Entrevistas

“Um Acordo de Cavalheiros”, de Lucy Vargas

Nenhum Comentário

Por Fernanda Galvão

A jornalista e escritora carioca Lucy Vargas começou a ler romances aos 13 anos, escritos essencialmente por autores estrangeiros. Com a chegada das plataformas digitais de autopublicação, porém, ela, que já escrevia em seu site, passou a investir mais fortemente no caminho das letras. E assim foi descoberta: autora best-seller da Amazon, do iTunes, do Kobo e do Google Play, Lucy já vendeu mais de 30 mil e-books e foi a primeira autora independente brasileira a ser convidada pelo Google a publicar na Play Store.

Lucy chega à Editora Bertrand Brasil com o romance histórico “Um Acordo de Cavalheiros”, obra que chegou em sua segunda edição após dois meses de lançamento. Com sensualidade, muito humor e baseado em uma extensa pesquisa de época, nas 350 páginas da obra Lucy fala sobre a relação entre uma mulher já considerada velha para se casar, para os padrões vigentes, e um conde devasso e escandaloso, tudo no cenário do período da Regência britânica.

O fato de estar ambientado no século 19, porém, não impediu a autora de abordar temas como empoderamento feminino e fortalecimento da autoestima. Confessadamente inspirada por autoras como Charlotte e Anne Brontë, Lucy explica que quis criar um herói com “ideias progressistas sobre as mulheres”. “Não quis ficar no mais do mesmo”, pondera Lucy, para quem o romantismo não implica na diminuição do papel da mulher, nem no seu enfraquecimento. “Quero ler e escrever sobre mulheres fortes, que eu poderia admirar, que poderia usar como exemplo. E como adoro romances, é o máximo ver essas mulheres se apaixonando e sendo tratadas com respeito e tendo seus direitos, ideias e capacidade reconhecidas.”, frisa.

Você começou como escritora de textos contemporâneos, e depois migrou para os textos históricos. Como é aliar as duas vertentes e quais as particularidades de cada uma?

Eu escrevia histórias contemporâneas quando publicava só no meu site, antigamente. E cheguei a colocar três histórias de época. Devido à enorme paixão pelo gênero, porém, em 2013, quando publiquei meu primeiro livro, este foi romance de época. E o segundo também. Tenho mais facilidade em escrever romances de época, simplesmente flui. Acho que a pesquisa para escrever algo histórico tem que ser ainda mais criteriosa, feita nos mínimos detalhes. Assim como todo o trabalho de ambientação. Mesmo que também pesquise muito nos contemporâneos, é diferente ir atrás dos detalhes, regras e costumes de uma sociedade de séculos passados.

Em 2015 eu estava escrevendo dois livros ao mesmo tempo, um era contemporâneo e outro de época. E aí tive que refazer uns diálogos, porque minha mente ficava presa na construção e vocabulário da linguagem dos romances de época. E é diferente. Já queria tascar um “milorde” no meu mocinho dos tempos atuais! É bem cômico, dou muita risada na hora, mas presto bastante atenção. Tem dias que minha mente simplesmente não quer voltar para os tempos atuais, então sigo com meus condes, marquesas, etc. E depois volto para escrever os contemporâneos, onde posso brincar com mensagens de texto, gírias, celulares, etc. Muita coisa que acontece nos romances de época jamais rolaria se lá houvesse um telefone, um WhatsApp, um Uber!

Durante muito tempo as editoras brasileiras não abriam espaço para o que hoje se denomina “chick lit”, mesmo havendo muito consumo dos ditos livros de banca, tanto os contemporâneos quanto os históricos. A que você atribui esta abertura?

Até pouco tempo as editoras não abriam espaço para os autores brasileiros em geral, era difícil ver um, ainda mais romance. Eu li muito chick lit e outros gêneros de autores estrangeiros. Creio que a chegada da Amazon, iTunes, Kobo, Play Store – lojas que permitem que o autor venda seus e-books – virou o jogo. Foi onde eu comecei. Além disso, plataformas de leitura como o Wattpad abriram caminho para autores nacionais aparecerem e, assim, chamar a atenção das editoras. Foi algo como: “Viu? A gente consegue vender também!”. Tem muito autor bom que só foi descoberto depois dessa mudança.

Como você vê o avanço do surgimento de autoras brasileiras neste segmento, e a que você atribui este movimento?

No romance? Acho o máximo! Havia muita autora escondida por aí, como era o meu caso. Com a facilidade de atingir o público e disponibilizar seus livros, elas acabaram saindo da toca. Espero muito que cada vez mais trabalhos de qualidade sejam descobertos. Leio romances desde os 13 anos, e posso dizer que tenho visto trabalhos de autoras brasileiras que provam que temos qualidade, sim. No caso dos romances de época, acho que muita gente era apaixonada pelo gênero e sonhava em escrever, só faltava o mercado brasileiro abraçar. Acho que tem espaço para todo mundo, independentemente do objetivo que tenham como autores.

