Entrevistas

“Mães arrependidas”, de Orna Donath

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Por Débora Thomé

Quando engravidei do meu primeiro filho, escrevia em um blog junto com outras mulheres – grávidas ou já mães – no qual contávamos sobre a experiência da maternidade ou da espera dela. Naquele momento, lembro-me que sonhava frequentemente com macacos. Sentia-me um animal, e tudo o que desejava era que as outras pessoas entendessem que, PARA MIM, a gravidez não era nem um momento abençoado, nem uma tortura com aquela barriga enorme, falta de ar ou inchaço. Estar grávida era como ganhar peitos ou pelos, um processo a mais por que passaria na vida, pelo qual eu tinha podido optar.

Num país em que a figura da maternidade é tão central e mítica, como lugar do sagrado, dizer que a gravidez não me fazia sentir especialera motivo de crítica por todos os lados: minha família, outras grávidas, e, claro, leitoras do blog. Certa feita, uma delas veio com a frase: “você verá quando seu filho nascer; tudo vai mudar”. A cada texto que eu escrevia, lá vinha o mesmo comentário: “você verá quando seu filho nascer; tudo vai mudar”. (Spoiler: isso não aconteceu.)

Na época, abria uma coleção de livros sobre gravidez e não conseguia passar da primeira página;tudo o que estava escrito ali não dizia nada sobre a minha experiência individual, sobre a forma como eu estava vivendo aqueles nove meses ou, depois, a maternidade propriamente dita. Ao mesmo tempo, sentia-me bem, como me sentira em outras ocasiões da minha vida: fazia feliz a natação, cuidava da minha barriga e comprava roupinhas para o bebê. Entretanto, nada disso parecia ser suficiente para estancar as críticas, pois, de um modo geral, existe uma concepção pré-concebida – a qual é repetida em comerciais, reuniões de mulheres, de famílias, consultórios médicos – sobre o que é a experiência da maternidade, ignorando histórias e vivências tão distintas das mulheres em tantos aspectos. Resultado: achava-me uma mãe bem esquisita.

Existe gente que gosta de montanha, que gosta de mar, que gosta de azeitona (eu odeio!). Tem gente que quer casar com alguém que agrade a família, que tem tesão por gente tímida, que tem tesão por gente extrovertida, que se apaixona por estrangeiros(as), que acha que bom mesmo é brasileiro(a), que escolhe ser dentista, que não tem escolha, ou que vai ser escritor(a). Temos experiências tão diferentes diante da vida que é muito estranho não aceitar que a maternidade também pode ser vivida de formas particulares.

Nesse sentido, o livro “Mães Arrependidas”, da socióloga israelense Orna Donath, é muito bem-vindo, com a pesquisa que se atreve a questionar um tabu que perdura mesmo no século XXI. Os relatos de 23 corajosas mulheres que se disseram arrependidas da maternidade nos fazem pensar sobre as opressões num mundo que parece tão liberal. Ajudam-nos a refletir e entender melhor o papel da maternidade nas sociedades atuais. Seu objetivo passa longe dos julgamentos morais,chamando a atenção para o fato de que a experiência da maternidade pode ser vivida de formas múltiplas. E que entender esses diferentes processos é libertar as mulheres que querem – ou não – ser mães para viverem um momento pleno.

Por email, a professora Orna Donath, respondeu algumas perguntas para o blog da Record:

 

A ideia de mães arrependidas é algo contemporâneo, que só faz sentido no contexto atual, quando o papel das mulheres e também das crianças na sociedade se transformou?

É muito difícil, se não impossível, saber com precisão o que mães de diferentes grupos sociais achavam sobre a maternidade no passado, pois não existe documentação suficiente que consiga mostrar a voz própria dessas mulheres ao longo da história. Diante de tal ausência, realmente não temos como saber se, há centenas de anos, também havia mulheres que se arrependeram de se tornarem mães. Existem, porém, desde a Idade Média, algumas evidências de que pais e mães tinham alguma dificuldade nesse processo. No entanto, seria apenas um palpite considerar essas evidências como um arrependimento.

