Lançamentos

“A história secreta da Mulher-Maravilha”, de Jill Lepore

Nenhum Comentário

Cláudia Lamego

“Com cem vezes a capacidade e a força dos nossos melhores atletas homens e mais fortes lutadores, ela aparece do nada para vingar injustiças ou corrigir as maldades! Bela como Afrodite; sagaz como Atena; dotada da velocidade de Mercúrio e da força de Hércules — nós a conhecemos como Mulher-Maravilha. Mas quem pode nos dizer quem ela é ou de onde veio?”

Apresentada assim, a heroína, que neste junho de 2017 ganha sua primeira versão cinematográfica solo depois de 76 anos de sua criação, surgiu nos quadrinhos da All Star Comics nº 8, atual DC Comics, em 1941, nos Estados Unidos. O Superman havia sido criado em 1938 e o Batman, no ano seguinte. Em 1942, a Mulher-Maravilha passou a ter a sua própria revista em quadrinhos, que incluía uma seção chamada “Mulheres-Maravilhas da História”, com perfis de personalidades femininas que eram destaque em suas áreas de atuação.

Criada por William Moulton Marston, o homem que inventou o detector de mentiras, fracassou nas carreiras de psicólogo, professor acadêmico e advogado e viveu com três mulheres ao mesmo tempo, secretamente, a Mulher-Maravilha é a super-heroína mais famosa de todos os tempos. Sua origem remonta à história do feminismo nos Estados Unidos. Neste livro, a historiadora de Harvard e redatora da revista New Yorker Jill Lepore refaz a trajetória da personagem e de Marston, mostrando como o movimento sufragista e feminista o influenciou na redação das histórias.

“A Mulher-Maravilha tem braceletes soldados aos pulsos; ela pode usá-los para repelir balas. Porém, se deixar algum homem soldar correntes a estes braceletes, ela perde o seu poder. Isso, segundo o Dr. Marston, é o que acontece a todas as mulheres que se submetem à dominação mascu­lina”, dizia o comunicado da revista de 1942, quando ela foi lançada.

Marston foi casado com Sadie Elizabeth Holloway, que estudou na Mount Holyoke College de South Hadley, em Massachusetts, a primeira faculdade para mulheres nos Estados Unidos. Naquela época, ela começou a estudar em 1911, universidades prestigiosas como Harvard ainda não aceitavam mulheres. Holloway e suas amigas faziam parte da Liga do Sufrágio Igualitário, que batalhava pela igualdade com os homens, o direito ao voto, à educação e ao controle de natalidade.

Olive Byrne, com quem Marston teve dois filhos, e que vivia com o casal sob o pretexto de ser uma espécie de governanta da família, era sobrinha de Margaret Sanger, ativista do controle de natalidade americana. Ethel, sua mãe, e Sanger trabalhavam para o comitê Feminino do Partido Socialista e acreditavam no amor livre. Ethel chegou a ser presa e fazer uma greve de fome na prisão por panfletar e militar pelo controle da natalidade. Olive, no entanto, num arranjo nada tradicional, acabou indo morar com Marston e se tornou responsável pela criação não só dos seus filhos com ele, mas também dos filhos de Holloway, sua mulher.

No livro, a autora mostra como a convivência com essas mulheres e a influência do movimento feminista moldaram, anos mais tarde, a história da Mulher-Maravilha. Até a origem da personagem, que morava numa ilha só de mulheres, as Amazonas que tinham vencido Hércules numa batalha, teria sido influenciada pela leitura de romances da época, como o Angel Island e o Herland, escritos pelas feministas Inez Haynes Gillmore e Charlote  Perkins Gilman, respectivamente. Ambos são ficções distópicas nas quais mulheres habitam mundos onde vivem totalmente livres dos homens.

Ao contar a vida de Marston, Lepore mostra como fatos e pessoas com quem ele conviveu, não só em casa, mas nas universidades e tribunais, foram parar nas tirinhas da Mulher-Maravilha. O livro é todo ilustrado e ainda tem um encarte colorido com os quadrinhos, as capas das revistas e os primeiros desenhos que deram origem à personagem. Para escrever essa história, Jill Lepore passou anos pesquisando em dezenas de bibliotecas, arquivos e coleções, incluindo documentos particulares de Marston.

“Foram milhares de páginas de documentos manuscritos e datilografados, fotografias e desenhos, cartas e cartões-postais, fichas criminais, anotações rabiscadas nas margens de livros, depoimentos de tribunal, prontuários médicos, memórias não publicadas, roteiros rascunhados, esboços, históricos de estudante, certidões de nascimento, documentos de adoção, registros militares, álbuns de família, álbuns de recortes, anotações para palestras, arquivos do FBI, roteiros de cinema, as minutas datilografadas dos encontros de um culto sexual e minúsculos diários escritos em código secreto”, conta a autora no primeiro capítulo do livro, que chega às livrarias em junho, pela Editora Best-Seller.

 

 

TRECHO:

 

“A Mulher-Maravilha não é apenas uma princesa amazona que usa botas fabulosas. Ela é o elo perdido numa corrente que começa com as campanhas pelo voto feminino nos anos 1910 e termina com a situação conturbada do feminismo um século mais tarde. O feminismo construiu a Mulher-Maravilha. E, depois, a Mulher-Maravilha reconstruiu o fe­minismo — o que nem sempre fez bem ao movimento. Super-heróis, que deveriam ser melhores do que todo mundo, são excelentes para dar porrada, mas péssimos para lutar por igualdade.

No entanto, a Mulher-Maravilha não é a típica personagem de gibi. Os segredos e a narrativa que este livro revela a situam não só den­tro da história dos quadrinhos e dos super-heróis, mas também no fulcro das histórias da ciência, do direito e da política. O Superman tem sua dívida com a ficção científica, o Batman, com os detetives particulares. Porém, a dívida da Mulher-Maravilha é com a utopia feminista e com a luta pelos direitos das mulheres. Suas origens estão no passado de William Moulton Marston e na vida das mulheres que ele amou — elas também criaram a Mulher-Maravilha. Ela não é a tí­pica personagem de gibi porque Marston não era um homem comum e sua família não era uma família comum. Marston era um polímata. Era um especialista em falsidade: foi o inventor do exame do detector de mentiras. Sua vida era sigilosa: ele tinha quatro filhos com duas mulheres e todos moravam juntos, sob o mesmo teto. Eram mestres na arte da dissimulação.

O esconderijo predileto deles eram os quadrinhos que produziam. Marston era pesquisador, professor e cientista; a Mulher-Maravilha começava num campus universitário, numa sala de aula e num labo­ratório. Marston era advogado e cineasta; a Mulher-Maravilha come­çava num tribunal e num cinema. As mulheres que Marston amava eram sufragistas, feministas e defensoras do controle de natalidade. A Mulher-Maravilha aparecia em uma manifestação pública, um quarto, uma clínica de controle de natalidade. O bustiê vermelho é só o co­meço. O mundo não sabia, mas Margaret Sanger, uma das figuras mais influentes do século XX, fazia parte da família Marston.

A Mulher-Maravilha vem lutando pelos direitos das mulheres há muito tempo. Lutas acirradas, mas nunca vencidas. Esta é a história de suas origens — a fonte de toda a maravilha, assim como de todas as mentiras.”

Leia aqui o primeiro capítulo do livro: Harvard tem medo da Sra. Pankhurst?

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais