Imortais da Record

Leia texto em homenagem a Nélida Piñon

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Em evento de celebração dos 80 anos de Nélida Piñon, na Casa de Rui Barbosa, a escritora Lucia Bettencourt foi convidada a ler um texto em homenagem à imortal. No escrito, que você confere a seguir, ela relata uma conversa imaginária que envolve personagens de ficção, títulos de obras e muita admiração pela escritora carioca.

 

Conversas a meia-voz

Por Lucia Bettencourt

Na noite em que recebi o convite para participar desta justa celebração em torno de Nélida Piñon, ainda no calor das coisas que pensava dizer, preparava-me para dormir quando escutei um barulho. Curiosa, fui investigar e, à luz difusa que entrava pelas janelas, divisei uma sombra, tateando seu caminho por entre a mobília.

– Não se assuste! Viemos procurá-la para participar da homenagem a quem sempre nos reverenciou – declarou.

Olhei em torno e percebi, espalhados pelos cantos escuros da sala, outros vultos. Aquele que me havia interpelado, um dos braços estendidos para frente, procurava um lugar onde acomodar-se. Por sua postura, supus que fosse cego, e adivinhei tratar-se de Homero.

Quis jogar-me a seus pés, mas o bardo censurou-me:

– Nada disso! Sente-se aí numa destas invenções modernas, enquanto me reclino aqui neste triclínio, a que chamam sofá.

Olhei à volta e constatei que o único vulto sentado, empunhando um livro, tinha aparência esquelética. A seus pés, escarrapachado, agarrado a um saco meio vazio, um homem gordo respirava pesadamente, como se estivesse cansado.

– Dom Quixote! Sancho! ­– Exclamei.

O fidalgo levantou-se numa mesura educada, agradecendo-me a acolhida no que ele chamou de minha “sala de armas”. Pedi-lhe que se pusesse a cômodo, o que fez, com algum estrépito ao derrubar, acidentalmente, a lança. Já o Sancho limitou-se a tentar levantar a pança, mas desistiu, e murmurou algo, que julguei ser um pedido de vinho.

Abri logo duas garrafas de tinto, servi uns queijos, e trouxe algumas tâmaras e nozes pois não era tempo das frutas.

Sherazade, reclinada sobre almofadas e tapetes, uma das pernas dobrada em posição encantadora, agradeceu-me os cuidados, com voz melodiosa.

–  Que Alá lhe multiplique as benesses! Certa vez, numa das viagens no navio de Simbad, – começou a contar –, encontrei a princesa Nélida cujo nome evoca o de seus antepassados, e parece perfumado pelos frutos das florestas célticas. Ficamos amigas, pois a princesa possui natural encanto, uma simpatia incomparável, que a faz bem-vinda em qualquer reino ou república dos sonhos. Muitas vezes a convido para dar um lustre nas lâmpadas mágicas, de onde saem as histórias maravilhosas que contamos. Conversamos muito, e cheguei a lhe fazer confidências! Imagine que esta princesa tomou, então, o encargo de fazer de mim, uma narradora, personagem de seu romance, Vozes do deserto. Mas foi discreta, e conservou o mistério com que gosto de me envolver. Em retribuição, ofereci-lhe uma lâmpada mágica.

Sherazade fez uma breve pausa, para adoçar seus lábios com uma tâmara, e Homero tomou a palavra mais uma vez.

– Nélida, a do sorriso amplo, é minha querida aprendiz. Também conversamos, nós dois! Tratamos de tudo, em especial da natureza humana. Fico admirado ao saber que, tantos séculos já passados, tendo a humanidade alcançado patamares científicos que nunca pude imaginar, o coração humano, andarilho ou não, ainda bate em ritmos primitivos. As pessoas continuam agindo como personagens de minhas rapsódias. Por falar em rapsódia, recentemente o Antonio Cícero, poeta dos olhos flamejantes, disse que esta tem um equivalente moderno, o rap.

