Entrevistas

“Nas águas desta baía há muito tempo”, de Nei Lopes

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Por Ana Maria Gonçalves

Capa Nas aguas desta baia ha muito Tempo V3Sinto que há nos seus contos uma grande contextualização, tanto geográfica quanto historiograficamente. O que vem primeiro, e como isto acontece: a vontade de contar a história de determinado lugar, e você cria uma situação para isto; ou vem primeiro uma história que você queira contar, e a partir dela escolhe uma “locação” adequada? Qual é o grau de interferência entre um e outro método?

O que tem acontecido mais é a vontade de contar a história e eu escolher o lugar onde ela vai se desenvolver. Mas no caso deste “contos da Guanabara”, tudo começou pela constatação enorme de ilhas e ilhotas existentes na nossa Baía. No meu trajeto, da periferia onde moro até a capital, isso um dia me ocorreu. E a ideia começou a tomar forma numa viagem de barca a Paquetá. Aí, busquei na memória e nos livros as referências: Lima Barreto na Ilha do Governador e estudando em Niterói; o maestro Anacleto de Medeiros em Paquetá; o episódio de João Cândido… Mas cravei, mesmo, a seta no alvo quando li detalhes sobre a Revolta da Armada, no fim do século 19. Aí, resolvi fazer desse evento histórico, a âncora (sem trocadilho) do conjunto de contos que escrevi.

 Vários personagens pulam de um conto para outro, dando-nos a sensação de continuidade. Certa vez ouvi um crítico dizendo que escritores sempre escrevem a mesma história, começando em seu primeiro livro e terminando com o último, por mais que pareçam que os temas são diferentes. Você concorda com isto? Se não concorda, o que muda de um livro para outro? Se concorda, qual é a história que você vem contando desde sua primeira obra, e qual a importância que este livro tem dentro dela?

A  grande história que eu venho contando é a da exclusão do povo negro. Isso é o que perpassa toda a minha obra. E acho que venho conseguindo fazer isso sem lamúria, com picardia, com molho, com “suingue”. Afinal de contas, eu sou sambista; e isso para mim é fundamental. Tanto que já escrevi uma coletânea (“Vinte contos e uns trocados”, Record), toda passada no universo do samba, focando nas tragédias do cotidiano; e não deixou de ser um livro bem humorado.

Do conto Valonguinho, que você dedica a Luiz Antônio Simas e Zeca Ligiéro, retiro a seguinte frase: “- Como? Então a República vai condecorar um símio?”. Há vários heróis e heroínas negros/as espalhados/as pelo livro. Qual a importância de falar destas pessoas?

Ainda bem menino, eu já me sensibilizava com a invisibilidade do nosso povo; e com a ótica negativa com que eram mostrados os que apareciam um pouquinho. Eram “Blecaute”; ”Escurinho”; Gasolina”; “Jamelão”… Aí, comecei a colecionar recortes com figuras de negros proeminentes, que raramente eram brasileiros. Guardava dentro de uma caixa de papelão. Daí, meio século depois, a caixinha se transformava, simbolicamente, na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 2004)  e no Dicionário Literário Afro-brasileiro (Pallas), onde repertorio autores e personagens afro-descendentes. Tudo para mostrar que nós, de todo modo, existimos.

Há pelo menos dois contos (por favor, corrija-me se deixei passar algum), que fazem referência a Lima Barreto e seus problemas com o alcoolismo e loucura. Qual a importância de Lima Barreto no seu trabalho? Como manter a sanidade e a sobriedade com tantos anos de negligência para, como um país, tomarmos providências para remediar os males da escravidão e, consequentemente, do racismo?

Lima Barreto é e sempre será uma grande referência. Agora, sobre como remediar os males da escravidão, eu acho que o primeiro passo é mostrá-la como o grande crime contra a Humanidade que ela efetivamente representou; e o quanto  o chamado “mundo ocidental”  lucrou com ela. Eu escrevo livros sobre isso. Agora mesmo estou inteiramente dedicado ao segundo volume da História da África, em parceria com o professor José Rivair Macedo, da UFRGS. E, nesse volume, que enfoca o período que vai do século XVI ao XIX, isso tudo que eu disse acima fica muito claro.

Você descreve bem os cafofos, os cortiços, os botecos, os bares, as quebradas por onde andam seus personagens. Por onde andou Nei Lopes? De onde você vem e do que não conseguiu (ou não quis) ainda se livrar, e que vaza através da sua literatura?

A minha origem proletária, suburbana, mas profundamente carioca, é indelével na minha literatura. Soma-se a ele a minha vivência no mundo do samba, dos 20 anos de idade até ainda pouco.

O conto Lumiére du Feu termina com as belas frases: “Para que não se deixasse viva nenhuma fantasia. E não restasse nenhuma memória”. Quais são as fantasias e as memórias que devem ser aniquiladas ou preservadas, para que nos realizemos como nação?

A sociedade brasileira se nutre de muitas fantasias e mitologias. A “mestiçagem” brasileira é uma dela. E o “heroísmo” dos “pais da Pátria” também. E o conto foi inspirado numa figura real, conhecida como “Luz del Fuego”, que vivia nua, numa das ilhas da Baía de Guanabara, cercada de cobras, até que foi brutalmente assassinada. Tremenda metáfora, não?

O conto “Fuga e contraponto”, entre outros e entre outras coisas, fala dos males da tuberculose. Recentemente li em uma matéria, que citava o Rafael Braga, que o que mais mata nas nossas prisões, ainda hoje, é a tuberculose. Sabendo que as prisões continuam sendo lotadas com pretos e pobres, o assunto é bastante atual. O que mais, nos seus contos, que mesmo tratando do passado, são problemas atuais?

Quase tudo é atual, pois muito pouco mudou na nossa vida real da Revolta da Armada até hoje.

Qual a influência do músico Nei Lopes na produção do escritor, do historiador, do pesquisador? Já que você está completando 75 anos em 2017, com uma carreira sólida nessas áreas todas, poderia comentar um pouco do que você vem produzindo e o que mais vem por aí de novidade?

Até maio do ano que vem, tenho uma antologia das letras das minhas canções (sambas, etc), gravadas e inéditas, intitulada “Academia de Letras”, pois homenageia os Acadêmicos do Salgueiro, minha escola. Tenho o já citado segundo volume da “História da África” (o primeiro foi publicado este ano, pela Autêntica Editora); tenho um CD  intitulado “Rio, à toa – A alma hilariante do Rio”; uma reedição do livro “Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos”, de 2000; dependendo de patrocínio. Estou entregando à Record, que vai publicar ano que vem,  o romance “O preto que falava iídiche” (a saga de um sambista da Praça Onze que, na década de 30, vai parar na Etiópia dos falachas, judeus negros). E estou revisando outro, Agora serve o coração”, também histórico, passado na Baixada Fluminense, chegando à atualidade dos candomblés, milícias, narcotraficantes e neopentecostais. Mas o bom mesmo vai ser, em novembro,  receber o título de doutor honoris causa que a UFRGS vai me conceder, pelo conjunto da minha obra.

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