Entrevistas

“A casa inventada”, de Lya Luft

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Por Juliana Krapp

Capítulo a capítulo, os cômodos de uma casa ganham vida. A porta de espiar, a sala da família, o porão das aflições, o pátio cotidiano. Cada espaço revela suas ambiguidades e seus mistérios, desvelando “clarões de ternura e riso” nos desvãos da memória. No espelho, Pandora sacode os cabelos e devolve as indagações da menina que, em pleno espanto, investiga o que move as pessoas e a arquitetura ao redor.

Em A casa inventada, Lya Luft se confronta, mais uma vez, com os temas que marcam sua carreira de mais de 50 anos na literatura. As contradições da vida humana, a infância e a morte, a família como motor de liberdade e de opressão. O espaço da casa, cotidiano, cresce com as metamorfoses secretas de quem o habita. É, como a caixa guardada pela personagem mitológica, um repositório de desejos, euforias, alegrias e sombras. Ao abri-la, Lya Luft mostra, mais uma vez, sua habilidade em construir uma prosa poética desconcertante, singular.

 

Neste novo livro, a senhora afirma não fazer autobiografia, tampouco falar só em terceira pessoa. Em vez disso, lida com ‘lembranças, incertezas, coisas que flutuam como destroços num mar revolvido pelas correntes da ficção’. Como alcançou e trabalhou esses destroços, para compor A casa inventada?

As ideias e emoções estão sempre dentro de mim, de nós. Basta abrir espaços de silêncio, de liberdade, para que essas coisas emerjam quando se tem o dom ou a profissão de escrever, de criar com palavras. Geralmente as ideias me assediam meses, às vezes anos a fio, até que, atraídas por algum objetivo, como inventar essa Casa, se manifestam. Cada escritor tem lá seu jeito.

O que é, para a senhora, uma casa?   

Tudo. Quase tudo. Conforto, orientação, sentido, raiz. Sempre tive alguma casa (pode ser, como agora, um apartamento), que sinto que é meu ninho, minha caverna boa, onde me sinto bem e recebo amigos e família com tranquilidade. Talvez a importância de uma casa seja a medida de minha insegurança ou vulnerabilidade, quem sabe? Assim como acho que de certa forma inventamos, criamos a nossa casa com seu aconchego ou frieza, seu regaço ou impessoalidade, penso que vamos até certo ponto criando a casa da nossa vida. Com  tropeços, grandes pedras, terremotos, mas também pequenos paraísos. E, como escrevi, nessa tarefa não somos arquitetos, pedreiros: somos amadores.

Memória, família, reflexões sobre a ambiguidade humana e sobre a morte são temas recorrentes em sua obra, que retornam neste novo título. Como é o seu convívio com essa matéria-prima que parece sempre à espreita? O quanto, no interior de tal temática, ainda surge o espanto e a reinvenção de si?

Cada artista, pintor, escritor, tem seus temas predominantes. O meu é sempre a família, os laços pessoais, a estranha alma humana. E eu respeito isso. Acho que viver, acordar cada dia, é espanto e reinvenção de si. Claro que não de maneira expressa, mas sutil e subliminar, ou morreríamos logo. Por isso a vida é interessante, difícil e fascinante. Porque precisamos intervir, agir, não nos deixar levar como folhas mortas num rio.

Vários poemas se integram ao corpo de A casa inventada. Qual sua relação, hoje, com a poesia?

Comecei, em 1964, com um livrinho de poemas, Canções de Limiar. Nunca deixei de fazer poesia, como em Para Não Dizer Adeus. Com o tempo, gostei de começar capítulos de ficção ou ensaio com um poema, em geral escrito sobre aquele tema, ainda que não na mesma hora. Sempre espontâneo. Faço isso habitualmente, porque gosto, é um jeito meu. Para o próximo ano preparo uma coletânea de poemas meus: ou de outros livros, ou “perdidos” em livros em prosa.

E com o trabalho em geral? A senhora tem um cotidiano muito produtivo. Escreve uma coluna no jornal Zero Hora, continua criando livros como este novo romance, pinta em seu ateliê. O que lhe dá mais prazer, hoje?

Viver me dá prazer. Estar com pessoas queridas, família, amigos, parceiro. Ficar quieta em casa, olhando a paisagem, lendo, ouvindo música, pensando, às vezes pintando no meu atelier aqui na cobertura (sou bem amadora nisso). Escutar a chuva. Por aí…

A senhora ainda gosta do silêncio? Como preservar esse dom – o apreço ao silêncio – em tempos como o nosso, de tamanha algaravia? 

Se houver muito barulho em torno, posso criar meu silêncio interior. Isso me ensinou há décadas o poeta Mario Quintana, que trabalhava numa redação de jornal na época das barulhentas máquinas de escrever, todos conversando etc. E ele me disse isso: “Aqui dentro posso fazer tudo ficar quieto”. Depende de cada um, mais uma vez. Mas em geral minha casa é bastante silenciosa, embora com gente, conversas, risos, música. Tudo sem exageros. Natural.

São mais de 50 anos de carreira. O que a move a escrever, hoje, é diferente do que a movia em 1964, quando estreou com Canções do Limiar?

No começo, muita insegurança, medo, dúvidas. Hoje, tudo muito mais natural, escrevo como respiro, e fico feliz quando escrevo. Mas, claro, [tenho] terror de lançamentos e noites de autógrafo, pois apesar do imenso carinho dos leitores em todos esses anos, minha neurose me faz sempre achar que vou estar sozinha.

Pandora ainda existe? E Penélope?

Elas e muitas mais: as da minha fantasia, sempre cheia de criaturas belas ou sinistras, boas ou ferozes. É assim. E a vida me ensinou que a realidade não é muito real. Que o simbólico e o imaginário são também muito reais…

Comentários
  • Safira Campos

    Parabéns à jornalista pela ótima entrevista!! :)

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