Entrevistas

“Última hora”, de José Almeida Júnior

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Marcos é um jornalista que mal recebe pagamento pelo seu trabalho num jornal ligado ao Partido Comunista. Mas ele é militante, está lá pela causa. A instabilidade financeira, no entanto, abala a sua vida familiar e sua relação com a mulher e o filho adolescente. Por isso, movido pela vontade de acertar as contas em casa, ele acaba aceitando um convite irrecusável: trabalhar na Última Hora, jornal que está sendo criado por Samuel Wainer, experiente jornalista, o primeiro a noticiar a volta de Getúlio Vargas, então recluso no Sul, à política. É com o apoio do presidente eleito, que comandou a ditadura do Estado Novo anos antes, que o novo jornal se erguerá. Esse é um dos dilemas de Marcos, que foi preso e torturado pela polícia de Getúlio: trabalhar, ainda que indiretamente, para seu ex-inimigo.

Em “Última Hora”, o escritor José Almeida Júnior, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2017, reconstrói um dos períodos mais importantes da história do país. No livro, Almeida Júnior escreve sobre uma das maiores batalhas da imprensa na época, a de Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, e Wainer. Com o apoio da cadeia de jornais e rádios de Assis Chateaubriand, o Chatô, e de outros magnatas das comunicações, como Roberto Marinho, Lacerda perseguiu o dono da Última Hora até o desfecho final da crise, com o suicídio do presidente. Marcos, que ora se alia a Wainer ora ajuda Lacerda, é o contraponto entre esses personagens tão complexos. “Procurei encontrar as contradições em Wainer e Lacerda e explorá-las no ponto de vista de Marcos”, diz o autor.

Nelson Rodrigues, que criou na Última Hora, com o apoio de Wainer, a famosa coluna “A vida como ela é”, também é personagem do livro, um mergulho na capital do Brasil dos anos 1950. Com uma trama envolvente, que inclui histórias de tortura, militância, delação, justiçamento e um combate conservador à corrupção, “Última hora” guarda muitas relações com o a história atual do país.

É o seu primeiro livro publicado? Como você recebeu a notícia de que era o vencedor da categoria romance do Prêmio Sesc de Literatura?

Última Hora é meu primeiro livro publicado. Um dos requisitos para o concurso é ser inédito no gênero em que concorrer. Quando recebi a ligação de Henrique Rodrigues, organizador do Prêmio Sesc, fiquei surpreso. Pela relevância do prêmio, achava algo inatingível. Depois que digeri a notícia, percebi que o prêmio Sesc era maior do que eu imaginava. Tive uma assessoria de imprensa, uma série de entrevistas e participação em eventos. Além de possibilitar a publicação do primeiro livro num grande grupo editorial como o Record.

Você é formado em Direito e atua como defensor público. Como foi a ideia de escrever o romance e situá-lo, principalmente, na redação da Última hora?

Minha área profissional é o Direito. Mas sempre tive duas outras grandes paixões: História e Literatura. Getúlio Vargas lançou as bases do trabalhismo brasileiro e influenciou o pensamento de esquerda de políticos como Jango, Brizola e Lula. Por outro lado, Vargas perseguiu comunistas e implantou uma ditadura violenta durante o Estado Novo. Tive a curiosidade de compreender o comportamento dos comunistas, que haviam sido perseguidos no Estado Novo, durante o governo democrático Vargas do início dos anos 50. Pesquisando o período, descobri que Samuel Wainer captou alguns comunistas para trabalhar na Última Hora, jornal criado para apoiar Getúlio Vargas. Era o personagem que eu estava procurando: um comunista torturado pela ditadura Vargas que foi trabalhar no jornal que iria apoiá-lo. Daí nasceu Marcos, o protagonista do romance.

Há duas boas fontes primárias a se recorrer quando o assunto é Samuel Wainer e Carlos Lacerda, os livros de memórias dos dois. No seu livro, tanto eles quanto o protagonista e os outros personagens, como Nelson Rodrigues, ganharam contornos complexos. Não há mocinho ou bandido na história, embora o leitor possa se situar de um lado ou de outro, de acordo com as ideias defendidas por cada um. Como foi trabalhar com esse desafio de escrever sobre pessoas já tão conhecidas – e amadas ou odiadas na mesma proporção?

