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“Diário de Viagem”, de Albert Camus

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Otto Lara Resende

 

Aqui está um livro de viagens diferente. O que interessa não é propriamente o que o viajante viu – pessoas, paisagens, coisas –, e sim o próprio viajante, que em nenhum momento consegue esquecer-se de si mesmo. Aqui não está um turista que espairece o tédio pelo mundo. Nem um observador do que há de exótico e pitoresco nos países que visita.

Aqui está um homem. Um grande homem. Um grande escritor. Um escritor torturado pelos problemas e pelas indagações que o acompanham. Albert Camus ainda não era Prêmio Nobel quando saiu de sua pátria como uma espécie de caixeiro-viajante da cultura francesa. Jovem, havia percorrido a Europa como simples anônimo curioso. Assim que se tornou conhecido, logo depois da guerra, fez sua primeira travessia do Atlântico à América do Norte. Conheceu os Estados Unidos e o Canadá.

Três anos depois, em 1949, Camus veio à América do Sul. Aceitou o patrocínio oficial e de novo atravessou o Atlântico num cargueiro para falar dos grandes temas que o preocupavam. Eram os grandes temas da hora, os temas de sempre, na linha de um humanismo universal, europeu e francês.  Camus já era um nome conhecido em 1949. Ficcionista, tinha publicado O Estrangeiro  e A Peste. Ensaísta, era autor de O mito de Sísifo. Dramaturgo, duas peças de sua autoria tinham sido montadas em Paris – Calígula e O mal-entendido.

Jornalista combativo e combatente, Camus tomou parte na Resistência. Nascido em Argel, transferiu-se em 1940 para a França e seu nome de lá se irradiou por toda parte. Ex-militante político, tendo sido membro do Partido Comunista, viveu inflamado pela paixão da justiça. Espírito polêmico e independente, foi um solitário. Sua solidão está aqui num momento de paroxismo. Sua viagem à América do Sul, começando pelo Brasil, aborreceu-o tanto que lhe deu vontade de matar-se.

De fato, já a bordo do Campana tem ganas de suicidar-se. Pensa obsessivamente no que, a meu ver, é o único problema filosófico verdadeiramente sério – o suicídio. Sua saúde vai mal. O que a princípio parece uma gripe é de fato a volta da tuberculose. Camus não dorme, ou dorme mal. Custa suportar os compromissos que tem de asceticamente cumprir. O mundanismo o irrita. Entrevistas e conferências são quase um massacre. Ele vai tomando nota, num tom confidencial.

Esse Diário de Viagem mostra isto por um lado secreto do escritor, numa fase de profunda depressão. Mas ele cumpre todos os compromissos sociais. Vê gente. E registra tudo com áspera sinceridade. Nem sempre com exatidão. Seu encontro com Augusto Frederico Schmidt é um exemplo do mau humor com que força o traço caricatural. Gosta de Manuel Bandeira e Manuel Bandeira gosta dele. Conversa com Murilo Mendes, com Oswald de Andrade, com Érico Veríssimo. Procura também ver o exótico. E quer entender o povo.

Mas acima de tudo aqui está Albert Camus. O grande escritor. O filósofo do absurdo diante do Mundo Novo. Um livro para ler e meditar, este Diário. Uma leitura obrigatória.  

Leia aqui trechos do diário.

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