Acredito que a interseção entre o feminismo, perspectivas críticas quanto à “maternidade como instituição” (e não necessariamente quanto à maternidade per se) e o fato de questionarmos padrões quepossam nos oprimir permitiramque as mulheres pudessem passar a falar de seus arrependimentos quanto à maternidade. O arrependimento não é, portanto, necessariamente algo novo para as mães, mas a possibilidade de falar sobre isso e nomear tal experiência como arrependimento pode, sim,ser algo do momento atual.

A maioria das mães entrevistadas se arrepende também de seus casamentos ou apenas da maternidade? Como podemos diferenciar entre as mães que se arrependem da maternidade de pessoas que, ao longo da vida, arrependem-se também mais vezes?

Várias mães que participaram do meu estudo se arrependem também de seus casamentos, mas outras não, elas não se arrependem de várias decisões que tomaram em suas vidas.

Acho que tentar identificar se essas mães têm uma personalidade de “arrependidas em série” pode nos levar a um mal caminho: em vez de olharmos para as mães arrependidas como um grupo que é o reflexo da história de como as sociedades pressionam as mulheres para serem mães em qualquer circunstância, estaríamos apontando para características particulares a essas mulheres.

Mesmo que muitas delas tenham se arrependido de muitas coisas em suas vidas, a sociedade ainda precisa enfrentar o fato de que existem mães arrependidas da maternidade, e lidar com o que isso pode estar nos dizendo sobre nós mesmos quando tentamos negar esse olhar tão fortemente.

Israel, país onde você fez a pesquisa, tem uma alta taxa de fecundidade. Esse aspecto pode ter feito com que seu caso de estudo reflita uma situação ainda mais complexa, uma vez que os custos para não ter filhos podem ser ainda maiores que em outros países? Sua análise sobre as mães arrependidas se aplica também a outros países?

As taxas de fecundidade em Israel são, de fato, as mais altas nos países da OCDE e, certamente, isso faz com que a situação não seja simples para muitos pais e mães no país, mas, no passado, seguindo minha pesquisa, ao trabalhar na Alemanha (onde as taxas são muito baixas), os resultados foram que 19% das mães e 20% dos pais se disseram arrependidos.

Das dezenas de mensagens que recebi, de diferentes países, de mulheres que se arrependem de terem se tornado mães, podemos perceber que, talvez, a questão mais importante seja outra: como nós, como sociedade, nos recusamos a reconhecer esse arrependimento?Arrependimento, aliás, que pode estar presente em qualquer decisão que tomamos ao longo da vida. A maternidade é também um tipo de relacionamento entre pessoas, e ela pode transformar a vida das mulheres de maneirasque não eram previstas antes da presença da criança.Logo, para mim, faz todo sentido que existam mulheres as quais, após o fato concretizado, se arrependerão por terem se tornado mães.

Se tratarmos a maternidade não como algo mítico, mas, sim, virmos as mães como seres humanos, compreenderemos que mulheres de carne e osso também podem achar que cometeram um erro.

Existe diferença entre mães que se arrependem da maternidade e pais que se arrependem da paternidade?

No meu doutorado, entrevistei 10 homens israelenses que se arrependeram de se tornarem pais. Também recebi algumas mensagens de pais arrependidos de outros países, mas ainda não escrevi sobre isso.Uma das diferenças entre os homens e as mulheres entrevistados é que a maioria dos homens se tornou pai,ainda que não quisesse, porque sua parceira queria ser mãe e eles queriam permanecer com elas. Mas eles tomaram tais decisões sem estar sob a ameaça de um divórcio, o que é o oposto das histórias que escutei de várias das mulheres que entrevistei no meu estudo. De qualquer forma, isso não diz nada sobre os pais arrependidos, acredito que é preciso estudar mais este tema.

