Lançamentos

“Uma história simples”, de Leila Guerriero

Nenhum Comentário

O desgaste começa depois de dois minutos. Alguém com um nível
de preparação standard poderia dançar, sem maiores problemas, um
malambo que durasse isso. Porém, depois de dois minutos, o corpo só
se sustenta à força de treinamento e graças ao bombeamento das endorfinas
que tentam aniquilar o pânico produzido pelo sufoco, a contração
dos músculos, a dor das articulações, o olhar expectante de seis mil
pessoas e o escrutínio de um júri que registra até a última respiração.
Talvez por isso, quando descem do palco, todos pareçam ter passado
por algo inominável, por um transe atroz.

Se durante o dia a temperatura pode superar os 40 graus, à noite,
ela baixa inexoravelmente. Hoje, sexta-feira, 14, meia-noite e meia,
deve estar em 13 graus, mas atrás do palco é carnaval. Há corpos que se
vestem e se despem, suor, música, corridas. O aspirante pela província
de La Rioja, Darío Flores, desce do palco como costumam descer todos:
cego de fervor, crucificado, com o olhar perdido e as mãos na cintura,
lutando para recuperar o ar. Alguém o abraça, e ele, como quem sai de
um transe, diz: “Obrigado, obrigado.” Estou olhando isso e acho que
começo a me habituar a ver a mesma tensão exasperante quando estão
nos camarins, a mesma explosão ardente quando sobem, a mesma
agonia e o exato êxtase quando lhes cabe descer. Então, ouço no palco o
dedilhar de uma guitarra. Há algo nesse dedilhar — algo como a tensão
de um animal a ponto de saltar que se arrasta rente ao chão — que me
chama a atenção. Então, dou a volta e corro, agachada, para me sentar
atrás da mesa do júri.

Essa é a primeira vez que vejo Rodolfo González Alcántara.
E o que vejo me deixa muda.

Por quê, se ele era igual a muitos? Usava um paletó curto, um colete
cinza, uma galera, um chiripá vermelho e um laço preto como gravata.
Por quê, se eu não era capaz de distinguir entre um dançarino muito
bom e um medíocre? Mas ali estava ele — Rodolfo González Alcántara,
28 anos, aspirante de La Pampa, altíssimo — e ali estava eu, sentada na
grama, muda. Quando acabou de dançar, a voz opaca, impávida, da
mulher, pronunciou:
— Tempo empregado: quatro minutos e cinquenta e dois segundos.
E esse foi o momento exato em que esta história começou a ser definitivamente
outra coisa. Uma história difícil, a história de um homem
comum.

Nessa noite de sexta-feira, Rodolfo González Alcántara chegou
até o centro do palco como um vento mau ou como um puma, como
um cervo ou como um ladrão de almas, e ficou plantado ali por dois
ou três compassos, com o cenho franzido e olhando alguma coisa que
ninguém podia ver. O primeiro movimento das pernas fez com que
o cribo se agitasse como uma criatura mole dentro d’água. Depois,
durante quatro minutos e cinquenta e dois segundos, fez a noite ranger
sob seu punho.

Ele era o campo, era a terra seca, era o horizonte tenso dos pampas,
era o cheiro dos cavalos, era o som do céu de verão, era o zumbido da
solidão, era a fúria, era a enfermidade e era a guerra, era o contrário
da paz. Era a faca e era o talho. Era o canibal. Era uma condenação.
Ao terminar, bateu na madeira com a força de um monstro e ficou ali,
olhando através das camadas de ar folhado da noite, coberto de estrelas,
puro fulgor. E, sorrindo de lado, como um príncipe, como um rufião ou
como um diabo — tocou a aba do chapéu. E se foi.
E assim foi.
Não sei se o aplaudiram. Não me lembro.
O que fiz depois? Só sei que escrevi estas anotações. Corri para trás
do palco, mas, embora eu tenha tentado encontrá-lo no tumulto — um
homem enorme, coberto por um chapéu e com um poncho vermelho
amarrado na cintura, não era tão difícil assim —, não estava ali. Então,
diante da porta aberta de um dos camarins, vi um homem muito baixo,
de não mais que um metro e cinquenta, sem paletó, sem colete, sem
galera. E o reconheci porque ofegava. Estava sozinho. Me aproximei.
Perguntei-lhe de onde era.

De Santa Rosa, La Pampa — disse-me com aquela voz que depois
eu escutaria tantas vezes e aquele modo de afogar as frases no final,
como quem diminui um pouco a própria importância. — Mas moro em
Buenos Aires. Sou professor de dança.
Ele tremia — as mãos e as pernas tremiam, tremiam os dedos
quando os passava pela barba que apenas cobria o queixo — e eu perguntei
o seu nome.
— Rodolfo. Rodolfo González Alcántara.
Nesse momento, de acordo com as minhas anotações, o locutor
dizia alguma coisa que soava assim: “Moinhos Marín, farinha que
combate o colesterol.” Não escrevi mais nada essa noite. Eram duas da
madrugada.

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais