntuosas e enganadoras, para driblar o populismo missioneiro. Se ele ainda estivesse por aqui, e no Senado, eu teria a minha vida de cidadão facilitada: mudaria meu título para Alagoas e votaria nele. Não precisava ficar procurando agulha no palheiro.

 

O que fez Teotônio se tornar um gigante na política brasileira?

Ele foi um homem fora do comum que percorreu, em sua vida política, um arco ideológico de 180 graus, sempre mantendo sua lisura, coerência e franqueza. Teotônio não era um homem de conchavos. Dizia a seus interlocutores: “Quando falarem comigo, falem alto. Eu não falo baixo”. Quer dizer, não cochichava, não tramava urdiduras pouco recomendáveis. Além disso, foi – e este é o fio condutor do livro – um político liberal na melhor acepção do termo. Começou na UDN porque este partido foi fundado para preservar as liberdades e ele tinha aprendido a odiar as tiranias ao enfrentar as agruras da ditadura Vargas. Passou a vida citando as grandes figuras liberais – John Locke, Edmund Burke, Thomas Jefferson e, no Brasil, Frei Caneca e Tavares Bastos. No universo político brasileiro, Milton Campos e Daniel Krieger, com quem conviveu.

 

Teotônio cometeu um grande equívoco: apoiar o golpe de 1964. Como ele conseguiu se livrar desse peso?

Não diria que tenha sido um equívoco propriamente: ele, de fato, acreditava (como toda a UDN da época) que o movimento militar implantaria uma democracia representativa legítima, substituindo com vantagens o desbragado populismo de João Goulart. Quando viu que o regime militar marchava para sua perpetuação no poder, esquecendo a democracia que pregara na origem, começou a cobrar que se democratizasse. Nessas cobranças, usava a linguagem pós-golpe de 1964, que invocava a democracia liberal ameaçada pelo governo João Goulart. Começou aí sua fase rebelde. Ao longo do tempo, tornou-se incômodo para o regime militar. Esteve para ser cassado duas vezes, uma em 1964, logo após o golpe, outra em 1968, após o AI-5. Eu conto como ele se safou: na primeira, por meio de uma carta pungente do Major Luiz ao marechal Castello Branco; na segunda, pela intervenção de bastidores de seu amigo de juventude Mário David Andreazza, o todo poderoso ministro dos Transportes do governo Costa e Silva.

 

O livro me deu a ideia de um político que foi rejuvenescendo. Foi isso mesmo?

Teotônio nunca deixou de evoluir politicamente. A partir do governo Geisel, começou uma incessante pregação da redemocratização, depois de uma audiência com o general-presidente, logo no começo do governo. Com o passar dos anos, tornou-se um aliado da oposição, o MDB, e acabou deixando o partido do regime militar, a Arena, para ingressar no MDB de Ulysses Guimarães. Sua curta temporada no MDB (e depois, no PMDB) foi de 1979 a 1983, apenas, mas foi marcante. Foi vice-presidente do partido, agitou as oposições quando assumiu a presidência (na doença de Ulysses).

 

Uma demonstração de sua vitalidade ocorreu no final dos anos 1970, quando forçou a ampliação da Anistia para políticos cassados e presos políticos. Não era uma tarefa simples. 

Sim, um de seus momentos mais gloriosos foi a tramitação do projeto da Anistia, quando ele presidiu a Comissão do Congresso que iria examinar o projeto do general Figueiredo, e, logo a seguir, o início da pregação por eleições diretas. Nesse momento, Teotônio se tornou uma figura nacional, respeitado pelos liberais e pela esquerda, e começou a abrir caminho para ser candidato à presidência da República, mesmo sendo de um Estado de pequena densidade eleitoral. Nesse momento, como sabemos, foi abatido pela doença. Mas antes de morrer, virou o país de cabeça para baixo. Na Anistia, usou uma estratégia que atingiu o fígado do regime militar. Viajou a todos os Estados onde havia presos políticos e fez a anistia ser conhecida e compreendida pelo povo brasileiro. Depois, foi o grande detonador da campanha das diretas, que abandonaria a meio caminho, tombado pelo câncer.

 

E quando aconteceu a tal guinada de 180 graus e ele passou a defender teses da esquerda?

No fim da vida, sem deixar o PMDB, transitou célere para a prática de esquerda. Há dúvidas a respeito disso: teria ele se transformado num esquerdista ou seria apenas um liberal enfurecido? Curioso que ele nunca tenha deixado o PMDB para ingressar, por exemplo, no PT ou no PSB. Ao contrário: ele seguiu defendendo a unidade férrea dos oposicionistas até que a ditadura militar fosse derrubada. Há divergências sobre seu papel na época. A maioria, no entanto, acha que sua trajetória para a esquerda foi fortemente influenciada pela convivência com a tese da anistia, com as visitas aos porões do regime militar e também com o candente caso de amor com Maria Luíza Fontenele, uma cearense que nasceu para a política através das JECs (Juventude Estudantil Católica), uma antiga fração da Ação Popular. Mais tarde ela militaria no PCR (Partido Comunista Revolucionário), fundado por José Genoino após sair da cadeia. Eu relato esse caso de amor não com intenção sensacionalista, mas porque ele teve repercussões políticas notórias sobre o perfil político de Teotônio.

 

O liberal (e rico) Teotônio não tinha medo de conversar com o PCdoB, que pregava ideias bem opostas. A identificação era tão profunda que o partido chegou a pensar em lançar Teotônio como candidato à Presidência da República. Não deixa de ser curioso. 

Ele tinha relações amistosas e francas com o PCdoB desde os tempos de político alagoano, principalmente a partir de sua ligação fraternal com Aldo Rebelo, cujo pai foi vaqueiro de uma de suas fazendas. O fato é que no início dos anos 1980, com o fim do bipartidarismo, o PCdoB pensou em tê-lo como candidato. Nesse momento, o partido influenciou o compositor Fernando Brant (que era linha auxiliar do PCdoB) a compor uma canção que seria o hino da candidatura – o “Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento compôs a música sem saber disso).

 

Quando deixou a Arena, partido do regime militar, e foi para o MDB, Teotônio encontrou um novo nicho, mas também passou a ter de disputar espaço com grandes lideranças, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro. Como foi isso?

De fato, na Arena ele era estrela única da companhia, o único rebelde a defender encarniçadamente a volta à redemocratização. Em muitos momentos, apesar de estar no partido do governo militar, foi mais oposicionista que os próprios oposicionistas, tinha mais coragem para criticar o regime que os próprios emedebistas. Quando transferiu-se para o MDB, foi recebido com muitas homenagens, inclusive ganhando a primeira vice-presidência do partido, mas o espaço era concorrido. No entanto, Teotônio tinha duas vantagens: era original e tinha coragem pessoal. Com essas duas virtudes ele conquistou a imprensa e passou a ocupar um espaço que até então estava vago. No MDB, ele fez avançar extraordinariamente a redemocratização. E deu ao partido uma dinâmica nova.

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