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Eduardo Spohr entrevista Bernard Cornwell

22 Comentários

Por Eduardo Spohr

Conheci o trabalho de Bernard Cornwell em 2004, por intermédio do ilustrador Andrés Ramos (que trabalhou comigo em “Filhos do Éden: Universo Expandido”) e do Deive Pazos (o Azaghal do site Jovem Nerd). Ambos me recomendaram fervorosamente “O Rei do Inverno”, primeiro romance da trilogia “Crônicas de Artur”, publicada no Brasil pela editora Record.

De cara, o que me impressionou em “O Rei do Inverno” foi a capa, brilhantemente produzida pelo estúdio do designer Marcelo Martinez – ela era diferente de tudo, diferente dos livros de fantasia comuns e diferente também dos romances históricos, apresentando uma sobriedade que atraía os leitores adultos. Uma obra de arte, sem dúvida, que me chamou muito a atenção e atiçou a minha curiosidade.

Então, comecei a ler, meio cético, e me fascinei pela maneira como Bernard Cornwell mesclava não só realidade e ficção como realidade e fantasia. O mundo mágico da Grã-Bretanha de Artur é um cenário verossímil para nós, mesmo com seus artefatos encantados, espadas de poder, bruxas, magos e feiticeiros. E a escrita de Cornwell era (ainda é, claro) um espetáculo à parte, uma alternativa ao estilo dos romancistas históricos tradicionais, como James Clavell e Ken Follet (de quem também sou fã, a propósito).

Foi com entusiasmo, portanto, que aceitei o convite da Claudia Lamego e da Raquel Araujo, assessoras de imprensa do Grupo Editorial Record, para entrevistar esse grande escritor britânico, sobre quem aliás já gravamos um NerdCast, no longínquo ano de 2006. Eram muitas as perguntas e eu, obviamente, tive que selecioná-las. Tentei abordar temas que me pareciam interessantes ao leitor brasileiro. Falamos sobre inspirações literárias, rotina de trabalho, conversamos sobre religião, processo de pesquisa e sobre o seriado de TV “The Last Kingdom”, baseado em “Crônicas Saxônicas”. E como um bom nerd, eu não podia deixar de perguntar qual é a classe de RPG favorita dele. Confiram as respostas no texto abaixo.

Eduardo Spohr: Uma pergunta que os jornalistas devem lhe fazer com frequência é sobre os autores que serviram de inspiração para o seu trabalho. Mas o que eu realmente gostaria de saber é quais foram os livros que te encantaram quando você era criança. Quais romances e escritores fizeram o jovem Bernard Cornwell gostar de ler?

Bernard Cornwell: Eu fui criado em uma família muito religiosa, devota a uma seita que não era particularmente agradável. Chamava-se “The Peculiar People” (é sério!) e eles eram evangélicos protestantes fundamentalistas que desconfiavam muito da ficção. Eu lembro de ter recebido deles uma série de romances muito chatos sobre um missionário – tais romances não me impressionaram, mas, então, eu descobri a saga “Hornblower”, de C.S. Forester, e fiquei alucinado! Depois disso eu comecei a ler todos os livros históricos que caíam nas minhas mãos. Estranhamente, muitos anos depois, quando conheci minha mãe biológica, descobri que se havia uma coisa que ela lia com paixão eram romances históricos!

Você já disse em entrevistas que não acredita em inspiração, e eu concordo totalmente. Como escritor, percebo que uma das grandes curiosidades dos leitores é saber como é o nosso dia a dia. Então, eu lhe pergunto: como é um típico dia de trabalho na vida de Bernard Cornwell? Você levanta cedo? Dorme tarde? Costuma escrever quantas horas por dia? Prefere escrever continuamente ou faz algumas pausas estratégicas?

Oh, uau, “Meu Dia Entediante por Bernard Cornwell”. Eu acordo cedo, muito cedo. Normalmente estou na minha mesa de trabalho entre 4h30 e 5h da manhã, no máximo. Bebo muito café! E eu leio o New York Times online. Às vezes dou uma olhada no site da BBC News em busca de algum resultado de esportes que o NYT não cobre (como críquete e rugby). Bebo mais café. Começo a trabalhar entre 5h30 e 6h. Olhar fixo no teto. Faço mais café. Em algum momento eu realmente escrevo alguma coisa, talvez. Por volta das 7 da manhã, enquanto minha esposa pratica yoga, eu tomo meu café da manhã. Cereal e iogurte e é isso. Depois, levo o meu cachorro para uma longa caminhada. Ele é um cão pequeno, da raça Cavalier King Charles Spaniel, chamado Whiskey. Normalmente passeamos por uns 40 minutos. Whiskey é uma criatura muito bonita e comportada (na maior parte do tempo) e eu gosto da caminhada porque o Whiskey um é um imã de garotas. Volto para casa. Mais café, mais trabalho. Olhar o teto. Almoço. Faço um sanduíche. À tarde é a mesma coisa, exceto pelo fato de que eu levo o Whiskey para um parque e jogo uma bola para ele, brincadeira na qual ele é viciado. Mais garotas. Olho para o teto até cerca de 17h30. Então pergunto à minha esposa se ela teve um bom dia. Dou comida para o Whiskey. E bebo um uísque. Jantar. Talvez um filme? Talvez ver os amigos? Levar Whiskey para sua última caminhada. Dormir por volta de 22h30. E é isso!! Nada muito emocionante. Em algum lugar no meio de tudo isso os livros são escritos, mas frequentemente eu me pergunto como!