Para mim, o principal desafio foi lidar com Carlos Lacerda como personagem. Em vez de julgar Lacerda, com seu estilo verborrágico e a pecha de “demolidor de presidentes”, tentei entender por que ele agia daquela forma. Samuel Wainer, por outro lado, era em geral muito querido pelas pessoas que trabalhavam na Última Hora. Marcos, o protagonista do romance, como funcionário de Wainer, em tese, deveria ter uma admiração pelo patrão e odiar Carlos Lacerda. Mas esses sentimentos já foram expressos em memórias publicadas por personagens reais que trabalharam na Última Hora. Procurei encontrar as contradições em Wainer e Lacerda e explorá-las no ponto de vista de Marcos. No decorrer do romance, Marcos se aproxima de Wainer e de Lacerda, conforme seus interesses.

A grande peleja entre Samuel Wainer, da Última hora, e Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, foi também, em grande medida, a disputa entre o legado trabalhista de Getúlio Vargas e a força liberal e conservadora da UDN, da qual Lacerda era o maior expoente. Quais as semelhanças que você vê com o Brasil de hoje, em que a esquerda tenta defender o legado dos anos do PT no governo e as forças conservadoras, também utilizando o discurso anticorrupção, querem retomar o poder de vez?

Escrevi as cenas do livro em que Getúlio Vargas passava por uma crise institucional que culminou com seu suicídio, no momento em que tramitava o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Alguns comparam o que aconteceu no Brasil em 2016 ao golpe de 1964. Mas acho que 2016 se assemelha mais a 1954. Em 1964, o principal discurso foi o do combate ao comunismo, embora também se falasse em corrupção. Em 1954, o discurso anticorrupção foi o eixo principal para a derrubada de Getúlio Vargas. Após o atentado contra Carlos Lacerda na rua Tonelero, a crise se aprofundou e um sistema de justiça foi montado pela Aeronáutica para apurar os crimes. Com o apoio da grande imprensa, a investigação começou a atropelar procedimentos legais, o que ficou conhecido como República do Galeão. Não à toa, em 2016, falou-se em República de Curitiba. Ao final das investigações, descobriu-se que, após 19 anos comandando o Brasil, Getúlio Vargas não havia se enriquecido às custas do dinheiro público. Deixou para a família apenas um apartamento no Rio de Janeiro e umas terras em São Borja recebidas de herança de seu pai.

A tortura e a delação sempre foram temas de culpas e muitos debates entre os que combateram ditaduras, tanto a do Estado Novo quanto a dos militares a partir de 1964. No livro, você vai e volta ao passado e revela, aos poucos, a relação dos personagens com o tema. E, quando o leitor acha que compreendeu o presente deles a partir das revelações do passado, você o surpreende mais uma vez, mostrando a complexidade das relações humanas. Teme alguma crítica por essas passagens que tangenciam, ainda, a questão do aborto?

O assassinato de militantes de esquerda que delataram sob tortura os seus companheiros, chamado de justiçamento, talvez ainda seja um tema incômodo para parte da esquerda. Mas a literatura é um instrumento eficaz para tocar nessa ferida. Tentei compreender o sentimento daquele que delatou sob tortura, tendo que lidar com a culpa de ter entregado seus companheiros e, ao mesmo tempo, com o medo de ser vítima de um justiçamento. Quanto à hipótese de aborto tratado no livro, o caso não é punível desde o Código Penal de 1940. Mas, com a onda conservadora que vem tomando conta do país, não surpreenderia se houvesse alguma crítica nesse sentido. O escritor não deve se preocupar com críticas moralistas, senão a liberdade criativa ficará comprometida e o resultado não será bom.

Você disse, numa entrevista, que começou a escrever literatura há cinco anos, mas que só agora, com a publicação e o prêmio, se sente um escritor. Tem inéditos na gaveta? Como imagina a sua carreira literária daqui em diante?

Tenho um outro romance histórico na gaveta, que pretendo publicar no final de 2018 ou 2019, a depender do calendário da editora. E um livro infantil, gênero por que também sou aficionado. Sou um pouco metódico no meu processo criativo, costumo estabelecer prazos para pesquisa e metas de escrita semanais. Gostaria de escrever um romance a cada dois ou três anos e alguns infantis no período. Mas sei que vai depender também da receptividade dos leitores e do mercado editorial.

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