Entrevistas

“Ladainha”, de Bruna Beber

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Por Maria Cecilia Brandi

A poeta Bruna Beber (Duque de Caxias, 1984) é autora de seis livros, cinco de poesia e um infantil. Nome de destaque na poesia contemporânea brasileira, teve poemas publicados em antologias e sites de vários países, como Alemanha, Argentina e México. Depois de “Rua da Padaria”, lançado em 2013, em que trabalhou com memórias da infância, agora Bruna cria um livro que, como sugere o título, é “sem tempo, sem filiação, sem pente, sem mapa”.

Em “Ladainha”, a vida é atravessada pelo sonho e pela natureza (plantei uma goiabeira / dentro do banheiro) e  o otimismo e o desencanto caminham de mãos dadas ( é sobre conseguir chegar naquilo que eu sou / E cada vez mais perto daquilo que eu sou com alegria).

Bruna mais uma vez recria o seu universo poético, em “Ladainha”, e zela por sua já admirada coloquialidade, fruto de um processo de escrita que passa muito pela escuta (áudios de alguns poemas estão no site brunabeber.com.br).

“Ladainha” chega às livrarias em junho. Os eventos de lançamento serão em São Paulo, na Tapera Taperá (20/6, 18h); e no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa de Botafogo (27/6, 19h).

“Ladainha” é o seu quinto livro de poesia, você tem poemas traduzidos para varias línguas, participa frequentemente de eventos literários, é uma voz importante na poesia contemporânea. No entanto, a relação de estranhamento com os poemas (Eu os estranho como um velho conhecido / que não chegou a ser amigo, silêncio cheio / de ilusão e mandioca madura) é sempre necessária para escrevê-los? E a desconfiança também (que o primeiro olhar seja transversal / como o das pessoas usando vassouras)?

Eu terminei de escrever Rua da Padaria em 2011, mas ele só foi publicado em 2013, assim, pude rever o livro inteiramente e até refazê-lo, por dezenas de vezes, para a publicação. De escrever até publicar, o processo durou cerca de cinco anos. Então, até 2015, quando comecei a escrever o Ladainha (lembro do dia), eu escrevi pouquíssimo ou salvei pouquíssimo. Para mim, sempre há esse hiato após publicar um livro, mas dessa vez foi maior e mais crítico. Fui me desfazendo de tudo que me chegava, estava buscando outras coisas, mais silêncio, mais solidão, não queria me aventurar pelos caminhos que já havia percorrido. Queria tentar queimar esses meus já modos de ver e fazer poesia e recomeçar (todo livro é um recomeço) largamente. Me entreguei ao mistério profundo que é escrever poesia, conceber, criar. Algo que que já vinha fazendo, é claro, mas agora com um tipo de consciência diversa. Sem armas, sem filtros, sem atalhos, tendo em mãos somente a vontade do imaginado, do por fazer, a alegria de escolher um caminho diferente. Todo novo poema que eu juntava, por exercício, eu primeiro o fazia desabar. Outros eu sucumbi à prova de afogamento, outros tentei superoxigenar. O que era automático, fui tentando desautomatizar, e passei a aceitar o desconhecido, abri tantas portas quanto pude ao inesperado. Então, esse livro, que bom, ainda é uma matéria estranha para mim, estamos criando intimidade. E eu gosto de não conseguir defini-lo de todo, gosto de sua névoa, de afundar nas camadas que quis criar. E, a cada nova leitura, acho que crescemos juntos.

“Rua da Padaria” (2013) traz memórias afetivas da infância, tanto nas imagens (a primeira ambição / um palito premiado) como na linguagem (tudo na vida vira poeirinha / fessora poeirinha em alto / mar meu pai que disse). Em “Ladainha” – que significa prece, invocação, ou enumeração enfadonha, lengalenga – não há um recorte temporal. O tempo aparece como uma mula elástica em fuga, não como uma linha fixa e continua. Escrever poesia é ressignificá-lo? A tensão e a interseção entre passado, presente e futuro é relevante no projeto de “Ladainha”?

