Entrevistas

“Muito além do inverno”, de Isabel Allende

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por Graziela Salomão*

“Se consolava que todas as coisas mudam. Qualquer infelicidade de um dia seria história antiga no seguinte”. Já nas primeiras páginas de seu novo romance, “Muito Além do Inverno”, publicado pela Bertrand Brasil, Isabel Allende toca o leitor mais desavisado, mostrando que está prestes a acontecer um mergulho sensível na vida e nas emoções de três personagens de histórias bem diferentes, mas unidos pela solidão e pelo acaso. Nada, no entanto, tem um viés pessimista. Ao contrário, tudo é regado à muita esperança como o título do livro, inspirado numa frase do escritor e filósofo francês Albert Camus: “Mesmo dentro de qualquer inverno é possível encontrar um verão invencível”.

Depois de um acidente de carro, as vidas do americano Richard, da chilena Lucía, ambos na casa dos 60 anos, e da adolescente guatemalteca Evelyn se unem. A jovem, envolvida em um crime, bate à porta da casa de Richard pedindo ajuda. Como ele não entende o espanhol falado pela moça, recorre à sua inquilina Lucía. Na tentativa de sobreviver à forte nevasca que acontece em Nova York, os três percebem o quanto suas dores e perdas os deixam mais próximos e como o sentimento de solidariedade com a tragédia do outro os faz descobrir que o fim de seus invernos pessoais está chegando.

É por essa trama emocional que Allende traz discussões muito atuais, como a questão do imigrante nos Estados Unidos, os Direitos Humanos e a o amor na maturidade.  O relacionamento de Richard e Lucía é livremente inspirado no novo amor da escritora: o advogado Roger Cukras, a quem dedica o livro. Pouco depois de se separar do segundo marido, Allende recebeu um e-mail de um homem desconhecido que a escutara no rádio. Cinco meses depois de receber buquês de flores diariamente e de muitas conversas pela internet, Allende decidiu conhecer seu admirador. O resultado dessa história da vida real? No último mês de dezembro, Roger foi morar com ela em sua casa, na Califórnia, nos Estados Unidos.

A sensibilidade com que vê a vida misturada a uma boa dose de romance e otimismo fazem da escrita de Isabel Allende um fenômeno de vendas. Os números que a cercam são grandiosos: das 23 obras escritas, vendeu mais de 70 milhões de cópias em todo o mundo. Nascida no Peru, mas considerada uma autora chilena por ter vivido desde muito cedo no país, está entre as principais escritoras latino-americanas – e já recebeu das mãos do então presidente Barack Obama, em 2014, a Medalha da Liberdade, a maior condecoração civil dos EUA. Em entrevista ao Lamparinascope, Isabel fala de seus invernos pessoais, da intensidade do amor aos 75 anos, da mulher na literatura e das questões políticas tão cruciais da nossa atualidade – como a crise dos refugiados, o governo de Donald Trump e a intolerância.

 “Muito além do Inverno” é uma homenagem à capacidade de esperança e reinvenção que as pessoas têm em qualquer circunstância. Acha que o livro é um alívio nesses tempos difíceis?

 Não escrevo para dar mensagens ou conselhos, apenas desejo contar uma história que é importante para mim. Quando imaginei essa novela, em janeiro de 2016, passava por momentos complicados em minha vida pessoal e suponho que a escrita me ajudou a analisar as circunstâncias. Os tempos conflitantes que se vivem hoje nos Estados Unidos sob o governo de Trump começaram quando o livro já estava terminado de forma que, quando o escrevi, não eram tão relevantes. Agora são. Às vezes a escrita é um pouco profética…

E por que escolher a essa frase de Albert Camus para o título do livro?

“No meio do inverno, descobri por fim que havia dentro de mim um verão invencível”. Esta frase me parece sábia e poética. Além disso, se referia diretamente ao meu estado de ânimo quando escrevi a novela. Estava passando pelo meu próprio longo inverno; tinha me divorciado do meu marido depois de 28 anos de casamento, morreram três dos meus melhores amigos, minha querida agente, Carmen Balcelis, e minha cadela, Olivia. Me sentia só e enfrentava a velhice sem esperar surpresas. Não era o primeiro inverno de minha vida, claro, tive outros mais duros, como o exílio e a morte de minha filha Paula. A frase de Camus me lembrou que o verão invencível está sempre esperando a oportunidade de se manifestar.

