Entrevistas

“O abridor de letras”, de João Meirelles Filho

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A vivência de 40 anos na Amazônia sempre fez com que João Meirelles Filho buscasse a fronteira entre o real e o imaginário. Escritor e empreendedor social há 30 anos, ele é autor de diversos livros de não-ficção sobre a floresta amazônica. Este ano ele estreou na ficção e conquistou o Prêmio SESC de Literatura com o livro “O abridor de letras”, que explora o universo da Amazônia Oriental, do Pará, do Maranhão e de Belém, onde vive há 13 anos.

 Você tem muitos trabalhos de não-ficção relacionados à causa ambiental, tema  recorrente nos contos de “O abridor de letras”. Como foi a experiência de abordar essas questões na ficção?

 Nem tudo se resume a questões ambientais. Alguns livros, como aqueles sobre “Grandes Expedições à Amazônia Brasileira” querem resgatar outras visões sobre a formação do Brasil, não necessariamente a vencedora ou a oficial. O que sempre procuro é a explicação, explicar a Amazônia de uma maneira respeitosa, uma introdução. E há claro, uma causa cultural maior, que a não-ficção é incapaz de lidar. Muitas das questões socioambientais são desinteressantes à maioria, a ficção permite uma abordagem intimista e, quem sabe, mais persuasiva e que raramente procura encerrar problemáticas tão complexas. Há poucas coisas tão chatas como discutir mudanças climáticas ou desmatamento… Mas, de fato, isto não é pensado, calculado, é apenas uma leitura do que escrevi…
Trapiche. Nossa! Achava lindo, aquela palavra se acompridando pra dentro d’água e na boca- tra-pi-cheee. Muxoxo, outra que se deliciava com o biquinho que a boca formava. Tinha vontade de se empanzinar com um cardume de muxoxos como se fossem doces recheados de creme. Maxixe, calafate. Misterioso este calafate, parece coisa muito antiga. E é, soube, das profissões mais antigas deste mundo. Abridor de letras, isso era o paraíso das palavras. Estes abridores de letras também abriam palavras?  Abriam frases? Abriam livros? Ai, que lindo.

  O linguajar caboclo, o encantamento pelas palavras e pelas tradições locais aparecem muito nas suas histórias, assim como um contraste entre o urbano e o rural. Como sua vivência de 40 anos na Amazônia influencia suas narrativas?

A Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, estes biomas dos brasis interiores são os cadinhos em que se enformam as linguagens que procuro explorar. Não há fronteiras entre eles, são um todo. E, não se trata de regionalismo, pois não é um arraigamento passadista. Seria, quem sabe, uma outra leitura, com menos compromisso de ser fiel ao falar local ou a reproduzir o que se contenta como folclórico. Há algo genérico no sertão interior, onde as palavras se tornam mais inquiridoras à medida que avançam rios e serras adentro, em novos contatos com outras paisagens culturais. Eu diria que o escritor aí é mais um garimpeiro do bem, que se contenta com um verbo dilatado e bem pousado numa frase inesperada.

A Chapada dos Veadeiros, que é citada em um dos contos, acabou de ser vítima do maior incêndio de sua história. Como o movimento ambientalista recebeu essa notícia e o que há em jogo em ataques como esse?

De um lado há o fogo essencial à manutenção da biodiversidade do Cerrado, ao seu processo de evolução e revigoramento e, necessário. De outra, esta pressa inexplicável em apossar-se de tudo que vemos como útil, cercar com arame farpado, sinalizar – é meu! O fogo é apenas o sintoma, como se ao medir a febre do doente, apenas constatássemos – sim, tu tens febre! O fogo é um verdadeiro Auto-de-Fé, destrói-se a biblioteca e o conhecimento que nela se extingue, sem jamais ser codificado. É tanta a pressa que os códigos da vida não são compreendidos. Mas é o nosso consumo desesperado, por mais carne, carne bovina, que destrói o Cerrado, a voracidade por exportar mais e mais soja (para alimentar os porquinhos e galinhinhas da China) é o que queremos. A piromania expressa na Chapada dos Veadeiros é a expressão de nossa incivilidade. O que posso prever a partir da piromancia a que somos expostos (e nela nos queimamos), é a perda da identidade, da história, das narrativas, das palavras lavradas no Cerrado – estamos construindo um país oco por dentro. Sem sertão, sem respeito a grupos originais, aos povos e comunidades tradicionais, seremos iguais a um deserto, uma carcaça inútil.

O Instituto Peabiru, que você dirige, fechou recentemente uma parceria com a ONU. Quais são os principais objetivos dessa cooperação?

Em verdade, vimos cooperando com a Unicef por pelo menos três anos. Em diferentes momentos vencemos editais da Unesco (Criança Esperança, com a Rede Globo) e do PNUD. A agenda da ONU, principalmente a da Unicef, em prol dos direitos de Crianças e Adolescentes é crítica para a Amazônia. Daí a prioridade desta Agência para a região. A Amazônia não é apenas o lugar da não-lei, onde a violência é tão brutal que está mais próxima da ficção, é onde estamos desaprendendo, é onde cremos que tudo podemos, que as riquezas são infinitas, é o Brasil das brasas eternas. É onde o trabalho infantil cresce, onde a escola não ensina, somos tolerantes com coisas inadmissíveis porque não queremos tratar delas.
Voltando aos livros, você tem novos projetos em andamento? Pode adiantar o que vem por aí?

Sim, absolutamente. Há um conjunto de contos que surgem no cardume que migra para as páginas escritas. Seria possível dizer que haveria um segundo livro de contos. A questão é apaziguá-los para que, reunidos, sintam-se como um corpo coeso. O que sucede é que sempre tentei escrever ficção e nunca fui bem sucedido. O Prêmio SESC foi um enorme estímulo. Primeiro, porque nunca participara de prêmio algum e, assim ele  me diz com todas as letras –  vai, siga adiante –; e, depois, porque as narrativas estão surgindo à medida que deixo a porteira aberta… A questão é conciliar o ser escritor ao ser ativista social e, pra isto, muita disciplina …

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