Entrevistas

“Sonata em Auschwitz”, de Luize Valente

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Por Olga de Melo

Famílias têm casas invadidas, são obrigadas a deixar tudo para trás, fugindo da perseguição e violência, sendo observadas por uma parcela da sociedade indiferente ao sofrimento alheio. Para a escritora Luize Valente, a realidade das populações urbanas que vivem em favelas brasileiras é muito semelhante ao que aconteceu com judeus na Segunda Guerra Mundial. Seu novo romance, Sonata em Auschwitz, é o terceiro a falar sobre temas judaicos, que a interessam, embora ela própria jamais tenha professado a religião ou as tradições culturais do bisavô paterno, judeu, que emigrou para o Brasil. “Minha formação foi católica, mas acabei pesquisando a perseguição aos judeus pela Inquisição e cheguei ao Holocausto. Hoje, vendo prisões injustificáveis de moradores das comunidades brasileiras, que têm de obedecer a toque de recolher decretado por traficantes, que não podem voltar para a casa devido aos conflitos por pontos de tráfico ou combates entre marginais e policiais, qualquer um identifica o que aconteceu aos judeus com a vida na atualidade”, diz Luize.

Sonata em Auschwitz traça tramas paralelas em épocas e cenários distintos, protagonizadas por personagens interligados na busca de desvendar segredos do passado. Partindo da saga de um jovem oficial alemão para salvar da morte um bebê judeu nascido no campo de concentração de Auschwitz-Bierkenau, Luize chega às descobertas da jovem portuguesa Amália, que decide conhecer a verdade sobre suas origens, que o próprio pai renegou. A inspiração veio quando Luize conheceu uma sobrevivente do campo de concentração, como ela conta nesta entrevista.

 

Como surgiu Sonata em Auschwitz?

Em 2015, conheci Maria Yefremov, sobrevivente do Holocausto, já com mais de 100 anos de vida e lúcida, que deu à luz uma menina, no chão de um barracão imundo em Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. O bebê lhe foi tirado imediatamente depois do parto. Dona Maria nunca mais viu ou ouvir falar da filha. Na minha história, um bebê nascido em Auschwitz é resgatado por um oficial alemão.

 

Como foi a pesquisa para o livro?

 Durante quinze meses mergulhei numa intensa pesquisa que se juntou a estudos que já faço há anos sobre a ascensão do nazismo e Holocausto. Entrevistei sobreviventes, li muito a respeito e saí em campo para trilhar os mesmos caminhos dos personagens. Estive em Portugal, Alemanha, Polônia, me hospedei na cidade vizinha a Auschwitz, visitando o campo e arredores por vários dias. Os personagens são fictícios, mas as histórias que eles viveram foram bem reais.

 

A personagem Adele se declara “primeiro alemã, depois judia”. Você vê o judeu brasileiro integrado à nacionalidade brasileira, observando a origem judaica mais como um traço cultural?

No caso do Brasil, particularmente, sim, acho que existe esta integração. Temos uma forte raiz judaica, herança da colonização portuguesa. Afinal, o Brasil é um país de cristãos novos, descendentes de judeus forçados à conversão pela Inquisição, que foi instaurada na mesma época do Descobrimento. Também somos um povo onde a religião transita! Aqui todo mundo tem mais de uma crença, embora nesses últimos tempos estejamos vivenciando uma certa patrulha religiosa. O brasileiro tem a herança judaica,dissociada da religião, incorporada a hábitos e tradições culturais, principalmente no Nordeste. Não é à toa que existe um forte movimento de retorno ao judaísmo por parte de muitos descendentes de cristãos novos que hoje  vivenciam esta herança de forma consciente.

 

O pai da protagonista renega suas origens por acreditar que a família, alemã, era nazista. Você conheceu descendentes de alemães que  rejeitaram seu grupo familiar por causa do nazismo?

Pessoalmente, não. Mas pesquisei e encontrei muitos depoimentos de descendentes de nazistas que, ao saberem deste passado da família, tornaram-se ativistas no combate ao antissemistismo. A Alemanha, como país, faz um trabalho educacional seríssimo neste sentido, mostrando as atrocidades cometidas durante o nazismo. No entanto, existem muitos descendentes que veneram seus antepassados e Hitler.  Movimentos neonazistas são uma realidade não só na Alemanha, como em vários países na  Europa  e outros continentes, e crescem junto com a xenofobia.  Eu diria que a Alemanha é um dos países menos antissemitas no mundo. Quanto a outros países vizinhos, que também perseguiram covardemente os judeus, não posso dizer o mesmo.

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