 No prefácio de “Gai-Jin”, o nosso colega James Clavell responde os críticos que apontaram “erros históricos” no best-seller “Shōgun”, dizendo que, às vezes, nem os próprios historiadores sabem de fato o que aconteceu. Como escritor de romances históricos, você já foi alvo de críticas semelhantes? Se sim, como reage a elas? Como saber a hora de, no curso de uma narrativa, separar a história da “estória”.

Ah, com certeza já fui acusado de imprecisão! Fiz nevar na Grã-Bretanha do rei Artur e fui insultado por isso! Bem, como eu respondo? Se uma pessoa que aponta um deslize meu for educada, ou até bem humorada, eu respondo da mesma maneira. Fiz alguns amigos desta forma. Mas se eles são rudes ou falsos, então ou eu os ignoro ou respondo friamente. Isso não acontece muito. Mas eu continuo dizendo às pessoas que eu não sou um historiador! Eu sou um contador de histórias. Meu trabalho é simples assim: contar histórias e estas histórias são de ficção. Por trás de uma história fictícia, existe um contexto real. E eu tento permanecer fiel a isto. Mas, no final, a trama é mais importante. Por exemplo, em “A Companhia de Sharpe” o herói faz parte do ataque em Badajoz em 1812. Foi uma horrível noite de matança. Os britânicos atacaram as trincheiras, mas não conseguiram tomá-las. Em vez disso, um ataque ao castelo que pretendia apenas desviar a atenção teve surpreendente sucesso. Mas o grande drama da noite, todo o horror, estava nas trincheiras, então foi onde eu coloquei Sharpe. E Sharpe é o herói do livro, então se ele ataca uma trincheira, ele vence! Eu inventei isso. Não teve precisão histórica, mas foi melhor para a trama. De qualquer maneira, sempre tento confessar meus pecados na parte de “Notas Históricas” para que o leitor não seja enganado pelas minhas invenções.

 Uhtred, o protagonista de “Crônicas Saxônicas”, é um homem dividido entre duas culturas. Muitos dos seus leitores com os quais conversei gostam das críticas que você faz ao cristianismo, mas eu, pessoalmente, acredito que as críticas não são direcionadas à religião, mas ao uso que algumas pessoas fazem dela. Hoje, qual é a sua relação com a religião e o que pensa sobre ela? Quais os benefícios e / ou os malefícios que você acha que a religião pode trazer ao mundo?

Eu acho que você está certo. Mas, dito isso, eu confesso que sou ateu. Às vezes meus amigos cristãos (sim, eu tenho muitos e eu sou muito bem casado há quase 40 anos com uma cristã devota) não conseguem entender a paz de espírito que o ateísmo pode trazer, mas isso me satisfaz. Eu admiro o bem que as religiões encorajam os fiéis a fazerem, embora não acredite que este impulso religioso seja a fonte de toda a moralidade. E eu invejo as pessoas que acreditam verdadeiramente que exista um poder sobrenatural que possa ter a capacidade de resolver todos os nossos problemas. (então, porque diabos Ele/Ela não faz isso?) E eu gostaria de crer na vida eterna, mas eu simplesmente acho isso impossível de acreditar! O que eu detesto é a crueldade que a religião incita. A religião não tem o monopólio da crueldade, assim como não tem da moral, mas eu percebo que essas criaturas malignas que matam indiscriminadamente homens e mulheres afirmam fazer isso por Deus. Bem, danem-se eles e suas crenças! Os mais perigosos são aqueles “verdadeiros crentes” que pensam que existe apenas um Deus, apenas uma religião, apenas uma maneira de viver e que isso justifica seu comportamento absurdo.

“As Aventuras de Sharpe” foi adaptado para a televisão inicialmente nos anos 90. Agora é a vez de “Crônicas Saxônicas” chegar à TV sob o nome de “The Last Kingdom”. Estou assistindo e gostando muito, pois a série de TV está me ajudando com referências visuais que eu uso durante a leitura. Como autor, o que você espera de uma adaptação dos seus livros? Prefere que seja uma adaptação fiel ou acha melhor dar liberdade para outros artistas criarem. Qual é a sua cena preferida da série de TV até agora? A minha, já digo logo, é aquela em que Uhtred ensina os guerreiros de Alfred a se juntarem em uma parede de escudos.