Eu queria que “Ladainha” fosse um livro sem tempo, sem filiação, sem pente, sem mapa. Noto, nos meus primeiros livros – a fila sem fim dos demônios descontentes, balés e rapapés & apupos – uma grande quantidade de referências ao meu universo, meus gostos, minhas paixões, minha formação, a vontade de trazer o leitor para dentro das minhas músicas, dos meus autores, dos meus filmes, dos meus lugares. Ou seja, livros de juventude, para o Presente. Depois, no “Rua da Padaria”, cantei precocemente minha infância, o vivido e inventado, é um livro audaciosamente temático que me deu muito trabalho mas também infinitas alegrias e resgates. Ali eu via o íntimo abordável, eu queria pintar minha aldeia para encontrar/entender as aldeias alheias pelo mundo. Para o que me propus, vejo este trabalho com louvor. Mas era o livro para o Passado, livro de velhice precoce. No “Ladainha” eu não queria, por equilíbrio, o Futuro. Queria tentar inventar um tempo novo para os meus poemas, um tempo que, como todos os outros subtempos, não desejo nem sei definir. Sentia uma grande ambição por almejar muito pouco com a escrita, só escrever.

Em uma entrevista sobre “Rua da Padaria”, você disse que, antes de escrever, já sabia que linguagem queria usar e o que queria explorar no livro. Com Ladainha, então, também foi assim?

Quando comecei a escrever o “Ladainha”, eu sabia que não estava interessada em falar sobre o amor romântico, a paixão, a novidade, o desencontro. O amor só apareceria nos poemas se fosse por dentro, um amor mais robusto, uma conexão maior, a natureza, a essência humana ainda tão desconhecida para mim, a fé. Sabia que não queria usar nenhuma referência cultural explícita, não queria estampar meus autores, cantores, pintores, enfim, todo tipo de arte que me fez e me é cara. Não queria também geografia, lugares, ruas, trajetos. Não queria nenhuma língua que não fosse a portuguesa. Não queria batizar os poemas pois o título é uma porta para o poema e um rastro para ele. E mais um monte de nãos. Então, o que me restava? Tudo. Escrever livremente.

O livro é dividido em três seções – vidádiva, canseios e meu deos – que, assim como o título, têm duplo sentido. E os poemas, como você disse, não têm título e são ordenados por números primos (aqueles que são maiores que um e só são divisíveis por um ou por ele mesmo), que são descontínuos (2, 3, 5, 7, 11 etc). Como se deram essas escolhas?

Como não queria nomear os poemas, resolvi dar-lhes números primos, o que também não deixa de ser um nome. Números Primos foi o primeiro nome do Ladainha. Escolhi usar uma numeração infinita que, a partir de um certo tempo, não teria mais como aferir. E números primos porque a primeira impressão que tive ao começar a escrever foi que os poemas eram ilhados neles mesmos, subdivididos apenas em seu universo. Depois, comecei a perceber suas conexões internas e externas, e estabeleceu-se a “Ladainha”. O nome das seções remete à minha aventura mesclando a palavra às artes visuais. Experimentei uma série de criações desse tipo que acabei realizando na minha primeira exposição, Brinquedos Espalhados, que ficou em cartaz no Oi Futuro Ipanema em 2016, e que abarcava tudo que eu havia produzido nesse limite desde então, durante dez anos. A exposição tinha mais de cinquenta trabalhos, entre quadros, objetos, áudios, vídeos, fotos, desenhos, esculturas, livros artesanais. “Ladainha” nasceu no meio disso tudo, e germinou também a partir de um livro que fiz com um amigo, o artista plástico João Gonçalves, o Vilipendibook, inédito. Ele me deu um livro inteiro desenhado, encadernado, com mais de cem páginas, e me pediu para conclui-lo. Daí também saiu a capa, o título e muitos poemas do “Ladainha”.

Os versos de “Ladainha” muitas vezes conectam a vida cotidiana e a natureza (plantei uma goiabeira / dentro do banheiro; segredo verdadeiro / é de um só / faísca dormindo / dentro do galho; ando muito cansada dos cigarros / que eu fumo porque eles se fumam / sozinhos quando venta). Gostaria que falasse sobre essa conexão.

Sim, buscar a natureza, o elemento natural, o humano dentro do natural, o humano dentro do animal, o que há de sinônimo nisso tudo, a física, a química, o grandioso que não se mede e pouco se conhece e tampouco se compreende, aquilo que experimentamos sem esforço, aquilo tudo que é de graça chamado universo.

Há muita chuva, além de fogo, terra, madeira, dentes, vento e bichos nos poemas. A natureza e a espiritualidade aparecem como fontes de força e contrapontos importantes ao momento (do jeito que as coisas andam / áridas, sem gelo, pra trás / não vou voltar da rua / trazendo pão) que estamos vivendo no Brasil e no mundo?  Há, entre outras, esta relação?