Dom Quixote, que até então parecia alheio, mostrou que prestava atenção ao que estava sendo dito:

– Oh, Aedo! Peço-lhe que explique sua assertiva, pois, se me encontro muito bem familiarizado com as rapsódias narrando as aventuras de heróis tais como o poderoso Aquiles, o furioso Orlando e o puro Amadis, desconheço esse tal de rap, e ignoro se fala de heróis…

Homero condescendeu em explicar:

– Nas origens, os poemas eram sempre cantados, o ritmo ajudava a memorização, pois a escrita era prática rara. Eu mesmo, na Ilíada (segundo recordou-me outro dia o Veríssimo) refiro-me à escrita como “sinais mortíferos”, o que demonstra que, no meu tempo, tomavam-se aquelas marcas como um código sinistro. As palavras de vento, sopros que insuflam vida aos heróis, hoje sobrevivem, como lírica, nas canções, ou, como épica, nos rap, narrativas ritmadas, falando de cóleras de Aquiles sem nome nem linhagem, e de batalhas travadas em comunidades, entre grupos decididos a conquistar respeito e riquezas.

Não pude me impedir de sorrir, ao escutar, assim transmudada, essa guerra em que vivemos a vida de cada dia, entre perigos esforçados. Mas quem reagiu, animado, foi Sancho:

– Então, agora, as tais rapsódias e novelas têm histórias de gente comum? Terá chegado, enfim, o dia dos escudeiros como eu, para quem a felicidade escassa consiste em não levar imerecidas pancadas, e encher a boca de pão e as ideias de vinho? Pois saibam todos aqui que, com Dona Nélida aprendi excelente lição. “Saco vazio não fica de pé”! Nisso ela crê, e assim pratica. Quando meu amo vem descansar junto à Dama do Lago, em seu palácio encantado, Dona Nélida sempre oferece, além do pão de cada dia, finas iguarias, soberbos vinhos, e pratos consistentes, que nos matam a fome e estimulam a mente.

Sherazade, que parecia acreditar que, se não falasse, estaria condenada a desaparecer com o nascer do Sol, retomou a palavra:

– Se já a visitou há de ter reparado, entre tantas belezas que expõe para o deleite dos olhos e o estímulo da mente, a lâmpada que lhe ofertei. Ali guarda as histórias dos prêmios que suas obras receberam, e aos quais ela própria fez jus. Se minha lâmpada guarda a história de mil e uma noites, a lâmpada da Princesa Nélida guarda a de mil e um prêmios e comendas! Lembro-me de ter usado meus mais lindos véus para ir à Espanha, vê-la receber o Prêmio Príncipe de Astúrias, em 2005!

Sancho Pança, sem cerimônia, interrompeu a bela oriental:

– Eu é que sei o quanto me custou polir a armadura enferrujada de meu amo para que ele pudesse estar presente na ocasião em que Dona Nélida recebeu o prêmio Cervantes, no México, em 2006!

Sherazade, com um suspiro, interrompeu o escudeiro.

– Seus prêmios são muitos no Brasil e no mundo. E ainda há que mencionar todas as viagens da princesa. Nisto, rivaliza com Simbad, trazendo, de cada recanto do mundo, preciosas observações que ampliam sua sensibilidade.

Homero escutava todas aquelas palavras com evidente prazer, e acrescentou com vibrante voz:

– Dentre as viagens de minha querida aprendiz, a de sorriso amplo, as que mais aprecio são as que faz no tempo, criando seu próprio guia-mapa. Viaja ao passado para me acompanhar aos palácios, ou às feiras, onde passei a vida a cantar as glórias dos heróis e as belezas da Hélade. Outras vezes, viaja também na geografia para alcançar os encantos das terras galegas, e lá encontrar ecos de outras viagens, de aventuras imaginativas e míticas. Como uma arqueóloga, procura vestígios que lhe expliquem a vida em sua massa mais efervescente, nas bolhas irisadas da imaginação.

Sherazade cortou a conversa:

– Desde os tempos do Sultão me vi condenada a passar as noites acordada, tecendo histórias que me garantissem a vida por um dia a mais. Assim, a alvorada faz meu corpo esmorecer e meus olhos procurarem alguns momentos de descanso. Além disso, somos sombras, vivemos nas narrativas, e precisamos encontrar as páginas que nos abriguem, para não nos esgarçarmos na luz dura do dia.

