Entrevistas

“Um cheiro de amor”, de Maria Christina Lins do Rego Veras

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A carreira literária de Maria Christina Lins do Rego Veras começou há cerca de quinze anos, quando, em visita à praia Formosa, em João Pessoa, começou a escrever sobre as alterações do local, outrora ocupado por sítios com imensos coqueirais, entre eles a casa de seu avô, onde passava as férias, na infância. Mesclados às suas próprias recordações, os textos se transformaram no livro “Cartas para Alice”, publicado em 2003. Desde então, lançou mais três títulos e chega agora à coletânea de contos “Um cheiro de amor”, que traz pequenos recortes de situações imaginárias vividas por personagens que se encontram em diferentes épocas, por todo o planeta.

Filha do escritor José Lins do Rego, Maria Christina não teve qualquer incentivo do pai para seguir seu caminho. José Lins, ela lembra, “não gostava de mulheres intelectualizadas”, abrindo exceção apenas para as amigas Rachel de Queiroz, Lucia Miguel Pereira, Dinah Silveira de Queiroz e Adalgisa Nery. Em sua casa, convivia com os amigos escritores, que “falavam de tudo, menos de literatura: eram todos muito simples, não havia entre eles o pedantismo intelectual”. As experiências reais dessa embaixatriz, artista plástica e escritora servem como inspiração, mas suas histórias passam longe da realidade, afirma Maria Christina, que conta em entrevista como a literatura sempre esteve em sua vida.

Os contos em “Um cheiro de amor” têm ambientação totalmente urbana, a maioria deles no Rio de Janeiro. É uma “fuga” do regionalismo, segmento do qual seu pai foi um dos maiores representantes na literatura brasileira?

Não tenho aversão ao regionalismo, muito pelo contrário. Tanto que escrevi “Cartas para Alice”, que se passa inteiramente na Paraíba. A ambientação de “Um cheiro de amor” se passa nas vizinhanças de onde morei quando jovem.  Os meus textos não se prendem a locais específicos, eles acontecem onde têm que acontecer. Não pretendo imitar meu pai, isso nunca passou pela minha cabeça, eu simplesmente escrevo o que sinto, o que tenho vontade. Ainda jovem, tive contos publicados no jornal “Última Hora”, do Rio de Janeiro. Meus filhos achavam muita graça, e diziam que eu queria dar uma de José Lins do Rego. Para evitar comparações eu assinava como “Christina Cavalcanti”. Como não havia estímulo por parte da família, muito pelo contrário, acabei desistindo, ficando apenas com meus pequenos diários (que eu não levava muito avante). A escritora Christina Veras, sem o receio de usar o nome completo, surgiu depois que eu frequentei aulas de aprimoramento de estilo literário com o professor Ivan Cavalcante Proença.

Sua primeira expressão artística foi na pintura. Há alguma continuidade em suas narrativas pictóricas e literárias?

Não, sempre trabalhei essas duas artes de forma independente. Para mim uma não sobressai à outra. Escrevo quando tenho vontade e pinto quando tenho vontade.  Costumo escrever bem tarde da noite, durmo pensando nos meus personagens e, quando acordo, vou direto para o computador dar continuidade ao texto. Quando frequentava as aulas do professor Ivan, eu me sentia mais estimulada, chegava em casa e escrevia o que me vinha à cabeça, bastava me sentar à frente do computador e as palavras iam surgindo como mágica. A pintura sempre me atraiu. Comecei a aprender a desenhar com um grupo de diplomatas da embaixada do Brasil em Portugal. Alugava bustos de gesso e levava para casa para treinar desenho. Meu marido nunca me estimulou a pintar, fomos apenas assíduos companheiros de visitas a museus. Pintar me dá um grande prazer, principalmente quando frequentava o Parque Lage e tinha as minhas aulas com modelos vivos.

Seus protagonistas têm diferentes faixas etárias, alguns bem jovens, quase adolescentes, com uma linguagem bem contemporânea. A senhora se identifica com essa fase da vida, há alguma experiência pessoal entre os contos?

Para mim, escrever é muito estimulante, eu me sinto jovem quando escrevo os meus contos, isso facilita a minha narrativa de personagens jovens. Eu incorporo meus personagens e o texto surge naturalmente. Em “Um cheiro de amor”, somente o último conto, “Sirmione”, relata experiências pessoais.

Quais foram suas maiores influências como escritora? 

Não fui influenciada, pelo menos de forma consciente, por outros autores. Minha narrativa surge de forma espontânea, sem um planejamento prévio.  Gosto muito de autores russos, principalmente Tolstoi. Lia muito Machado de Assis, aconselhada por meu pai. Atualmente, sem falar nos brasileiros, gostei muito de “Stoner”, de John Williams, “O hotel na Place Vendôme”, de Tilar J.Mazzeo, que me fez fazer as pazes com Hemingway, “Enclausurado”, de Ian McEwan, e “Caderneta Vermelha” de Antoine Laurain.

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