Entrevistas

“Pequenos reparos”, de Omar Salomão

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Por Maria Cecilia Brandi

Omar Salomão (Rio de Janeiro, 1983), poeta e artista plástico, está lançando “Pequenos reparos” (José Olympio), seu terceiro livro, em que os poemas se relacionam a manuscritos, fragmentos, desenhos e fotografias. “As narrativas vão se entremeando, a poesia pode ir além do verso”, ele diz. Omar já participou de diversas antologias poéticas e realizou exposições de artes plásticas, sempre interessado na visualidade e na mistura da palavra à imagem.

Camadas de sujeira, rasuras e manchas aparecem em “Pequenos Reparos” como conteúdo poético, que abre espaços na escrita. O processo também é criação e há uma delicadeza na maneira como Omar os costura, atravessado pela experiência que teve de viver em residência artística numa ilha, Itaparica, onde o livro foi em parte disparado, e por tê-lo escrito também em São Paulo, onde morou. O livro fala do caminhar / sobre destroços e tesouros / (como se fosse possível diferenciar). Fala de movimentos que não prevemos: eu paro sobre o cais / minha sombra / dança / sobre as ondas. E tem também humor, por exemplo, num poema sobre o poeta que precisa achar suas chaves.

“Pequenos Reparos” chega às livrarias em julho, pela José Olympio.

 “Pequenos reparos” é composto de poemas, mas também de desenhos, fotos e manuscritos que parecem relacionar-se com os poemas, mais do que ilustrá-los. O caráter híbrido do seu livro novo, assim como do anterior, “Impreciso”, busca uma espécie de expansão de sentidos? Também de deslocamento do lugar da poesia?

Sinto necessidade de criar atravessando outras áreas, outras artes. Não fico feliz em me encontrar confinado num ramo, como um especialista que vai trabalhando a mesma coisa detalhadamente. Acho que os atravessamentos são bons até para respirar, sair da autorreferência do meio. Comecei a trabalhar a visualidade no “Impreciso”. Ia lançá-lo como um livro “normal”, depois desisti e fui retomá-lo fazendo desenhos, dialogando com fotos que, de fato, não são descritivos, mas se relacionam, criam camadas, abrem portas. O Tunga disse numa entrevista: “ruim é quando a obra não abre porta a lugar nenhum. E há quem se satisfaça com uma porta só.” Tem que abrir portas. São essas relações que me interessam porque fazem com que fuja ainda mais do meu controle a maneira como uma pessoa pode relacionar o desenho, as palavras e o poema. Acho que a relação texto e imagem gera um pensamento do livro como um todo, e gosto desse sentido, do livro não como uma seleta de poemas, mas como um conjunto de narrativas e fragmentos que vão se entremeando. Por isso o livro abre, e depois finaliza, com frase do Kazuo Ohno. É uma frase delicada (Um peixe vem entrando. Tudo se revolve porque entra um peixe. Essa é a única mudança.), um mínimo, um peixe que quase não interfere, mas movimenta a água e o olhar. É o momento em que você abre uma brecha e o livro pode estar nessa brecha, pode ter um Big Bang ali dentro. Naquele instante. Do momento em que abri essa porta de ir além da palavra já tipografada, e passei eu mesmo a curtir a letra, o manual, o desenho, a foto, despertou em mim um fôlego, uma vontade outra. Eu gosto da mistura.

Inclusive há uma imagem (pg. 17) com a palavra poesia e, sobre ela, várias setas de duas pontas que apontam para as palavras camadas, instalação, música, foto, desenho, fragmento, rasura, prosa e objeto. Tudo isso é poesia? A ideia de mistura me lembra também uma entrevista em que Waly Salomão, seu pai, disse que o poeta não pode ficar se lamentando como se o seu espaço fosse estreito, sem nem tentar um amancebamento ou um casamento com outras áreas.

 É a minha escola, aprendi a pensar dessa forma. Pra mim tudo isso é poesia. É uma ideia de poesia que vai além dos versos. Uma guia. Me interessam as manchas, infiltrações, rasuras como conteúdo poético que eu não controlo. Há um poema em que escrevo EU, depois tem uma letra rasurada (ou o que seria uma letra) e depois OU. Pode-se ler EU OU, EU SOU, EU VOU, ou EU sei-lá-o-quê-OU. Mas o EU OU é uma transformação, é a ideia de um contínuo transformado. Acho que isso inclusive me levou a fazer poemas mais fragmentados. Quando penso na leitura do livro como uma experiência, um fluxo, mais do que nos poemas isoladamente, acabo tendo uma liberdade de colocar fragmentos, frases soltas, sussurros, enxertar ideias que vão se desenvolver ao longo do livro, quase como um filme. É uma montagem.