Ah, eu entreguei totalmente a eles! A série é produzida pelo mesmo pessoal que fez “Downton Abbey”. O que eu posso ensiná-los sobre dramaturgia para a televisão? Nada! Eu trabalhei na TV por onze anos e realmente sei como a coisa é feita, mas eu nunca trabalhei com dramaturgia, então eu estou feliz em deixá-los fazer o que bem entenderem. Eles sabem como fazer aquilo, trazem sua própria criatividade para o projeto e agregam valor! Eu adoro! Tenho adorado tudo o que eles têm produzido e tudo foi feito sem nenhum conselho ou intervenção minha. Minha cena favorita? Gostei muito do batismo de Uhtred – me fez rir!

 Além de nos divertir, suas histórias também inspiram os nerds / geeks do Brasil (como eu) a criar suas campanhas e aventuras de role-playing games. Gostaríamos de saber se você já teve a oportunidade de jogar RPG. E caso nunca tenha jogado, qual das classes escolheria: bárbaro, druida, paladino, guerreiro, clérigo ou mago?

Eu nunca joguei, sinto muito! E qual destas classes tem mais poder? Mago ou druida? Eu quero poderes mágicos! Ontem, eu e minha esposa fomos ver “Mulher Maravilha” – fantástico! Eu a quero do mesmo lado que eu.

A última pergunta dos jornalistas sempre é sobre os próximos projetos. Quero me desviar do óbvio. Gostaria de conhecer a sua coleção de ideias. Diga-nos (sem compromisso) sobre quais temas gostaria de escrever (em algum momento dos próximos 20 anos), além dos que já abordou.

Bem, eu preciso terminar a série de Uhtred (e eu vou!), e eu gostaria de escrever pelo menos mais um livro da série Sharpe (e eu provavelmente vou). E, embora eu saiba que não vai haver um outro livro que se passe no teatro de Shakespeare, eu penso em algo no mesmo estilo… mas isso terá de esperar! E eu gostaria de te agradecer por estas perguntas tão interessantes e provocativas! Muitas felicidades!

Comentários
  • Augusto

    Incrível entrevista Eduardo! Parabéns! Perguntas e respostas interessantes que fogem da mesma coisa de sempre! Ai sim!

  • SmokeE3 .

    Ótima entrevista, estou cada vez mais curioso pra começar á ler Crônicas Saxônicas!

  • Charles Benedito

    Parabens! otima entrevista Eduardo

  • Te invejo até a morte…..

  • Pedro Dragonblade

    Um mito entrevistando o outro, valeu a pena parar meu dia pra ler isso, muito interessante.

  • Fernando Rocha

    Parabéns Dudu excelente entrevista que vc tenha mais oportunidades como Essa! Amo seus livros e os do Cornwell tbm! Parabéns!!!!

  • Julia Sobrinho

    Muito boa a entrevista e as perguntas, parabéns!

  • Larissa Neves

    Ótima entrevista!

  • Ddi Fadoul

    Parabéns, Eduardo! Excelente entrevista. Boas respostas para boas perguntas.

  • Felipe Bacelar

    Ótima entrevista. Aproveitou muito bem a oportunidade. Parabéns, Spohr!

  • Alan Victor

    Mito entrevistando mito.

  • Maycon Fernando Silva Brito

    Adorei a entrevista Eduardo!

  • Entrevista de verdade! Parabéns e obrigado!

  • Otavio Larsen

    Parabéns pela entrevista, ótimas perguntas. A sobre religião traz uma visão sóbria sobre como a religião é interpretada para justificar absurdos.

  • Vinícius Wildner Zambiasi

    Muito bacana. Cornwell parece ser um senhor bastante simpático.
    Sucesso, Edu!

  • Fernando Moura

    Parabens Eduardo!! Sou fã confesso do Cornwell e agora mais ainda. A simplicidade do homem é admiravel. Ele é um mestre!! Espero que um dia possamos ter a batalha do apocalipse tb adaptada para um filme e os demais livros que tb fazem parte da historia.

  • Rafael Messagi Guatimosim

    Baita entrevista. Bernard Cornwell é o cara. E essa rotina de trabalho é sensacional.
    Parabéns ao Eduardo, as perguntas foram excelentes também.

  • Evelyn Postali

    Muito bacana essa entrevista. Parabéns! Gostei muito da questão sobre separar a história da ‘estória’. Parabéns. Abraço.

  • Hélio Alves

    Bacana demais! Valeu, Dudu

  • Lucas Fernandes

    Excelente entrevista! Muito fã dos dois! Tomara que o Eduardo possa entrevistar mais autores!!!

  • Douglas Silva

    Perguntas que qualquer fã gostaria de fazer, parabéns Edu

  • Talita Silva

    Meus escritores favoritos. Amei!!!

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