Entrevistas

“O mundo não vai acabar”, de Tatiana Salem Levy

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Por Herica Marmo

Tatiana Salem Levy acredita nos livros. Não só como a paixão de infância que a levou para o que hoje é o seu principal ofício. Autora de três romances, ela também vê no hábito de ler um canal de salvação para a humanidade. Em “O mundo não vai acabar”, que lança pela José Olympio, Tatiana exercita seu desejo de esperança ao buscar na literatura reflexões sobre assuntos atuais que nos fazem questionar constantemente se não estamos caminhando para o fim.

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, as crises econômica e política no Brasil, os conflitos no Oriente Médio, a xenofobia crescente em várias partes do planeta, a homofobia e a violência contra as mulheres são alguns dos temas presentes neste livro, que reúne uma seleção de ensaios publicados em sua coluna do jornal “Valor Econômico”, revistos e modificados, além de outros textos inéditos.

O livro chega às livrarias no fim de maio.

Você diz na apresentação que mais do que otimista, o título do livro é utópico. O nome surgiu porque você percebeu que nos seus textos existia esse desejo de esperança ou fez a seleção já pensando nesse recorte?

Eu fiz a seleção pensando nisso. Quis escolher os ensaios que tivessem mais a ver com a atualidade, com questões políticas, que falassem do Brexit, do Donald Trump, do momento que o Brasil vive hoje, da situação no Oriente Médio… E, ao mesmo tempo, queria textos que repensassem o passado para a gente entender o presente. Acho que um dos defeitos do Brasil é a nossa incapacidade de leitura do passado. Então, acabamos repetindo determinados erros porque não conseguimos ler o que aconteceu. Aí temos, por exemplo, um general nomeado presidente da Funai. Para mim, isso é resultado de uma incompetência de leitura do passado. O Brasil é um país que não fala muito da própria memória. Com essa seleção, eu quis um livro que apontasse para um futuro melhor. O presente está tão ruim, não só no Brasil, que escutamos o tempo todo que o mundo vai acabar. É um momento de distopia tão grande que a gente fica se perguntando: “isso está acontecendo mesmo?”. É o Trump sendo eleito nos Estados Unidos, o modelo da Europa falindo… Eu tenho uma necessidade de acreditar que há uma solução. Até porque enquanto algumas coisas dão muitos passos atrás, há avanços. E eu falo deles. Como a questão do feminismo. Por um lado, o Brasil ainda é uma sociedade muito machista, com conceitos que parecem ser do século XIX, mas ao mesmo tempo tem um movimento muito forte e muito importante acontecendo, que aponta para uma mudança.  Então, esse livro também é uma tentativa de ver as coisas boas que o mundo de hoje está produzindo.

O livro aborda muito a relação e as funções de leitor e escritor e você pode falar com propriedade sobre as duas. Em muitos momentos, a literatura aparece como uma possibilidade de salvação para o mundo (em “A banalidade mal”, defende que a falta de pensar favorece o mal se alastrar e ler faz as pessoas pensarem; em “Prioridades”, destaca a importância dos livros na formação do indivíduo).  Em “Alegria da escrita”, você começa narrando a euforia que sentiu ao terminar um romance sombrio do Gonçalo M. Tavares e cita Gilles Deleuze, “literatura é uma saúde. O escritor, um médico”, para explicar essa aparente contradição. Você fala nesse ensaio no ponto de vista de leitora. Na posição de escritora, você se sente com esse poder curativo?

É difícil responder isso, porque não posso me colocar como uma escritora que tem esse papel curativo. Acho que cabe mais ao leitor do que ao escritor definir quando um texto alcança essa saúde de que nos fala Deleuze. O que eu posso dizer é que como escritora de ficção estou mais preocupada em alcançar a verdade dos sentimentos e como escritora de ensaios fico mais atenta ao pensamento. Isso não quer dizer que eu não esteja interessada no pensamento quando escrevo um romance ou que ignore os sentimentos quando escrevo um ensaio. Tudo se mistura, sempre. Mas talvez quando eu escreva ensaios eu me sinta mais médica, nesse sentido da citação do Deleuze, do que quando escrevo um romance. Penso mais no leitor quando estou escrevendo um ensaio, tenho a preocupação com a clareza. Na ficção, não me preocupo se vão me entender. O leitor pode receber o romance como saúde. Mas eu não penso nisso quando estou criando uma história.

Todo escritor é em primeiro lugar um leitor. A gente quer escrever porque se apaixonou pelo universo dos livros. Nos encantamos e queremos fazer parte daquilo: uma espécie de comunidade, uma coisa maior que tem a ver com todos os livros que foram escritos. A gente se apaixona e quer entrar nessa comunidade. Escrever é uma extensão da leitura. Sempre tem um diálogo com o que foi lido. Sendo ficção ou não ficção, tudo o que lemos acaba aparecendo de alguma forma. Tem sempre uma conversa com o que veio antes de nós.

Em um dos ensaios, você confessa que por muito tempo não gostava do termo feminista. Mas depois se deu conta de que, como mulher e escritora e diante do tanto que ainda é preciso conquistar, era uma necessidade se posicionar como tal. Como você vê outras artistas tendo um posicionamento contrário, questionando o movimento?

