Entrevistas

“Nunca houve tanto fim como agora”, de Evandro Affonso Ferreira

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Por Nelson Vasconcelos

Com oito romances publicados entre 2002 e 2016, Evandro Affonso Ferreira recebeu dois dos mais importantes prêmios literários do país. Uma proeza. O primeiro foi o Prêmio APCA, em 2010, com “Minha mãe se matou sem dizer adeus” – título deveras instigante. Em 2013 ganhou o Jabuti por “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, em que o narrador decide viver na rua depois que é abandonado pela mulher. Não menos instigante.

É com esse currículo que Evandro Affonso lança agora seu nono romance, “Nunca houve tanto fim como agora”. Na sua prosa peculiar, trata do povo das ruas, do submundo das calçadas, da convivência entre merdunchos com seus ranhos e remelas, a violência do dia a dia grande cidade. No fim das contas, trata de todos nós. É livro que cutuca as feridas e, por isso mesmo, provoca reflexão. O trato com a linguagem, por sua vez, provoca a sensibilidade do leitor – que, página por página, é conduzido ao final sem dó nem piedade.

Nesta entrevista, Evandro Affonso conta que somente a literatura interessa a ele – como diria Kafka. Mas ele diz também que sabe que o mundo está ali ao lado – o que casa perfeitamente com suas histórias, que resultaram em outros títulos instigantes, como “Os piores dias da minha vida foram todos” e “Não tive nenhum prazer em conhecê-los”.

Crítico, ele também não deixa de fazer uma curiosa consideração a respeito de prêmios literários.

 

“Nunca houve tanto fim como agora” é um título com um pé no pessimismo – como, aliás, os de seus últimos romances. Evandro Affonso Ferreira é um sujeito pessimista? 

Me considero (se é possível o autor conhecer o próprio autor e a própria obra) um niilista lírico.

 

Podemos ser otimistas em relação ao futuro da literatura? E do Brasil?  

Não penso sobre o futuro, sobre o Brasil, sobre o amanhã: num embate permanente com a palavra – tudo o que não é literatura não me interessa (diria Kafka). Costumo dizer que não sou tão alienado como pensam: sei que o mundo está a duas quadras daqui.

 

A propósito: há quem incorpore um personagem-escritor que não necessariamente corresponda ao seu modo de ver o mundo. Seria o seu caso? 

O que eu escrevo é o que eu sinto. Falo sempre da solidão, da velhice, do abandono, do suicídio e cousa e lousa.

 

“Nunca houve…” é crítico, forte, bate na desigualdade, provoca reflexões sobre a vida das ruas. Em muitos momentos, lembra João Antônio, por exemplo. Me diga cinco nomes que fizeram sua cabeça na área de literatura.

A literatura, a alta literatura, fez minha cabeça. Não gosto dessas listas, mas, para não ser indelicado: Bruno Schulz, Robert Musil, Lúcio Cardoso, Hilda Hilst, Hermann Broch, etc etc etc

 

Que nomes fazem sua cabeça na literatura produzida hoje?

Sou velho, rabugento, chato, insuportável, leio nada novo há muito tempo (depois de velho o negócio é reler, reler, reler).

 

São nove romances publicados após dois livros de contos de 1996 e 2000. Você ainda escreve contos? Sua produtividade parece alta. 

Só escrevo pequenos romances. Escrevo todo santo dia: sou aposentado, não faço nada na vida, sim, escrevo, escrevo todo santo dia. Não sou prolixo: fico um ano e meio para escrever livrinho de 120 páginas.

 

Dois de seus romances ganharam os prêmios literários mais importantes do país. Essa distinção chega a ser um peso? 

Prêmio é bom quando tem dinheiro – para mim nunca houve. Geralmente ganho prêmios que não dão dinheiro – logo, tapinhas nas costas, nada mais.

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