No texto de abertura da sua exposição “O que pensei até agora e o que ainda falta pensar”, o crítico Frederico Coelho diz que “O transitório aqui é a própria condição de nossas vidas”. A transitoriedade também me parece relevante em “Pequenos reparos”, não? Nos versos e na sua busca por (paradoxalmente) preservar poeira, manchas, rasuras, borrões, processos de transição. Esse é um conceito central na sua obra?

 Entendo o poeta como alguém que está o tempo todo sendo poeta, o olhar está desperto o tempo inteiro, observando. Meus textos são muitas vezes feitos em trânsito, em movimento, em deslocamentos. Acho importantes essas camadas de sujeira, poeira, no meu processo de criação. Os meus cadernos acumulam essas poeiras do tempo, manchas de café, de caneta, de água, de álcool, e isso vai distorcendo e esburacando a escrita, abrindo espaços. Processos delicados, frágeis e agressivos. A tinta atravessa as páginas. Escreve e apaga. Altera. Eu queria tentar trazer isso para dentro porque isso também é criação. Uma parte desse livro foi disparada por uma experiência que tive em 2014, que foi a 3a Bienal de Arte da Bahia. Fiquei dois meses em uma residência artística em Itaparica, chamada Sacatar, produzindo. Tinha a questão de estar numa ilha, ter que ir a Salvador quase diariamente, se deslocar no mar para outro espaço, e é incrível como na ilha você tem outra relação com a natureza e com o tempo. De uma semana para outra mudam os sons, mudam os animais, muda a maré. Às vezes não dá pra sair porque a maré não deixa, tem que esperar. Havia esses impedimentos naturais difíceis de aceitar. Você é influenciado por esses movimentos. Essa relação do tempo e da água foi muito forte pra mim. O Rogério Duarte numa entrevista fala “hoje eu percebo que não é eu, que não há eu, o que há é o tempo”. E quando você se relaciona com o tempo de forma que não consegue controlá-lo, você tem que aprender a se movimentar com ele.

O mar é mesmo muito presente no livro. Os poemas têm também pegadas no cimento duro, cacos de vidro, prédios que crescem e se acumulam feito os livros que você ainda não leu. Mas o que se destaca é a natureza (rios, chuva, pássaros, terra, areia) e, sobretudo, o mar (meu reino é rocha / esculpida a grito pelo mar). Antes da temporada em Itaparica, já era muito ligado ao mar (que está no seu nome, inclusive)? Lembro do Antonio Cicero contar que escreveu o poema Eco (do livro “Guardar”, 1996), sobre um surfista, depois de ir à praia com Waly e encontrarem com você, adolescente, pegando onda.

Cresci em bairros com praia, tanto no Rio quanto em Salvador. Nunca fui surfista, é uma criação do Cicero, mas cresci com o horizonte em vista. No concreto e no mar. E, ao mesmo tempo, pensando agora, um pedaço significativo de Pequenos Reparos foi escrito nos quase cinco anos em que morei em São Paulo, num período em que eu não tinha o mar e ele, curiosamente, retornou com força. Tem num poema: São Paulo me esmaga/que sentido teria/se não o fizesse?. É a lógica da própria cidade, uma cidade com muita coisa, muita pressão, objetiva, e que faz parte ser assim. Quando você sai de São Paulo para um lugar onde há uma presença do fluxo das luas e da maré, e você não consegue exercer essa pressão sobre a vida que São Paulo impõe, tem que se dobrar à pressão do mar. O mar dobra você. Não se trata de aceitar, mas de sentir. Transformar.

Como você escolheu o título, “Pequenos Reparos”? A foto da capa faz parte de uma série sua de fotos de tapumes?

Acho muito interessante o tapume, que é quase uma espécie de casulo. Ele é um espaço provisório, está ali para disfarçar e, quando for retirado, vai haver uma transformação por trás. Uma cidade coberta de tapumes é o tempo todo interrompida. E, inconscientemente, porque como são transitórios não importam muito, os tapumes às vezes formam combinações fantásticas de cores, formatos, combinações com outros elementos, portas, árvores, justamente por não terem sido pensados.

O título veio de uma placa que vi na Avenida Paulista, dizia: “Limpeza de fachada e outros pequenos reparos”. Por um tempo, pensei em usar a frase inteira como título. A foto eu tirei depois, andando na praia. Pensei logo que tinha que ser a capa do livro porque ela remete a tudo. Tem o mar ao fundo, tem a intervenção, como se estivessem fazendo uma obra na praia. E tem o horizonte, tentando surgir apesar do bloqueio. As pegadas na areia. O tapume vai se adaptando à obra, fica lá alguns momentos, e às vezes são momentos marcantes. Tirei a foto com o celular e, quando voltei com a câmera, já não estava mais lá.