Tenho a sensação de que hoje, todo dia, ao acordar, temos que rever a Cosmogonia. Afinal, o que separa a vida da sobrevivência? É boa a sensação de revisão que o momento sociopolítico nos impõe, e à medida que somos lançados pra trás, somos obrigados a avançar uma casa, crescer, mudar, rever discursos, posturas, limites. Não sei se tudo virou discurso ou se sempre foi assim, mas sinto que vivemos uma eterna ladainha entrecruzada, para o bem e para o mal, vide as notícias, as redes sociais, a tecnologia. Então, para não fazer uma fuga do mundo, eu quis tentar entende-lo mais pela Biologia, a História, a Astrologia, a Geopolítica. Estudar mais Economia e Psicanálise, rever antigas lições de Física e Química, fazer as pazes com a Matemática. Estudar, descobrir e concluir que a conclusão muda sempre e há pouco fundamento, no fim nada serve de muito e não há finalidade, é um círculo, então é bom que que se tente melhorar, evoluir; desencantar-se. Sou otimista, mas também desencantada, e por isso totalmente aberta à fé, ao místico, ao extranatural. Ninguém é capaz de responder o que separa o natural do sobrenatural, de garantir qualquer tipo de realidade. Por outro lado, ando um pouco cansada das velhas mitologias, da repetição do mito, mas não há como suprimi-lo pois ele diz muito sobre o fabuloso, o encanto. Então, voltei ao questionamento da criação. Universo, poesia, vida cotidiana, fronteiras, medos etc, estamos cotidianamente criando e recriando tudo, inventando nossas realidades. Acredito que o artista, realiza essa tarefa diária pelo menos duas vezes.

Seus poemas têm sofisticação, imagens oníricas e, ao mesmo tempo, humor e coloquialidade. Esta é uma combinação muito difícil, que lembra a poesia do Paulo Leminski. Você, como ele, trabalhou em agência de publicidade. Acha que essa experiência, de algum modo, ajudou a tornar coloquial a sua linguagem poética? Ou a influência da música popular foi maior?

Só hoje começo a entender a dimensão da oralidade na minha vida e na minha escrita e, como o popular é vastíssimo, nunca vou saber catalogá-lo, nem saber como circular por ele com todo cuidado e atenção. Então me dobro. Minhas avós e o Mario de Andrade me ensinaram isso. Sem ouvido não há boca. Sem boca não há ouvido. Gosto dessa via de mão dupla, mas sou uma pessoa predominantemente da escuta, uma aprendiz. A publicidade é uma experiência horrível mas que, na época, me ajudou a sobreviver e, de certa forma, me deu ferramentas. Ela é uma porta falsa, o calabouço e a mola do capitalismo, é difícil não renegá-la e fácil compreender sua sedução. O ser humano é seduzível. O natural é sedutor, o sobrenatural também, então, sedução é linguagem e sedução na linguagem é perfeitamente humano. E o coloquial, sim, sempre, é como nos comunicamos com os deuses e deusas, com nós mesmos, com as pedras e as lesmas, as plantas e os animais, é um jeito afetuoso e torto de reverenciar e reconhecer a merdinha que somos. A busca na voz, no som. A música, pra mim, é um tipo superior de conexão e comunicação, e a música é também parte essencial da minha atividade poética, de onde surge grande parte das minhas obsessões de cabeceira na escrita. Há muitas músicas que iluminaram meu espírito e o meu coração enquanto compunha o “Ladainha” e as dividi em playlists. Fiz uma playlist para o livro, outra para a casa onde morava na época, a Tabacarícia, onde escrevi grande parte do livro, outra para ouvir na estrada quando pensava no livro, outras para os orixás que me conduziram por entre esses caminhos (estão no Spotify). Foi uma forma que encontrei de agradecer, levantar o chapéu e seguir.

Alguns poemas seus foram musicados. De outros, ouvi a sua leitura. Sempre lê os poemas que escreve em voz alta? Fale um pouco mais sobre a importância da oralidade para você.

