Entrevistas

“O diário de Anne Frank em quadrinhos”, de Ari Folman e David Polonsky

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Uma das principais obras do século XX, “O diário de Anne Frank” até hoje emociona leitores no mundo inteiro e não sai das listas de livros mais vendidos no Brasil. Agora, 70 anos após sua primeira publicação, o diário chega pela primeira vez às livrarias em formato de quadrinhos. O texto foi adaptado pelo roteirista e cineasta Ari Folman e pelo ilustrador David Polonsky. Os dois são também o time por trás de “Valsa com Bashir”, HQ que deu origem ao filme de animação homônimo indicado ao Oscar. “O diário de Anne Frank em quadrinhos” será lançado em cerca de 50 países e, aqui no Brasil, chega às livrarias no início de outubro. Nesta entrevista, os dois falam sobre os desafios do processo de adaptação do livro, suas referências, Holocausto e a importância de fazer o texto chegar aos mais jovens.

 

Você é um cineasta e agora desenvolveu uma graphic novel. Por quê?

Ari Folman: Fui abordado pela Fundação Anne Frank na Basileia. Eles entenderam a importância de criar a história em quadrinhos através dos olhos de um cineasta. E também estamos trabalhando em um filme de animação, que deve ficar pronto em cerca de dois anos.

Qual é o objetivo de fazer uma versão em quadrinhos do diário?

Ari: Com a diminuição do número de crianças que leem hoje em dia, é essencial que essa história continue a ser contada, de maneiras diferentes. O Diário de Anne Frank em quadrinhos é uma solução perfeita para a próxima geração, porque é lindo de olhar e ainda retrata a história de Anne Frank, mas adaptada às crianças de hoje. Para atingir também os leitores do diário, foi preciso encontrar uma linguagem que não fizesse concessões ao texto original. Foi o que tentamos alcançar.

Vocês dois já trabalharam em conjunto em dois filmes de animação com histórias complexas para adultos, “Valsa com Bashir” e “O congresso futurista”. O Diário de Anne Frank em quadrinhos é voltado para crianças e adolescentes. Como vocês encontraram a linguagem correta, tanto nas palavras quanto nas ilustrações?

David Polonsky: Eu ilustrei livros infantis durante anos, e até mesmo livro para públicos ainda mais jovens. Não é preciso estar num estado de espírito específico. O principal é que você esteja interessado no assunto, e a única limitação é tentar imaginar o que crianças e adolescentes conseguem ou não conseguem entender por causa de sua falta de experiência de vida. Este é o único critério. Em qualquer trabalho artístico, a primeira coisa é tentar fazê-lo interessante para você mesmo, e esperar que o público goste também. E, se o público é mais jovem, isso não vai ser tão diferente.

O Diário de Anne Frank é um documento, e não um romance. Como vocês lidaram com isso e conseguiram não se afastar muito do texto original, mesmo sabendo que um livro em quadrinhos precisaria de mais fantasia, comédia e emoções?

Ari: Bom, eu tentei não me reprimir muito porque contava com o David, e sabia que ele iria me refrear. Eu trabalhei neste projeto por muitos anos, e tentei incontáveis vezes entrar na cabeça de Anne Frank. Acho que seu grande poder foi conseguir observar o mundo dos adultos à sua volta, porque ela não teve um processo natural de amadurecimento enquanto se escondia. As únicas pessoas a quem ela poderia se referir eram as que estavam no esconderijo com ela, e a forma com que ela as observava era incrivelmente inteligente e, de certa forma, engraçada. Eu quis honrar as partes engraçadas de sua escrita, suas observações, e colocá-las o máximo possível numa linguagem gráfica. Eu preciso olhar o texto como um registro diário escrito por uma menina altamente talentosa. Tentei ao máximo me desconectar da questão que é lidar com O Diário de Anne Frank, porque acho que quanto mais assustado pela “iconização” do texto, mais paralisado você fica. E não gosto de me sentir paralisado quando estou fazendo algo. Eu gosto da liberdade, e eu tomei essa liberdade, e contei com o David e com todo o grupo para me corrigir quando fosse necessário. Foi por isso que tivemos muitas discussões sobre o texto no grupo de editores. Também fizemos muitas pesquisas para achar as melhores soluções para os problemas que encontrávamos.