A princesa levantou-se, graciosa. Seus véus esvoaçaram ao redor, e pudemos entrever os olhos amendoados, as formas delicadas e belas.

– Digo-lhes ainda uma palavra antes de me recolher. A princesa Nélida é mais que uma escritora, é uma Mulher, com M maiúsculo, que sabe lutar com as armas que tem. Orgulhosa de sua condição, não recua, neste mundo tão patriarcal, e lidera o caminho para assumir posições que antes não estavam abertas ao sexo feminino. Por exemplo, foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, justamente no ano de seu centenário. A princesa Nélida, portanto, tem todo o meu respeito.

Disse isso, despediu-se, e partiu, deixando na sala, cada vez mais clara, um perfume de flores raras e de especiarias.

– Oh, – lamentou-se o velho fidalgo – Como sou um Cavaleiro Andante, preciso de novas aventuras. Agradeço muito a hospitalidade, e asseguro-lhe que foi um prazer desfrutar a magia que nos uniu, a falar da amiga de fascinantes histórias. Dona Nélida não hesita em acompanhar-me nas lutas em defesa dos mais caros ideais. Comparte meu espírito idealista e fantasioso, e minha índole aventureira.

Olhou para Sancho, que ressonava a seus pés.

– Acorda, homem! As alvoradas são o momento mais sagrado do dia, quando saudamos o sol e a vida, e partimos em busca da glória arrastados pela força do destino.

O escudeiro levantou-se com inesperada agilidade, face à sua corpulência, e ajudou o fidalgo, cuja armadura desconjuntada começava a refulgir à luz do dia. Empertigado, o velho se afastou, com passos solenes, seguido por um Sancho rebolão, que, julgando não ser notado, deu um último gole na garrafa de vinho e guardou no alforje as sobras de queijo e nozes. Apenas Homero, devido, talvez, à sua cegueira, demorava-se ainda.

Reclinado no sofá, perguntou-me:

– O Machado de Assis não apareceu?

Uma voz um tanto rouca respondeu, e só então notamos a sombra miúda do Fundador da Academia, no canto mais escuro da sala:

– Escuto mais do que falo. E, admito, diverti-me neste inusitado serão.

Dirigindo-se a mim, disse, com fala hesitante:

– Vim pedir-lhe que agradecesse, em meu nome, o primoroso discurso que a consagrada escritora proferiu no centenário de minha morte. Muitas das coisas que a ilustre colega mencionou, a ela própria podem ser aplicadas. Destaco uma: “Era tal a sua arregimentação universal que o Brasil, sozinho, não poderia reivindicar sua posse”. Esta constatação poderia referir-se a ela própria. Nélida Piñon está num panteão que ultrapassa as fronteiras brasileiras, graças a seu merecimento. Outra frase, proferida em relação a meu uso do vernáculo, também serve ao seu, como uma luva: “Esta sua linguagem é um cristal que tem a idade da terra”!

O querido escritor, franzino de corpo, enorme no talento, deu um sorriso um tanto irônico e, olhando o bardo grego ainda reclinado no sofá, convidou-o:

– Anda daí, Homero. O dia se faz claro, as musas já hão de estar preocupadas, a indagar por ti, tal como minha sempre amada Carolina deve andar ansiosa a me aguardar. Digamos até amanhã, outra vez, e vamos!

O grego sef oi, guiado por Machado, o qual, voltando-se, ainda disse:

– A estimada Nélida repete muitas vezes a frase: “Se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível”. Sou autor desencantado e um tanto cético, sempre tive um laivo pessimista, mas não fui, nem sou, derrotista. Deixo, então, uma palavra de esperança: Enquanto houver escritores como Nélida Piñon, o Brasil será possível!

 

––––

Livros de Nélida Piñon referidos no texto:

O calor das coisas (contos)

Sala de armas (contos)

Tempo das frutas (contos)

A república dos sonhos (romance)

Vozes do deserto (romance)

Aprendiz de Homero (ensaio)

Coração andarilho (memórias)

O pão de cada dia (fragmentos)

Guia mapa de Gabriel Arcanjo (romance)

A força do destino (romance)

Fundador (romance)

Até amanhã, outra vez (crônicas)

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