Dica de leitura

“Pelas paredes”, de Marina Abramovic

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O cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre e a interação de uma criança com um artista nu no MAM em São Paulo têm gerado uma série de discussões sobre o cerceamento de manifestações artísticas. Afinal, existem limites para a arte? Para além das questões de indicação etária e polêmicas religiosas, também entram em debate as fronteiras das performances quando se trata da própria integridade do artista.

Mas, e quando é o próprio artista que se coloca numa posição de vulnerabilidade? Uma das pioneiras da arte performática, a sérvia Marina Abramovic protagonizou uma série de experimentos polêmicos ao longo de sua carreira. Ela conta sua trajetória no livro “Pelas paredes”, da José Olympio.

Aos 14 anos, Marina teve sua primeira aula de pintura. Depois de atirar tinta sobre a tela, o professor, um amigo de seu pai, acrescentou um pouco de areia e pigmentos coloridos, derramou gasolina, acendeu o fósforo, explodiu a obra e disse ao final: “Isso é um pôr do sol”.  A experiência na adolescência teve papel marcante em suas criações: “Ela me ensinou que o processo era mais importante que o resultado, exatamente como a performance significa mais para mim do que o objeto”, declara no livro.

Três anos após o episódio, ela começou a se preparar para entrar na Academia de Belas Artes de Belgrado, já com a ideia de que poderia fazer arte a partir de absolutamente qualquer coisa, fosse fogo, água ou o próprio corpo. Em 1973, apresentou em Edimburgo uma de suas primeiras performances: Rhythm 10, que consistia em fincar facas no espaço entre os dedos de uma das mãos o mais rápido possível, se expondo a quase inevitáveis cortes.  De lá pra cá, foram inúmeros experimentos polêmicos, como oferecer objetos ao público, incluindo um revólver, para que fizessem o que desejassem com ela, correr e se lançar de encontro a paredes, deitar em volta de uma área em chamas e dar a volta na Muralha da China.

Seu livro de memórias revela que a ousadia de sua produção artística é também a manifestação de liberdade de alguém que veio de uma família extremamente rígida e que viveu em tempos sombrios, numa ditadura comunista na Iugoslávia dos anos 1940 aos 1970. Sua mãe era major do exército e seu pai foi designado para a guarda de elite do ditador marechal Tito.  Marina sempre teve uma relação conturbada com a mãe, uma mulher culta e pouco afetuosa, e acabou se afastando do pai após a separação do casal, reencontrando com ele apenas dez anos depois.

Entre as viagens relatadas no livro estão diversas passagens pelo Brasil, entre elas sua visita a xamãs em Curitiba, ao médium João de Deus, conhecido mundialmente por suas atividades de cura, e sua participação em ritos religiosos, alguns deles na Chapada Diamantina. Parte dessas experiências foram registradas no filme “Espaço Além: Marina Abramović e o Brasil.”

“Pelas paredes” é um relato visceral de uma artista que foi além dos limites da dor, da exaustão e do medo e se tornou um dos principais nomes da arte contemporânea. Alguém seria capaz de freá-la?

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