David: Nós tentamos trazer esse documento à vida e mostrar a qualidade que havia nele. O diário, enquanto livro, está vivo, tem muito humor, e estará lá pra sempre. Não vai desaparecer e não vai ser substituído. É um lindo trabalho feito por uma linda pessoa. Nós pensamos em algo como uma homenagem; estamos recontando a história dela e, como homens adultos em Tel Aviv, não estamos tentando fingir ser uma garotinha de 12 anos se escondendo na Holanda. Isso não seria sincero, não estamos tentando falar com a voz dela. Isso seria impossível. O que podemos fazer é adotar sua abordagem, o que pra mim é o fato de ela usar humor e observação nas piores condições que você puder imaginar.  O melhor que podemos fazer é continuar com esse espírito e tratar o trabalho como uma obra de arte. E não tenho medo de dizer que também deve ser um pouquinho de entretenimento. Além disso, mostramos bastante do contexto histórico no qual o diário foi criado.

Como Ari mencionou, é preciso esquecer a “iconização” de Anne Frank. Portanto, parte do processo é ter que cruzar alguns limites. Como vocês estabeleceram os limites para si mesmos?

Ari: Muito da história em quadrinhos depende de como você retrata as coisas. Por exemplo, no caso do trecho em que ela escreve sobre Hans van Daan e seu conhecimento sobre produção de linguiças. Devem ser apenas umas quatro frases no diário, mas nós transformamos num trecho realmente divertido, grande, bem colorido e bonito de olhar. Imediatamente achei que precisávamos colocar isso na história em quadrinhos, porque se você lesse apenas no diário, seria só mais uma anotação. Grande parte do trabalho é ler o diário com muito cuidado e imaginar não apenas o que é importante que esteja nos quadrinhos mas também o que funcionaria bem nesta linguagem, com ilustrações. Às vezes são escolhas difíceis, porque quanto mais você avança no diário, ele se transforma em não apenas uma história contada, e mais em reflexões de uma adolescente com todos os conflitos da idade, como se apaixonar por exemplo, e menos sobre as coisas do cotidiano.

Ari, seus pais passaram por campos de concentração e viveram o Holocausto. Pessoalmente, você teve uma experiência existencial durante a Guerra do Líbano, com a qual você lidou no filme “Valsa com Bashir”. Isso tudo influenciou sua abordagem do Diário?

Ari: Essa é uma pergunta difícil. Acho que na minha família, o Holocausto é uma questão religiosa, está no nosso DNA. É algo que motiva nossa família desde que eu e minhas irmãs nascemos, e consigo ver isso na próxima geração, nos meus sobrinhos. Tudo que é ligado a isso imediatamente se transforma numa missão. Portanto, não é um trabalho, é uma missão, criar esse diário em quadrinhos. As crianças vão ler, e mais gente vai conhecer a história. Ponto final. É disso que se trata. O mesmo vale para o filme. Mesmo com todos os problemas que enfrentamos fazendo o filme, não é algo de que eu possa desistir porque é minha missão, eu tenho que fazer. Às vezes pode ser um fardo também. Mas, por outro lado, acredito realmente que este tipo de trabalho artístico traz benefícios para o mundo.

E quais foram sua experiência e sua abordagem neste sentido, David?

