Entrevistas

“Travessia”, de Leticia Wierzchowski

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Por Olga de Mello

A escritora gaúcha Leticia Wierzchowski passou os últimos 16 anos convivendo intensamente com personagens reais da História do Brasil, recriando diálogos e encontros – políticos e românticos – para contar as trajetórias de homens e mulheres que lutaram pela construção de um novo país. Depois do sucesso de “A casa das sete mulheres”, veio “Um farol nos pampas” e agora chega às livrarias “Travessia”, o último volume da Trilogia Farroupilha, enfocando o romance entre Anita e Giuseppe Garibaldi.

Os três romances acabam de sair pela Bertrand Brasil, com nova identidade visual, criada pelo artista plástico Chico Baldini, a convite de Leticia, que acredita que os livros “encontraram suas caras oficiais e eternas, agora”. O ponto final desta trilogia, no entanto não significa o fim do envolvimento da escritora com alguns de seus protagonistas. A saga de Giuseppe Garibaldi depois da morte de Anita, já vem sendo esboçada por Leticia, que pretende, em breve, começar a trabalhar em cima da terceira etapa da vida do revolucionário italiano.

Desde o primeiro volume da Trilogia Farroupilha – “A Casa das Sete Mulheres” – você imaginava fazer uma série?

Semanas depois de terminar “A casa”, a ideia de continuar a história me habitou. Logo comecei um segundo livro, escrevi durante meses, depois guardei o projeto. Aí veio a minissérie. Quando decidi ressuscitar meus originais, deparei-me com o fato de que eles batiam de frente com o imaginário coletivo criado pela série. Mas queria seguir mais do que nunca, então reestruturei a história, jogando meus personagens para frente, para a guerra do Paraguai, que está em “Um farol no pampa”. Quando terminei este segundo livro, já tinha já em mente completar a trilogia. Muitos anos se passaram. Um dia, em 2016, pensei: vou trazer o Garibaldi de volta. E, com o Garibaldi, a sua mulher fundamental, que era Anita. Assim, se eu tinha entrado no universo de “A casa” pelos olhos de Manuela, agora iria mostrar o outro lado da moeda. Então, sentei e comecei o livro freneticamente.

Houve surpresas em relação ao que você imaginava para um determinado personagem – e a História de sobrepôs ao que você criava?

 Eu escolho as versões que mais me interessam dos fatos. E há poucos fatos sobre esses personagens. Assim, o tecido criativo nasce para unir estes fatos e compor um todo que é o romance. Sempre penso que é preciso ser irresponsável para escrever um romance com vultos históricos. É preciso se arriscar, entrar no amálgama humano do personagem. Eu adoro isso. A fidelidade aos fatos é uma escolha do escritor. A literatura também existe para transfigurar a realidade, contando o que poderia ter sido, e não o que foi. Mas, na trilogia, eu respeito os fatos costurando-os com a minha ficção. Cada livro teve sua gênese e suas pesquisas. Acho que “Um farol no pampa” foi o mais difícil de situar historicamente. Em “Travessia”, eu tinha um enredo claro na cabeça, queria narrar os dez anos em que Giuseppe e Anita Garibaldi viveram juntos. E eu usei um know-how de trabalho que desenvolvi durante estes anos todos, ou seja: em “A casa”, eu estava tateando nos meus processos criativos. Em “Travessia”, criei um método de estudo e escrita que me ajudou muito. Fazia muitos anos que não voltava ao chamado romance histórico, e descobri o quanto eu sou afim a ele. Tenho facilidade em criar usando o tecido histórico. Nas pesquisas, as surpresas são muitas – e os caminhos também. Neruda dizia: a verdade é que não há verdade. A história são versões dos fatos, e o romancista escolhe aquelas que mais lhe convêm.

Essas mulheres fortíssimas mostradas na Trilogia observavam ou faziam a História?

Elas fizeram história sim, apenas os historiadores não prestavam muita atenção nelas! Anita, no caso, é fundamental como exemplo do que hoje chamamos de empoderamento feminino, mas isso lá no século XIX. No entanto, como a história não é escrita em perspectiva, os fatos registrados da vida dela são pouquíssimos – ela era pobre, desimportante. Apenas posteriormente, já ligada a Garibaldi no contexto da Itália, foi que a História começou a prestar atenção em Anita. Não existe sequer um consenso sobre sua data de nascimento.

Anita Garibaldi seria uma precursora da mulher contemporânea, ao largar um casamento desinteressante pela paixão por um estrangeiro, que vai levá-la para outras terras, ou o arquétipo da mulher apaixonada, a quem nada importa exceto estar ao lado do amado?

Espero que eu apresente ao leitor muitas facetas de Anita. A mulher corajosa, que também é frágil, a mãe com suas angústias. Mas vejo que a paixão que ela sempre sentiu por Garibaldi foi crucial para seu destino, pois Anita morreu em fuga ao lado do marido, quando poderia ter ficado em segurança e, talvez, salvado a sua vida. Mas ela era mesmo uma criatura extraordinária, tanto que a mãe a obrigou a casar-se aos 14 anos para se livrar do que era considerado o seu “mau gênio”, e que, de fato, era a sua vontade de ser tratada em igualdade com os homens.

Em “Travessia”, Giuseppe Garibaldi tem voz, embora a de Anita esteja mais presente, até depois de sua morte. Qual foi a dificuldade – se houve – em contar essa história de amor entre uma jovem brasileira do “interior” por um homem viajado, um revolucionário? 

Eu uso o ponto de vista masculino muito em Travessia, pois o livro é a história dos dois, de Anita e Garibaldi. Eu não senti dificuldade, foi um livro que brotou de mim tão naturalmente quanto meus dedos puderam teclar. Claro, houve uma pesquisa e uma maturação desta pesquisa, e uma escolha de caminhos narrativos. Mas as personagens eram tão vivas que andavam sozinhas! Acho que Anita se manteve por mais tempo impressionada com Garibaldi. Mas ele sempre lhe foi devotado. Eles se conheceram num momento em que o italiano estava muito frágil, tinha perdido seus amigos no naufrágio, estava só. Anita viu nele a liberdade, e sempre amou a liberdade que havia em Giuseppe. Eles eram seres humanos parecidos, indomáveis. Sempre que tentavam se acalmar, misturando-se ao todo, ficaram infelizes.

 

Comentários
  • Geeeeente, necessito dessas edições! Muito amor por essa editora! <3

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