Entrevistas

“50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer”, de Débora Thomé

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Por Luciana Medeiros

Você sabia que a primeira pessoa no Brasil a ter uma licença de paraquedista foi uma mulher? Pois, na década de 1950, Ada Rogato foi também a primeira a pilotar um planador e a terceira mulher a tirar o brevê de pilota. Você sabia que a primeira mulher a se tornar juíza federal no país era sergipana, se chamava Maria Rita Soares e, nos tempos do Estado Novo de Getulio Vargas, andava pelos tribunais com uma rolha pendurada no pescoço? Segundo ela, a rolha era o símbolo da censura no país. “Não posso falar o que penso”, dizia.

Você sabia que a primeira mulher eleita deputada federal do Brasil, em 1934, se chamava Carlota Pereira de Queiroz e que ela só conseguiu se formar em Medicina aos 34 anos, já que na década de 1920 era difícil para uma “moça de família” chegar à faculdade? Você sabia também que uma menina chamada Maria Quitéria se disfarçou de menino e se alistou como soldado Medeiros para lutar nas batalhas pela Independência do Brasil, no século XIX? E que sua foto está pendurada em todos os quartéis do Brasil? Você sabia que a primeira mulher negra a ser eleita deputada estadual no Brasil, por Santa Catarina, escrevia em jornais com o pseudônimo de Maria da Ilha? Como sofria muito preconceito, ela, que também era professora, fundou o seu próprio jornal. Seu nome?  Antonieta de Barros.

“Todas são mulheres que mudaram seu tempo e seu lugar. Que recusaram modelos impostos, seguiram criando e trabalhando e pagaram o preço dessa ousadia quando necessário. É preciso uma coragem gigantesca para sair do papel designado para você. A maioria tenta encontrar brechas para cumprir com o destino que sente ser o seu. O papel das mulheres, ao longo da história, sempre foi o doméstico, de ficar dentro de casa. É muito difícil romper com isso e ir para o mundo”, observa Débora Thomé, autora de “50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer”, livro que reúne a história das mulheres citadas acima e de dezenas de outras, mais ou menos conhecidas, e com biografias marcantes.

Tem jogadora de futebol, cantora, atriz, escritora, advogada, professora, militante, pintora, arquiteta, revolucionária, bailarina, política, astrônoma, entre outras. O livro foi todo ilustrado por mulheres, 16 ao todo, e escrito para meninas e meninos conhecerem as histórias dessas brasileiras. No fim da obra, há espaço para que elas e eles escrevam e desenhem histórias das mulheres que inspiram ou já inspiraram as suas vidas: a mãe, a professora, a tia, uma cientista, uma artista.

Como é um livro destinado às crianças, mas que desperta o interesse também de adultos, a autora buscou um tom equilibrado no texto, que mistura as informações biográficas com o lúdico e a fantasia. A linguagem acessível não impede que os dados importantes sejam partilhados, mesmo quando envolvem momentos dolorosos – como nas histórias de Maria da Penha, da Lei que pune violência contra a mulher, e de Zuzu Angel -, ou quando trata de questões que foram ou ainda são tabu, como a opção sexual de Lota de Macedo Soares.

“Pensei muito no que a Débora criança gostaria de ler e tenho clareza de que a vida não é feita só de belezas. A gente conta a história de mulheres que foram escravizadas. Ao mesmo tempo, uso muitas referências do universo infantil em detalhes e imagens. Por exemplo: a Aracy de Carvalho, que ajudou um número enorme de judeus a fugir da Alemanha nazista, é tratada como uma espécie de fada madrinha. A Carlota, primeira deputada federal mulher do Brasil, usava um chapeuzinho branco no mar de chapéus negros dos colegas homens. De Elis Regina, falo que seu canto era mágico”, afirma a autora.

O livro, publicado pela Galera Record, será lançado no domingo, dia 1º de outubro, na Livraria da Travessa, a partir das 15h. Haverá um bate-papo entre a autora e Manoela Miklos, do Blog #AgoraÉQueSãoElas. Leia a entrevista completa da autora abaixo.

 

Pensar em “Brasileiras incríveis” traz à lembrança muitos e muitos nomes. Como nasceu esse projeto? E como se definiu o critério para listar – apenas – 50 mulheres?

Pois é, somos muitas, incontáveis mulheres batalhadoras nesse país…! A editora Ana Lima, da Galera Record, queria abordar mulheres brasileiras de destaque, num formato bacana, levantando histórias de força feminina. Há muitos livros assim saindo pelo mundo. Selecionamos 50 nomes depois de fazer uma lista bem maior. Nossa saída para esse impasse foi, como eu digo na apresentação, abrir espaço para cada um colocar as mulheres que admira, nas mulheres que estão do lado de cada um, a mãe, a tia, a professora. O livro vem com páginas em branco no final para isso, na ideia de interatividade. Sabemos que é impossível contemplar as grandes brasileiras em apenas 50 nomes.

Essas 50 mulheres formam um leque que vai do século XVI aos dias de hoje, e a atuação delas está em todos os campos – a ciência, as artes, o esporte, a política, o sindicalismo, a guerra e as guerrilhas, a religião. O que elas têm em comum?