David: O meu ângulo é um pouco diferente, porque ninguém na minha família mais próxima sofreu no Holocausto. Eles estavam na URSS e escaparam. Para mim, é mais algo cultural e vivendo em Israel, é muito fácil exagerar. Lembro da primeira conversa que tive com Ari, quando ele me falou que a Fundação Anne Frank o havia procurado para fazer algo com o diário. Minha resposta imediata foi: “Claro que não”. Só depois de uma longa discussão é que decidimos fazer. O “claro que não” foi porque tudo já foi feito com esse diário. Já foi usado, para o bem e para o mal, politicamente, para provocar sentimento de pena no mundo, e é muito fácil cair em armadilhas. Mas, por outro lado, também foi por isso que quisemos fazer. É um imenso desafio e responsabilidade fazer do jeito certo, e alguém precisava fazê-lo. Tentamos fazer de forma correta, e espero que tenhamos conseguido evitar fazer parte dessa “indústria do Holocausto”.

O livro vai ser publicado em diferentes partes do mundo, e faz diferença se é um americano ou um israelense que está lendo. Vocês consideraram o público potencial ao produzir o livro?

Ari: Eu pensei no público o tempo inteiro, pensei nas crianças lendo, se elas iriam ou não entender algumas coisas.  Consultei David e outras pessoas a respeito de diversos aspectos. Por exemplo: Stalingrado. Para nós era um assunto óbvio, nós sabemos o quanto a batalha foi importante e um ponto de virada na Segunda Guerra Mundial. Mas os jovens de 13 anos de hoje em dia talvez não saibam. Então a gente devia explicar, ou devíamos contar com os pais e os professores para explicar? Ou quando dizemos que os trens estavam indo “para o leste” – é apenas uma metáfora ou tínhamos que mostrar um mapa explicando que os campos ficavam realmente no leste?

Ou até mais simples: seria necessário explicar o que é uma família judia? Ou o que é o Holocausto?

Ari: Acho que o livro conta a história por si só, e que não são necessárias explicações. Se isso não está claro nas 160 páginas do livro, nós claramente não fizemos nosso trabalho. Anne conta a história de forma muito clara, nós somos apenas os tradutores.

Com toda a situação dos refugiados na Europa Ocidental, o diário pode ganhar um novo significado. Foi importante para vocês lidar com questões contemporâneas no livro?

Ari: Eu uso bastante a contemporaneidade no filme. Mas no livro, nós tivemos que seguir o texto original. Eu poderia dizer muito sobre os significados do diário para o que está acontecendo no mundo hoje, mas é tão óbvio que não quero falar sobre isso – seria um clichê total. É claro que o livro se reflete nas nossas vidas hoje em dia, em todos os aspectos que eu possa imaginar, e claro, com o que está ocorrendo com os refugiados na Europa. Mas o que posso dizer? É apenas óbvio!

David: Acho que o motivo pelo qual o diário original de Anne Frank repercute tanto com as pessoas é porque ele é muito específico. Ele é a história de uma menina. Eu sei que ele termina com uma declaração sobre toda a humanidade, mas não é por isso que as pessoas leem. Ser humano é exatamente isso, é muito específico. É uma história sobre uma pessoa, e cada imigrante tem uma história também.

O diário foi publicado pela primeira vez 70 anos atrás, e o diário em quadrinhos será publicado agora, no ano de aniversário. De certa forma, vocês serão parte da popularização de Anne Frank e da história do Holocausto. Como se sentem sobre isso?

Ari: Quando David usou o termo “indústria do Holocausto”, acho que ele quis falar sobre o mau uso e a exploração da história do Holocausto para justificar várias coisas sendo feitas hoje. Não é sobre o uso cultural ou artístico, mas sobre o uso político. No nosso país [Israel], é um processo destrutivo. Usar o termo “Holocausto” para incutir medo e oprimir outras minorias é muito comum, e já acontece há pelo menos 50 anos. Mas, no que diz respeito à arte, todas as formas de contar essa história definitivamente são bem-vindas. Acho que esse trabalho é exatamente o oposto: estamos tentando manter vivo um importante documento histórico para a próxima geração, sem fazer parte da “indústria do Holocausto”.

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