Pequenos reparos são coisas que em que você repara e às vezes não repara. A quina, a infiltração no teto, você pode passar batido, ficar olhando ou achar ruim e querer consertar. Pequenos reparos tem a ver com conserto e também com notar, observar.

A imagem no início do livro parece uma impressão digital e também parece um redemoinho, que é o ar empoeirado em espiral, sem ventos e quente. Essa definição me lembra um certo estado (de impossível horizonte), que os seus poemas descrevem e a partir do qual se desenlaçam. Essa relação lhe parece possível? Como se deu a escolha dessa imagem?

É um desenho que fiz em Itaparica, em um caderno. A imagem traz a sensação da água se movendo, de um pequeno distúrbio na água que faz ondas e que pode ser um vórtice e também pode ser uma impressão digital, mas que quase não se deixa fixar. A Louise Bourgeois tem uma frase bonita, em que ela diz que a espiral é uma forma de organizar o caos, é completamente contínua, uma forma de desorientação. Acho que tem a ver. Tem uma previsibilidade no caminho, mas ao mesmo tempo é desnorteante, é um caminho que tonteia, sem norte. Tento colocar no livro um pouco desse contínuo. Talvez um retornar aturdido.

Seus poemas são bastante visuais e as imagens, muitas vezes, acompanham  manuscritos. No seu processo de criação, escrever, fotografar e desenhar são atividades paralelas? Ou uma se desenvolve a partir da outra?

As atividades acontecem concomitantemente. Às vezes resolvo escrever algo e começo a desenhar. As ideias vão se cruzando e a escrita, a foto, o desenho, são meios de encontrar as ideias, as vontades. O texto é uma imagem e a imagem, claro, são textos. Tento não fazer uma distinção. O verso da capa do livro tem o desenho de um tigre (ou algo parecido) que vai se transformando em uma montanha, em um poema, e escrevo como se fosse a fera, que era pedra. Esse verso da capa é quase um prólogo pra essas transformações de que trato. Alguns escritos, sim, se fazem em desenhos, assim como alguns desenhos se costuram em escritos, mas não tem nenhum método coordenado. E nem sei se gosto de integrar objetivamente. Às vezes é depois que eles se unem ou se relacionam. Inclusive, para encontrar essa organicidade fui deixando de lado os títulos dos poemas, pois os títulos fecham um compartimento e eu precisava abrir, não queria cercar o espaço.

Por vezes os poemas apontam movimentos que parecem acontecer independente de nós. Fluxos naturais, nem por isso fáceis. Penso em versos como eu paro sobre o cais / minha sombra / dança / sobre as ondas e o vento abrindo a porta / que fechei). Os poemas parecem abrir espaços para falar da direção de um barco sem leme (ou, como diria Drummond, da pedra no meio do caminho). Tem a ver com uma ideia de registrar os deslocamentos e, de novo, o transitório? De falar não só da luz, mas da poeira flutuando / no feixe de luz?

 Legal isso, tem a ver com a imprevisibilidade, com tudo que a gente não controla. Mesmo parado, continuar em movimento. E geralmente é o contrário, o vento bate as portas. Essa relação com as infiltrações, as manchas, a poeira tem a ver com isso. Em vez de lutar contra as imprecisões, talvez observar. Observar até que ponto há um domínio e olhar a partir daí, de quando a gente perde um pouco o que acontece com nosso corpo, o que acontece com o nosso olhar, quando as coisas continuam. Talvez seja também isso a rasura, o que fica ressoando na pessoa, o que traz de cada um, o que fica flutuando na luz. Acho que tem uma vontade também de relação com a cultura japonesa. Num livro lindo do Junichiro Tanizaki, “Elogio da sombra”, ele fala da relação da cultura oriental com o papel e com a luz e a penumbra. O papel japonês é translúcido, a luz o atravessa. A sombra e a penumbra rompem com a ideia de se ver absolutamente tudo, escondem algumas coisas mas revelam outras. Tornam as coisas indiscerníveis, tendo que ser decifradas. Misteriosas. Quando há um lusco-fusco que você não enxerga bem e também enxerga coisas que não estão ali, se faz um processo de criação, e de calma por não enxergar tudo. Talvez tenha a ver com o fato de eu ser míope e andar muito sem óculos. É como se estivéssemos completando a realidade o tempo inteiro, criando outra perspectiva, outro campo de visão, das luzes em vez dos detalhes. Busco tentar manter e entender as imperfeições, que constroem narrativas e espaços próprios.

Suas frases manuscritas Todas as coisas significam outras coisas, Opiniões podem mudar e, ao lado desta última, o desenho da cadeira de pernas bambas, me lembraram a frase do poeta francês Paul Valéry, que disse “Eu não sou sempre da minha opinião”. Os sentidos múltiplos das coisas parecem estar no correr do tempo, mas também nas relações, inclusive com cada leitor. As frases isoladas e os trechos que você deixa riscados, por exemplo, são também estímulos à imaginação ou à participação do leitor?

Essa frase é ótima. Tem uma outra do Borges, respondendo a um entrevistador que quer saber se ele tem a mesma opinião a respeito de um texto crítico escrito trinta ou quarenta anos antes, se usaria os mesmos conceitos, e Borges responde que não, nem lembra o que escreveu antes, mas que se usasse os mesmos conceitos acharia isso muito triste. Significaria que ele não mudou. Às vezes, podemos reler um livro que foi importante, vários anos depois, parar numa frase sublinhada e querer sublinhá-la outra vez, certamente, acredito, será por outro motivo. Continuamos gostando dela, mas é outra frase, porque você é outro leitor. Tem que permitir essa transformação. Gosto da ideia de criar um pequeno acontecimento, em que o outro pode intervir ou não. Acho que naturalmente se reflete sobre essas coisas e intervém justamente porque há buracos no caminho, buracos que não impedem você de seguir, mas que podem ser preenchidos, ou não. São portas. Como a foto de um livro com uma frase que eu deixo toda rasurada e vem seguida de “disse, mas em seguida me arrependi”. Você pode entrar nessa imagem de várias formas, dependendo do momento pode fazer uma relação particular. Minha vontade é que o livro possa ir mudando a cada leitura, junto com o amarelar das páginas. O Octavio Paz diz (sobre Um lance de dados, do Mallarmé) que não há interpretação final sobre o poema, porque a última palavra do poeta não é uma palavra final.

Você já compôs e teve banda. Há um verso (ou fragmento) no livro que diz: poemas para melodias. A música é presente em seu trabalho hoje?

 A música está inevitavelmente presente. Quando eu tive a banda, eu falava poemas, durante a música, quase como se fosse um solo de guitarra, uma interferência, e tinha que ter um ritmo de leitura. Acho que esse ritmo está no livro também. Tem a ideia de manter uma batida, o pulso, uma compulsão rítmica. A relação com a música e com a fala e a leitura dos poemas me levaram por esse caminho, de tentar captar um fluxo. E tem poemas que tenho que ajustar pra que caibam nas melodias musicais. Volta e meia estou metido em projetos que dialogam com a música. Recentemente teve o Livre Reino Aéreo do Devaneio, em que eu e a Bruna Beber lemos uma costura de poemas acompanhados pelo Daniel Castanheira fazendo intervenções sonoras e por projeções de Elisa Mendes. Com o Daniel, tem também uma leitura-performance, Códices, com livros ligados a sensores que quando fechados disparam sons. E um projeto eternamente adiado de um disco com Rodrigo Cascardo, que chamamos carinhosamente de Em Breve.

Há um poema em que todos os versos começam com eu vejo, seguindo por imagens poéticas ( eu vejo o cansaço / os anúncios coloridos / o relógio de design que nunca funcionou direito / o piano calado / um pedaço de casca de ovo do café da manhã etc) que dialogam com os temas do livro. E termina com um verso surpreendente: só não vejo a porra das minhas chaves! O poeta às vezes precisa não ser poeta? Qual o espaço da escrita poética e das artes no seu dia a dia?

Pode ser um poeta bucólico vendo as coisas, mas precisando das chaves. Mas eu acho que é o contrário, a vida está sempre tentando tirar a gente da poesia, mas o poeta quer ficar sonhando. Baudelaire tem o poema A sopa e as nuvens, que fala do mercador de nuvens, que quer ficar sonhando. Drummond também trabalha essa ideia no Sentimental, da sopa de letras. Eu acho que a gente tinha que ser mais poeta, sonhar, observar. A rotina vai sempre ter urgências. E esse respirar e se perder é importante. Entramos num automatismo tão facilmente, às vezes voltando para casa sem nem saber o caminho que fez para chegar em casa. Tudo se torna hábito. O olhar se torna hábito. E às vezes é bom se perder e andar por outros caminhos, mesmo enquanto se procura as chaves.Sempre tenho comigo papel, lápis e o celular onde armazeno escritos e imagens num aplicativo que fica sincronizado com o computador. Vou escrevendo e reescrevendo de um caderno pra outro, pro celular, pro computador. Não tenho uma disciplina de horário, mas a qualquer momento a poesia pode me ocupar.

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