Todas são mulheres que mudaram seu tempo e seu lugar. Que recusaram modelos impostos, seguiram criando e trabalhando e pagaram o preço dessa ousadia quando necessário. É preciso uma coragem gigantesca para sair do papel designado para você. A maioria tenta encontrar brechas para cumprir com o destino que sente ser o seu. O papel das mulheres, ao longo da história, sempre foi o doméstico, de ficar dentro de casa. É muito difícil romper com isso e ir para o mundo.

De Chica da Silva a Elis Regina, da Irmã Dulce a Elza Soares, de Anita Garibaldi a Ana Botafogo… muitas dessas mulheres são bem conhecidas. Outras são pouco faladas, como Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher deputada federal. Ou Ada Rogato, aviadora. Que histórias foram mais surpreendentes?

Saí pesquisando, perguntando, lendo e ouvindo muito. Ia lendo as histórias que tinham personagens femininas como protagonistas. Recebi dicas de amigos e fui atrás de pistas. Foram alguns meses de imersão, levantando informações de dia e escrevendo à noite. Há narrativas incríveis, como a da vida da juíza Maria Rita Soares, que denunciava a perseguição que sofria pela oposição a Getúlio Vargas usando uma rolha num colar. E respondia a quem perguntava a razão: “Não posso falar o que penso”. Ela foi a primeira juíza federal do país. Maria Lenk, a nadadora campeã, inventou o estilo borboleta! Já Ada Rogato foi uma fascinação para mim, destemida e aventureira, percorrendo longas distâncias na cabine de seu avião. Costumo brincar que essa, em particular (assim como outras), foi a Débora criança quem escreveu porque, para escrever numa linguagem acessível, muitas vezes, precisei recorrer à fantasia que tocava a mim também.

Você buscou um tom muito equilibrado, em que a linguagem acessível não impede que  informações importantes sejam partilhadas, mesmo quando envolvem momentos dolorosos – como a história de Maria da Penha, da Lei que pune violência contra a mulher, ou Zuzu Angel – ou questões que foram ou ainda são tabu, como a opção sexual de Lota Macedo Soares. Ao mesmo tempo, não é tatibitate nem didático. Foi complicado chegar a esse ponto?

Pensei muito no que a Débora criança gostaria de ler. Tinha que cumprir com a verdade, a vida não é feita só de belezas. A gente conta a história de mulheres que foram escravizadas. Ao mesmo tempo, uso muitas referências do universo infantil em detalhes e imagens. Exemplo: Aracy de Carvalho ajudou um número enorme de judeus a fugir da Alemanha nazista e é uma espécie de fada madrinha. A Carlota, primeira deputada federal, usava um chapeuzinho branco no mar de chapéus negros dos colegas homens. Elis Regina tinha magia no seu canto. Irmã Dulce levou sua boneca para o convento! Aliás, notei nesse levantamento que muitas dessas mulheres, inclusive a Irmã Dulce, tiveram que enfrentar a sociedade, mesmo quem queria fazer caridade, na hora de seguir seu caminho e sua vocação. Outras abriram mão de ter filhos, por exemplo, recusaram o casamento. Ousadias cobram seus preços.

Cada uma das mulheres ganhou uma ilustração. São 16  ilustradoras, com estilos diferentes, que retratam as personagens de maneiras diversas – algumas mostram as biografadas como meninas, por exemplo.

É uma ideia incrível da Ana que reforça esse lado lúdico, leve, que fosse além da mera biografia. Sentia em outros livros a falta desse outro lado, não ser só um verbete, ou lidar com isso de uma forma dura. A minha experiência com o Bloco de Carnaval Mulheres Rodadas nos mostrou que, muitas vezes, é mais fácil comunicar de outras formas, com arte, por exemplo. Você tem que brincar um pouco com a história das personagens!

Por fim, conte como foi seu envolvimento com as causas femininas e feministas.

Minha história pessoal tem esse mote. Nasci em São Paulo e mais tarde fui morar numa cidade pequena onde a minha independência não era bem recebida. Eu era censurada o tempo todo e achava que era um problema meu! Não me reconhecia em quase nenhuma das narrativas que me cercavam. Uma das exceções de que me lembro era um livro da Ruth Rocha, Terezinha e Gabriela, que contrapõe duas meninas de temperamentos bem diferentes. Desde 2014, mergulhei mais fundo no estudo das questões da mulher e os espaços de poder. Meu livro infantil (Minha amiga Mila) tem essa protagonista diferente e que ninguém entende. Depois participei de uma série de campanhas e palestras envolvendo o fortalecimento das mulheres e criei o bloco Mulheres Rodadas. Este livro de agora marca um retorno a esses sentimentos. Chorei muito, emocionada, triste; em muitos momentos me senti radiante ao longo do processo. No final, dei-me conta de que era um fechamento de questões da Débora menina. A mesma que não entendia que uma mulher tinha direito a sonhar grande, a ser livre, a fazer suas próprias escolhas, assim como já é ensinado aos meninos. Se as mães e pais estiverem preparados para fazer esta mesma viagem não apenas com suas filhas meninas, mas também com os meninos, para que eles entendam que não são a única referência, acho que minha tarefa (ou talvez meu sonho) já estará cumprida.

Comentários
  • Gostei muito da entrevista e das idéias da autora. Parabéns às duas! Sempre desconfiamos que tem milhares de mulheres assim nesse Brasil afora e daí a importância de livros como esse que dá nome a essas mulheres tão importantes mas que ficam quase anônimas!

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