O meu processo de escrita passa pela escuta. Sempre gravei tudo que escrevi e depois joguei fora. O ouvido é uma ferramenta de edição para mim. Sempre gostei de ouvir poesia e ultimamente estou ainda mais disciplinada. Acho que de tanto ouvir o que escrevo passei a fazer música. Consigo musicar um poema de ouvido, cantando, mas sempre preciso da ajuda de um músico ao final. Foi assim com alguns desses que foram gravados. Foi assim com vários poemas ameríndios, que dificilmente consigo ler sem ser em voz alta e sem cantá-lo. Para alguns, tenho várias músicas diferentes. No “Ladainha”,  a novidade é que não joguei esses áudios fora, pelo menos não todos. O processo eu ocultei – afinal gravei cada poema do livro pelo menos cinco vezes – mas o resultado semifinal coloquei no meu site, brunabeber.com.br/portfolio/ladainha . Hoje estão lá oito poemas, sem finalização, com barulho de papel e muita tosse, e ainda há nove inéditos guardados. Também gravei poemas num estúdio. Mas quero brincar muito ainda com essas gravações, misturar gente, regravar e, quem sabe, um dia, fazer um disco do Ladainha.

Uma vez você disse que gosta de brincar com as palavras. “Ladainha” tem “lentilhamente”, “uma TV a flores”, “um poema sisal”. Você se diverte escrevendo?

Me divirto muito mas também sofro, é difícil atrelar somente um sentimento a qualquer coisa. Mas, na maior parte do tempo, escrever é um trabalho e um lazer, que me dá muito prazer mas também dor. É um processo difícil de explicar, não sei de onde vem nem pra onde vai, gosto de não ter esse domínio, mas praticar o descontrole na escrita é um desafio pois, em dados momentos, entra a técnica, o ouvido, e a faca do ouvido é afiada. De todo modo, me vejo um feto diante das palavras, estou sempre me deslumbrando, me maravilhando com elas. Acho que escrever é isso, descoberta, exercício, recomeço.

Pois é, “Ladainha” também fala da dor, do choro, da morte, das estranhezas. Isso coexiste com o cultivo do otimismo? Pergunto pensando, por exemplo, nos versos (…) é sobre conseguir chegar naquilo que eu sou / E cada vez mais perto daquilo que eu sou com alegria

Sim, é um jeito de tentar crescer, de perder o medo da morte, de continuar vivendo.

Ladainha” me faz lembrar desse trecho que escreveu Octavio Paz: “A atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. (…) Prece ao vazio, diálogo com a ausência: o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, ladainha, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente.” Você se reconhece nele? O que alimenta a sua poesia?

Totalmente. Acho que ele resume as minhas repostas nesta entrevista, responde à minha busca. Mas sempre há mais a descobrir como, por exemplo, o que alimenta a minha poesia. Hoje, não sei te responder isso. Ainda bem.

A última estrofe do último poema do livro diz: A cabeça suja é boa para as coisas / que fazemos em cima dos castanheiros / por exemplo nada, e também um poema. É preciso se isolar para escrever um poema? Como é a escrita poética no seu dia a dia?

Não consigo escrever se não estiver isolada. Não consigo, por exemplo, escrever num café, num parque. Só preciso de um pouco de vento e de sol, que não me faltam na casa onde vivo hoje. Mas gosto de escrever em movimento, de pegar a estrada de ônibus, sentar numa janela sem companhia e escrever até chegar ao destino. Tirando isso, preciso de um canto, sempre o mesmo, o meu, a mesa que me aguarda todos os dias de manhã. E sempre de manhã, quanto mais cedo melhor, ou então no fim do dia. Gosto da sensação confusa e angustiante e ao mesmo tempo tranquilizante do cair da tarde, suas luzes, a mudança do vento, a luz artificial se erguendo nos postes. Raríssimamente escrevo de noite, mas quando escrevo, gosto, sinto as almas se aventurando no escuro. Até os 28 anos varei madrugadas escrevendo, hoje em dia é impossível, prefiro dormir e acordar cedo. Anoto muita coisa, tenho centenas de cadernos e papéis sem ordem onde guardo as iminências. E não tenho nenhum amor por eles, tiro o que me interessa, organizo metodicamente, e depois jogo fora. Me incomoda muito a ideia de que alguém possa vir aqui em casa e, como quem não quer nada, e ler minhas anotações. Não consigo entender o fascínio pelo processo do escritor, sua intimidade criativa, sua privacidade cotidiana na lida com o texto. Isso me soa como invasão. Documento é o que o escritor publica, o resto é bisbilhotagem.

 

 

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