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Débora Thomé apresenta as “50 brasileiras” em Nova York

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As pessoas costumam dizer que Nova York, a cidade onde vim morar, é um “melting pot”, ou seja, uma mistura só, um lugar onde vêm parar todos os tipos de pessoas. Taí uma verdade, e atualmente um dos tipos de pessoas deste caldeirão sou eu, uma escritora cuja língua de origem e de trabalho é o português. Como o livro “50 Brasileiras Incríveis para conhecer antes de crescer” foi lançado quando eu já estava estudando aqui, uma das ideias era fazer um evento também em NY. Mas cadê que alguma livraria aceita lançamento em português? Em espanhol, tem quase todos os dias, mas em português… É uma raridade. Assim como são raríssimos os exemplares de autores brasileiros nas estantes.

A questão da língua, sem dúvida, acaba nos afastando dos nossos vizinhos. Um livro publicado na Colômbia pode ser lido a tempo no México ou na Argentina. E vice-versa. Assim, eles acabam conhecendo e trocando quase toda sua produção artística, seja a musical, mas muito também das referências literárias. Por outro lado, pouco sabem do que é feito no Brasil, menos ainda, pelas brasileiras.

Como, mesmo no tal melting pot, ia ficar difícil mudar sozinha esta realidade, acabei participando de um evento para o qual fui convidada; uma apresentação coletiva de autoras e artistas hispânicas. Éramos sete de diferentes países, entre eles, Colômbia, Equador, Honduras e Chile. Algumas trouxeram poesias, outras, performances. Para apresentar as 50 brasileiras incríveis, verti para o espanhol o trecho que contava a história de Clarice Lispector, cujo ofício era o mesmo que o nosso. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, na plateia de umas 35 pessoas interessadas em poesia e literatura latina, apenas eu e mais duas pessoas conhecíamos Clarice? Carolina Maria de Jesus, então, era uma ilustre desconhecida. O que fazia de mim, portanto, uma das primeiras autoras brasileiras conhecidas para aquela audiência.

A livraria Word Up, que nos acolheu é – inacreditavelmente – uma livraria comunitária, de bairro, com funcionários voluntários, daquelas que estão sumindo dos Estados Unidos e do mundo. Antes de começar, fiz a minha expedição às estantes. Dos brasileiros, apenas encontrei Jorge Amado e, claro, o onipresente Paulo Coelho.

Apresentar Clarice em uma tradução de última hora foi um desafio, afinal, descobri seu ineditismo no momento em que cheguei ao microfone. Justo ela, tão profundamente impactante para nós. Após ler os trechos em espanhol, pedi para lê-los também em português, e a sonoridade da língua, da língua original do livro, foi o que acabou conectando as pessoas à história que eu contava (certa feita, ouvi um trecho inteiro em hebraico, que não entendo, e fiquei muito mais comovida que quando li a tradução; às vezes, acontece).

Fiz a piada de sempre: que as ilustrações fazem com que o 50 Brasileiras seja certamente o livro de visibilidade de mulheres mais bonito do mundo. Todas concordaram e foram, aos poucos, folheando e descobrindo tantas mulheres cujas histórias lhes eram desconhecidas. O exemplo dessas brasileiras, mesmo contado em português, acabou despertando a chama: afinal, quem são as grandes colombianas? E as peruanas? E as chilenas?

Acho que dessas descobertas, desses reconhecimentos, desses encontros nas diferenças, também disso se trata a literatura.

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