A gente precisa partir de uma premissa muito básica que é definir o feminismo como direitos iguais para homens e mulheres. Então, você é feminista se acredita que mulheres e homens têm que ter os mesmos direitos. Quando algumas mulheres dizem que defendem esses direitos, mas não são femininas é porque não pararam para pensar no assunto, nunca leram sobre isso e estão fechadas no que se tornou o clichê do feminismo nas décadas de 60 e 70. Então, pensam que feminista é não se depilar, não gostar de sexo… Tudo é falta de leitura e reflexão. No livro, eu cito “Sejamos todos feministas”, da (nigeriana) Chimamanda Ngozi Adichie, e recomendo outro dela que li depois, “Para educar crianças femininas”. A gente aprende desde o berço valores profundamente machistas. Acabamos repetindo isso que aprendemos. Mas existe um esforço das pessoas da minha geração de educar seus filhos, homens e mulheres, como feministas. Ou seja, homens e mulheres que vão crescer acreditando que ambos os sexos têm os mesmos direitos.

Elif Shafak afirma que, enquanto escritora turca, não se pode dar o luxo de ser apolítica. Você rebate que não há como ser escritor e não ser político. Além disso, por conta de suas origens – avós judeus turcos e pais que lutaram contra a ditadura no Brasil – você considera que não se pode dar o luxo de não se posicionar contra os riscos da falta de memória? É uma preocupação que aparece não só neste livro como também nos seus romances.

Sim. É uma das minhas obsessões. Talvez porque seja algo que vem da minha criação. Desde pequena, eu ouvia que minha família foi expulsa de Portugal com a inquisição, no século XVII, e foi para a Turquia. E eles contaram de geração em geração. Tanto que eu, nascida em Portugal, em 1979, e criada no Brasil, conhecia muito bem essa história. Porque ela foi contada dos pais para os filhos. É uma tradição muito judaica da memória, de não deixar a história morrer. Os brasileiros não têm essa cultura. Mas essa preocupação dos judeus com a memória é algo que funciona. Tem gente que reclama: “Mais um filme sobre o holocausto?!”. Mas a verdade é que a insistência nessa temática dá uma certa proteção. E a memória facilita a capacidade de entender o que aconteceu e saber o que você pode fazer para aquilo não se repetir. E de fato é uma preocupação minha. Em todo os meus livros, a questão da memória é muito presente. Acho que a gente não entende quem a gente é, se não conhece quem veio antes. Para mim, pessoalmente, é sim uma questão importante. Mas para um país, mais ainda. Você nunca vai entender esse racismo tão absurdo que existe no Brasil se não fizer uma boa leitura sobre o que foi a escravatura. Falamos muito pouco sobre isso, mesmo sendo uma história muito recente. E a ditadura militar, que é mais recente ainda, parece que nunca aconteceu. Para entender o ponto que a gente está hoje, é preciso de uma perspectiva histórica sobre o que nos levou a ser o que somos. Falta muito para o Brasil. Em um dos ensaios, falo como Argentina e Chile, que tiveram uma ditadura muito mais pesada do que a nossa, conseguiram fazer uma releitura disso muito mais forte. Eles puniram as pessoas envolvidas, fizeram museus, construíram uma memória viva dessa questão. O Brasil não tem.

Ainda sobre a função da escrita, em “Não sei o que fazer”, você diz que embora não seja uma literatura engajada com a dos existencialistas, a arte sem interesse de mercado pode ser política. Esse livro é  uma tentativa de resposta para o título do ensaio?

Sim, com certeza. A minha utopia é a escrita. Existe uma interrogação geral: o que a gente pode fazer para melhorar o mundo? E esse livro é um ato político nesse sentido. Acho que a gente não é político só quando está envolvido com a política governamental – ou mesmo com a não governamental. A gente é político naquilo que a gente pode fazer para transformar o mundo de alguma forma. E o que eu posso fazer é escrever. Acho que o meu maior ato político vai ser sempre tentar promover o pensamento dos outros a partir da minha escrita. Nesse caso, não só a partir do que eu escrevo, mas também do que eu leio. É um livro que apresenta muitos autores, abre um bom campo de leitura.

Fechar o livro com um ensaio sobre um jovem autor brasileiro foi proposital? Mais uma indicação de que há esperança no mundo?

Foi proposital terminar com a ternura. E o Victor Heringer tem essa escrita ternurenta. “O amor dos homens avulsos” é um romance que acredita nisso. Está no meio de uma situação que envolve racismo e homofobia, mas a ternura surge o tempo inteiro como uma possível salvação. Acho que a ternura é exatamente conseguir enxergar o outro. Quando você consegue ver o outro, você consegue ter ternura por ele. Não tinha pensando no fato de ele ser jovem, mas também faz sentido. Também é bom terminar o livro acreditando nos jovens. A gente precisa deles para o mundo ser melhor. Mas sobretudo precisamos de mais ternura.

Comentários
  • José Alfredo Santos Abrão

    entrevista lúcida, de uma autora que observa as coisas com serenidade, vendo mais além da paisagem, percebendo de onde as coisas vêm. compartilho.

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