Algumas das mulheres entrevistadas fizeram um esforço gigantesco para engravidar e, mesmo assim, se arrependeram. Como você analisa estes casos?

Entendo perfeitamente esta situação: se as pessoas nos dizem, desde que somos muito novas, que a maternidade é A essência das nossas vidas e que, se não somos mães, não somos “mulheres de verdade”, mais que isso, que acabaremos tendo uma vida profundamente triste, faz todo sentido que muitas mulheres tentem fazer o que estiver a seu alcance para se tornarem mães, incluindo o uso de todos os tratamentos de fertilidade disponíveis. Algumas delas podem se dar conta apenas depois de que a maternidade talvez não fosse o melhor caminho para elas, e que a própria ideia de maternidade era o que criava mais confusão e vazio em suas vidas.

Além disso, a vida dessa mulher pode acabar mudandoao longo do tempo: ela pode enfrentar doenças, um divórcio ou uma queda no padrão de vida, o que também pode ter efeito sobre a experiência da maternidade como um todo.

Uma mãe que se arrepende da maternidade terá sempre um histórico de uma má experiência como filha?

Não. Algumas mulheres que participaram do meu estudo tiveram uma experiência de infância muito boa e, mesmo assim, se arrependeram de terem se tornado mães. Assim como existem mulheres que tiveram uma infância traumática e consideram a maternidade a coisa mais fabulosa que já aconteceu com elas. Todas as possibilidades existem.

Esta forma de ver a maternidade que defende alimentos naturais, fralda de pano etc pode afetar as decisões das mulheres quanto a ter ou não filhos?

A chave para uma real libertação das mulheres, que garanta que elas sejam donas de seus corpos, sonhos, habilidades e necessidades em relação à reprodução e à maternidade, só será possível quando houver um entendimento profundo de que a maternidade não é apenas uma questão de natureza. Não é necessariamente natural que TODAS as mulheres desejem ser mães apenas porque são mulheres; não é necessariamente natural que uma mulher saiba tudo o que fazer depois que a criança nasce simplesmente porque é mulher. E, por fim, não é necessariamente natural que todas as mulheres considerem a maternidade como uma mudança válida na sua vida, porque esta é a essência de sua existência, ou seja, porque é uma mulher.

Essa noção “natural” é demasiadamente romântica e mítica e não leva em conta que as mulheres são diferentes, e nem todas, só porque temos os mesmos órgãos reprodutivos biológicos, queremos ser mães ou apreciamos a maternidade quando olhamos para trás.

Alguma pesquisa usa a explicação hormonal ou biológica para os diferentes comportamentos diante da maternidade?

Existem estudos sobre depressão pós-parto de perspectivas clínicas. Uma vez que as pesquisas sobre mulheres que se arrependeram da maternidade só começaram agora, não sabemos ainda se também se irá tomar este caminho.

Pessoalmente, não acredito que esse arrependimento tenha raízes hormonais ou biológicas, mas, sim, vejo componentes psicológicos. No entanto, como socióloga, estou mesmo interessada nas formas em que tendemos a focar em explicações biológicas ou psicológicas e permanecemos apenas nelas, negligenciando os aspectos sociais e as consequências dessa negação ao lidar com o assunto.

Quanto ao que essas mães estão percebendo como depressão pós-parto, por exemplo, o risco é que, ao enfocar no aspecto clínico, isso leva à individualização dos discursos. Em vez de enfrentar o que de fato está acontecendo, a sociedade fica alheia a sua responsabilidade no processo.

Em outras palavras, sugiro um novo ângulo para analisar este assunto, que não seja simplista com o que está sendo dito, até porque muitas das entrevistadas são mães há 30, 40 anos (algumas são avós), não poderiam, portanto, estar em depressão pós-parto. Isso mostra que há mulheres que realmente sofrem com a transição para a maternidade. Para elas, não é uma fase temporária, mas sua vida toda.

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