 Como eu, você é jornalista e atua no mercado. Somos uma profissão que lida com o texto. Sua profissão influencia sua escrita? Como?

Depois que decidi que ser autora não seria mais hobby e sim uma outra profissão na minha vida, eu voltei a estudar. E meu texto, gramática e autocrítica evoluíram muito. Eu escrevia o tempo todo, escrever sempre foi minha vida. Fico esperando meus livros voltarem dos revisores para aprender tudo de errado que tinha ali e não repetir. Quando olho para trás, penso que se tivesse a maturidade que adquiri, quando tomei a decisão de ser autora profissional, teria passado mais tempo em redação ou, ao menos, migrado dentro dela, já que percebi que o jornal diário não era tanto a minha. O que seria um problema, porque conciliar as duas coisas é bem difícil. O trabalho não acaba nunca! Em ambos os lados! Mas ter trabalhado em jornal ajudou porque você fica dinâmico. Tem que escrever um texto em 10 minutos, não adianta chorar. E tem que escrever com todo mundo correndo e falando (ou gritando) a sua volta e o editor no seu cangote. Então, onde eu sentar, eu escrevo. Pode explodir tudo em volta, que eu estou escrevendo. *risos*

 Seu último livro, “Um Acordo de Cavalheiros”, é um romance de época mas com personagens que têm reações quase contemporâneas, em particular o protagonista, Tristan. Acha que isso pode ser visto como contraditório, uma vez que ele poderia fugir aos padrões dos homens do seu tempo?

Ele é um canalha da época. Um canalha que deu certo, porque era moda e muitos tentavam ser, sem o devido sucesso. Acho que às vezes as pessoas têm uma visão muito romântica daquela época, especialmente do período Regencial. Canalhas, traidores, infiéis, casos escandalosos, era tudo a receita do dia. Só era escondido. O proibido sempre teve mais apelo.

O que eu realmente quis colocar de diferente nele foram suas ideias progressistas sobre as mulheres. E dei uma história para que ele tivesse acabado assim. Em “Um Acordo de Cavalheiros”, depois de tantos anos lendo romances de época e mais recentemente, escrevendo, minha regra foi não criar mais do mesmo. E, felizmente, as leitoras têm gostado de ver um mocinho que não é cego sobre a realidade, mas que consegue vê-la. Porque na época, o verdadeiro problema era esse, ainda não enxergavam o que vemos hoje. E ele era o errado por ver que tinha algo naquela forma de vida que não combinava com sua história, com a tia que o criou e com as mulheres com quem se relacionava. Porque Tristan sempre se relacionou com mulheres fora da sociedade e quando você pesquisa essas pessoas, vê que mesmo naquela época o negócio era diferente dos lindos salões da nobreza. Irônico, porque os escândalos famosos vinham justamente deles.

 Outro tópico bem abordado em “Um Acordo…” é a questão do empoderamento feminino e o reconhecimento de seus próprios desejos. Acredita que a literatura deve exercer um papel social, em particular para a mulher?

Eu super acredito. Especialmente na época em que vivemos. Não é mais possível aceitar livros de mulheres sendo subjugadas, abusadas, aceitando tudo pelo dito amor. Quando, na verdade, tudo isso é só desculpa para ser conivente com uma sociedade que não para de matar mulheres. Essa situação era muito comum de se ver nos romances dos anos 80/90. E não estou falando de livros que se dispõem a tratar do tema. E sim romances jogando isso como o “correto” para mulheres.

Em pleno 2017, eu me recuso a escrever isso e a ler também. Garotas de 14 anos pegam meus livros para ler e me mandam e-mails depois. E mulheres de todas as idades, passando por várias coisas na vida, vão ler isso. Para muitas, são romances para fugir da realidade, se apaixonar, se imaginar ali dentro e, em troca, passar por sentimentos e lições.

Eu realmente leio o que as leitoras dizem. No geral, elas não querem mais ver mocinhas apenas aceitando e abaixando a cabeça. O que mais me dizem sobre “Um Acordo de Cavalheiros” foi que adoraram ver um romance de época em que a Dorothy, a mocinha da história, luta pelos seus ideais. E ela nunca recua. Apesar da época e da cultura em que vivia, do jeito que podia, ela decidiu que sua vida, seu corpo e seu futuro pertenceriam somente a ela.

Quero ler e escrever sobre mulheres fortes, que eu poderia admirar, que poderia usar como exemplo. E como adoro romances, é o máximo ver essas mulheres se apaixonando e sendo tratadas com respeito e tendo seus direitos, ideias e capacidade reconhecidas. E foi sobre tudo isso que quis criar a relação de Tristan & Dot, mostrando que é possível, em um romance de época, e criando um paralelo para mostrar que quase 200 anos depois, ainda estamos lutando pelas mesmas coisas que a Dorothy.

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais