Entrevistas

“Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves

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Por Cláudia Lamego

Kehinde, africana que chegou ao Brasil escravizada, é a narradora de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. No livro, ela conta em detalhes a sua captura, a vida como escrava na Ilha de Itaparica, na Bahia, os seus amores, as desilusões e sofrimentos e as viagens pelo Brasil em busca de um de seus filhos, mas também de sua religiosidade. A obra reconstrói os modos de vida dos africanos, portugueses e brasileiros no tempo da escravidão, revela como os escravos professavam, escondidos, as suas diferentes religiões, dependendo da origem de cada um, e como se organizaram para sobreviver e lutar pela liberdade no país.

Os negros são protagonistas dessa saga, que mostra como Kehinde conseguiu a sua carta de alforria e, na volta para a África, tornou-se uma empresária bem-sucedida, apesar de todos os percalços e aventuras pelas quais passou. Ana Maria Gonçalves conta a história do ponto de vista da personagem, inspirada em Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta Luís Gama e participado da célebre Revolta dos Malês, na Bahia, movimento liderado por escravos muçulmanos pela Abolição, no século XIX. Segundo ela, escreveu a história que ela mesmo gostaria de ter lido. “A viagem de Kehinde é a minha viagem pra dentro de mim mesma, onde encontrei eco das histórias que pesquisei”, diz a autora, sobre o seu processo de busca da sua própria identidade negra.

O livro completou em 2017 dez anos de publicação e a data vem sendo celebrada por Ana Maria e suas leitoras e leitores. Depois de participar da Festa Literária Internacional de Paraty, no fim de julho, onde a presença de autores e autoras negras foi a maior na história da FLIP, a autora nos concedeu a entrevista abaixo.

“Um defeito de cor” completou dez anos de publicação e está hoje entre os dez livros nacionais mais vendidos do Grupo Editorial Record. O que mudou pra você de lá pra cá e como você lida com o sucesso do livro, que virou uma referência na literatura brasileira?

Acho que quase tudo mudou pra mim: o livro me levou a mudar de profissão, de cidade, de estado, de país, de identidade, de postura. Eu ainda me espanto com o quanto o livro toca as pessoas e faz com elas também queiram dividir suas histórias comigo.

Você disse que escrever o livro e fazer com a personagem-narradora o percurso África-Brasil-África-Brasil foi como uma descoberta de sua própria identidade. E que também gostaria de ter tido, mais nova, um livro como esse em sua estante. Queria que você contasse mais sobre isso, como é essa experiência de se descobrir negra no Brasil.

Para quem é mestiça, como eu, e em uma sociedade na qual o racismo é estrutural, a identidade é uma identidade negociável. Não há nenhuma vantagem em ser negra, e dependendo da classe social, do nível econômico e cultural, a própria sociedade trabalha para que se sofra um processo de embranquecimento. Juntando isso ao contexto histórico, no qual a verdadeira história da escravidão e do pós-abolição nos foi negada, minha identidade negra foi construída e buscada durante o processo de pesquisa e escrita do livro. Ele conta uma história que eu não consegui encontrar pronta, e por isso quis escrever. A viagem de Kehinde é a minha viagem pra dentro de mim mesma, onde encontrei eco das histórias que pesquisei.

Curiosamente, este ano, a Lei 10.639/03, que dispõe sobre o ensino da história e da cultura africanas nas escolas, também completa dez anos. Pelo que vimos até aqui, a lei não foi implementada como deveria, apesar de algumas políticas públicas terem sido criadas com esse objetivo. Como você acha que a literatura, e um livro como o seu e tantos outros que têm surgido, aos poucos, no mercado editorial, podem ensinar sobre as nossas origens?

Eu acho que fazer valer a lei é um peso muito grande para a literatura. Ou seja: não podemos jogar sobre ela a responsabilidade de combater séculos de desinformação e irresponsabilidade do país em se assumir racista e criar mecanismos para combater esta praga. Mas a literatura pode ser sim uma ferramenta importante, porque ela é capaz de provocar, por exemplo, a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de vivenciar outras histórias e outras experiências.

Kehinde, a protagonista de “Um defeito de cor”, é uma negra que lutou, estudou, trabalhou, enriqueceu, formou os filhos que teve em sua volta à África e pôde escolher, de certa forma, o seu destino – apesar de enfrentar tantos percalços, como a escravidão e a perda de tantas pessoas queridas pelo caminho. O que ela pode nos ensinar sobre a importância de se dar visibilidade ao protagonismo negro na arte e na literatura?

Acredito que a literatura é o lugar das possibilidades, e Kehinde, assim como as vidas de várias mulheres nas quais ela foi inspirada, representa isso. A história dos negros brasileiros, como um bloco, um conjunto, uma massa homogênea e passiva, sempre nos foi contada a partir do ponto de vista do branco, que se colocava como protagonista ou benfeitor. O que eu quis fazer foi mostrar que não foi bem assim, que houve uma outra história que pode ser contada, e provada, apenas mudando-se o ponto de vista.

Você já disse que fez uma pesquisa extensa em livros, documentos históricos e arquivos para escrever “Um defeito de cor”. Ele revela tantas histórias que ainda são desconhecidas de muitos brasileiros, como as diversas origens dos negros africanos que aportavam por aqui, as diferenças culturais e religiosas entre eles, a volta à África, as batalhas que eles enfrentaram. Apesar de não ser um livro que privilegia o rigor histórico, mas a invenção literária, ele desperta a curiosidade do leitor, que quer saber mais sobre um episódio ou outro. As pessoas te procuram para pedir dicas de outras leituras ou saber como você conheceu uma ou outra história narrada?

O mais incrível é que sou procurada muito mais por quem quer me contar histórias, que complementam ou acrescentam às que já contei, do que para saber mais sobre elas. Além da pesquisa, é um livro que privilegia um repertório pessoal. Histórias que são contadas, dentro da tradição oral, por gerações e gerações de famílias negras, e muitas vezes compartilhadas por elas, com uma ou outra variação. Os leitores me enriqueceram demais, contando suas histórias de família.

Complementando a pergunta anterior, além dos livros de não-ficção, que romances e autores te inspiraram na escrita de “Um defeito de cor”?

Um dos livros mais importantes para a minha escrita de “Um defeito de cor” foi “A casa da água”, do Antônio Olinto. Acho que tudo que li antes influenciou ou inspirou, porque me formou como leitora e, como já disse, escrevi o livro que queria ler. Durante o processo de escrita, evitei ler ficção, porque certos/as escritores/as podem ser bastante tóxicos, fazendo com que se queira imitar a prosa ou o estilo. Eu gosto dos/as que privilegiam a contação de histórias, de causos, de lendas, de coisas que são passadas de boca-a-boca, quase como se conversassem com o leitor, e aí me lembro de Jorge Amado, por exemplo, ou João Ubaldo Ribeiro.

Nesses dez anos, você virou uma referência para artistas, militantes, jovens e novas escritoras no Brasil. O ator Lázaro Ramos disse que “Um defeito de cor” é o livro da vida dele. Numa matéria sobre leitura no país, num programa dominical de televisão, ele indicou o livro, que acabou sendo lido por uma empregada doméstica. Ela deu um depoimento muito bonito sobre a sua leitura. Num país que ainda lê pouco, como você recebe essas manifestações, ainda mais tendo o seu livro quase mil páginas?

Acho que o livro quebra o mito de que não somos um país de leitores. Podemos não ser no momento, no qual a literatura produzida e publicada está nas mãos de uma elite formada basicamente por homens brancos, das classes mais abastadas, héteros, da região sudeste do país, que escrevem basicamente suas experiências para um público com as mesmas características. Quando o leitor encontra algo que está mais próximo dele, de suas vivências e de suas experiências, ele se interessa muito mais. Acho que “Um defeito de cor” supre um pouco esta necessidade, e por isto ele atinge um público que nunca se sentiu representado, que nunca tinha lido um livro de quase mil páginas mas que, ao chegar no final dele, diz que queria mais. Quer mais, na verdade, é de si mesmo.

Este ano a Festa Literária de Paraty, que pauta o mercado, as livrarias e a imprensa, teve 30% de autores negros. O autor negro Lima Barreto foi o homenageado. Há mais mulheres que homens na programação oficial. Num dos eventos paralelos, foi lançado um catálogo de intelectuais negras. Como você vê todos esses movimentos? Acredita que vão permanecer após todo esse destaque?

É um movimento e um passo sem volta. Tenho que ser otimista, ou caso contrário, deixaria de fazer o que faço, de militar pelo que milito, de escrever o que escrevo. Mas penso, de verdade, que estamos passando por um período de transformações, no qual o que vigora como norma, como padrão, como estabelecido, se provou incapaz de pensar e apontar caminhos para problemas que assombram a sociedade. Não acredito numa reconstrução de nação – e precisamos demais que isso seja feito – sem que estas vozes sejam ouvidas e suas reivindicações atendidas. É o que há de novo, e não tenho dúvidas do que está se desmoronando de velho.

Aproveitando, você poderia nos contar o que está lendo, destacar autoras e autores que tenham surgido no rastro do sucesso de “Um defeito de cor”?

Tenho lido muito mais não-ficção, por pesquisa para novos escritos, por estudo para conseguir contar minhas histórias através de outras linguagens – teatro e audiovisual. Mas tenho me encantado principalmente por autoras afrodiaspóricas, como Dione Brand, Edwidge Danticat, Marise Condé, Jamaica Kinkaid. Tenho lido também muito teatro produzido por mulheres negras, como Katori Hall, Lynn Nottage, Suzan-Lori Parks, Danai Gurira e Dominique Morisseau.

Por fim, acho que há muito tempo você deve vir escutando essa pergunta: quando o novo romance de Ana Maria Gonçalves será publicado?

Acredito que no primeiro semestre do ano que vem. Vamos ver se consigo.

Comentários
  • Wlange Keindé

    Maravilhosa! Um defeito de cor é lindo e a protagonista tem meu nome <3

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