Você acredita que esse é o seu livro mais político?

Há temas políticos em quase todos os meus livros. Minhas histórias se situam em um contexto social, político e histórico; meus personagens atuam em um mundo real, não vivem em uma bolha. Talvez a mais política de minhas novelas seja “De Amor e de Sombra”.

Vivemos um momento muito difícil relacionado ao terrorismo, ao fechamento de fronteiras, ao individualismo, à intolerância ao outro, a governos como o de Trump e o de Kim Jong-Un. É um momento de inverno para o mundo? Como você vê isso?

Sim, creio que o mundo, e em especial os Estados Unidos, está passando por um inverno perigoso, mas a humanidade superou momentos piores. Confio que haverá uma primavera e um verão em um futuro não muito distante. Nasci em meio à Segunda Guerra Mundial, em tempos de Holocausto e das bombas atômicas, quando 50 milhões de refugiados vagavam pela Europa buscando um lugar para se estabelecerem. Desse terrível sofrimento aprendemos a defender a democracia, se criaram as Nações Unidas e a declaração dos Direitos Humanos, tivemos grandes avanços em todos os campos. Não sou pessimista a respeito do futuro. A humanidade evolui, não creio que esteja retrocedendo. Vamos superar esta crise.
Você está radicada nos Estados Unidos há muitos anos. Tem sentido uma onda de preconceito maior com os imigrantes nesses últimos tempos? Já sentiu isso com você?

Trump transformou os imigrantes latinos em alvo de ódio, xenofobia, racismo e nacionalismo, que sempre existiram em todas as sociedades e, sem dúvida, nos Estados Unidos. Esses sentimentos negativos precisam de um bode expiatório. Na Alemanha, foram os judeus. A situação dos imigrantes sem documentos se tornou muito difícil porque vivem semi-escondidos, com medo permanente de serem deportados. Há pessoas que vivem e trabalham honradamente nos Estados Unidos por 20 anos, que pagam seus impostos, que têm filhos nascidos aqui e, a qualquer momento, podem ser expulsas. Há famílias divididas e filhos separados de seus pais. Está provado que os imigrantes contribuem muito mais para a economia do que os benefícios que recebem. Neste país, como na Europa, a população está envelhecendo, se vive muito mais tempo e o custo de manter os idosos recai nas costas dos jovens. Muitos deles são imigrantes. É verdade que há 11 milhões de ilegais e que se deve controlar as fronteiras, mas a solução deve contemplar o aspecto humano tanto como o político.

Em sua opinião, por que acredita que o povo chileno colocou fim a um período de audácia no campo social (como a descriminalização do aborto, por exemplo) e qual foi o papel dos meios de comunicação nesta virada da direita?

Há uma virada da direita em muitos países do mundo. É a lei do pêndulo: o que vai, volta. No Chile, tendemos a votar pelo conhecido. Assim foi com Michelle Bachelet e, agora, com Piñera. Espero que os avanços sociais conseguidos pelo governo anterior sejam respeitados pela direita, que habitualmente se concentra mais nos aspectos econômicos do que no social.

Todos nós estamos em busca de “verões” que acabem com nossos invernos particulares? Qual é o seu?

Meu atual verão é um novo amor, que veio mudar minha vida, e também meu trabalho. No dia 8 de janeiro de 2018 comecei um novo livro. Embora estejamos no meio do inverno, o dia 8 de janeiro é o começo do meu verão.

Lucía tem traços autobiográficos. Por que escolheu trazer muitas de suas características pessoais para a personagem?

Ela tem alguns aspectos da minha personalidade, é mandona, vaidosa, impulsiva, romântica e curiosa, mas não sou o único modelo para a personagem. Várias amigas minhas, jornalistas chilenas, me inspiraram. Nós fazemos parte de uma geração marcada pelo golpe militar, a repressão de 17 anos da ditadura em nosso país e, em alguns casos, o exílio. Ao criar um personagem como Lucía, que tem 62 anos em 2016, logicamente devo imaginar como ela foi afetada pela situação política do Chile quando era jovem.

Você disse em uma entrevista que está apaixonada aos 75 anos. É diferente estar apaixonada nessa fase da sua vida ou é a mesma sensação de quando era uma adolescente?

Me apaixonei várias vezes e sempre foi igual: um cataclismo emocional. Assim foi aos 16 anos, quando conheci Miguel, meu primeiro marido e pai dos meus filhos, e assim foi com Willie em 1987, quando deixei tudo para vir aos Estados Unidos e ficar com ele. Aos 75 anos me apaixonei por Roger com a mesma paixão e entusiasmo da juventude. A diferença é que nós dois temos urgência: não temos tempo a perder. Na nossa idade, o tempo passa muito rápido. Quantos anos podemos gozar desse amor? Cinco? Dez? Não é muito.

Você também falou que seus netos se escandalizaram quando souberam do namoro. Por que acha que existe ainda um tabu sobre o amor na maturidade?

Sim, há um tabu porque nossa cultura está voltada para a juventude, a beleza e o êxito. Na maturidade nos tornamos invisíveis e na velhice somos um estorvo. Suponho que isso mudará porque, à medida que a população da Europa e dos Estados Unidos envelhecer, teremos que aceitar o fato de que os seres humanos ainda são sentimentais e sexuais até a morte. O romance não é exclusivo dos jovens. Os mais velhos precisam mais do que qualquer outra pessoa.

Acredita que viver essa amor para uma mulher é mais complicado?

Não acho que é mais complicado do ponto de vista emocional. O que deixa mais difícil para uma mulher mais velha (se ela for heterossexual) é conseguir um companheiro que valha a pena. Muito mais mulheres do que homens chegam sadias e ativas em uma idade avançada porque se cuidam mais; a prova disso é que há mais viúvas do que viúvos. Os homens mais velhos que estão disponíveis para o romance buscam mulheres mais jovens e, se têm condições econômicas, eles conseguem. O que significa que o mercado amoroso para as mulheres mais velhas é muito limitado.

Você disse que sempre está aberta à magia do acaso e da vida. Se apaixonar agora é uma dessas magias?

Diria que ter encontrado este amor aos 75 anos é quase um milagre. Roger e eu vamos precisar de muita magia para evitar que as doenças e a rotina nos vençam. Queremos manter o amor fresco e iluminado até o fim. Haverá um feitiço para isso?

Já sentiu muito preconceito por ser uma escritora mulher e, mais ainda, por ser uma escritora best seller?

Sim. Uma mulher deve fazer o dobro de esforço de um homem para conseguir a metade do reconhecimento em qualquer profissão. A literatura não é uma exceção. O fato de meus livros venderem bem provoca inveja e desconfiança. Muitos críticos colocam a análise de um best seller em níveis muitos altos, consideram que a aceitação dos leitores é sinal de baixa qualidade. Para alguns, quanto mais escura e difícil seja a escrita, melhor.

Em uma entrevista de 2010, você disse que a palavra feminismo está desprestigiada. Acredita que hoje isso melhorou?

A palavra deste ano, eleita pelo dicionário Merriam-Webster, é o feminismo. Há um ressurgimento da consciência feminista, adotada pelos jovens, e o movimento inclui outros gêneros, não apenas as mulheres.
 Você é uma expert em escrever sobre mulheres fortes. Quem te inspira?

Não conheço mulheres fracas. Me inspiram as mulheres da minha Fundação, muitas das quais sofreram tragédias terríveis e não apenas sobreviveram, como também mantém a força e a alegria. Algumas se transformam em líderes de suas comunidades e dedicam a vida a ajudarem outras mulheres.
O que é ser mulher para você?

O termo pode ser definido de muitas maneiras, especialmente agora que os gêneros já não se classificam somente em masculino e feminino. Para mim, o mais importante não é o gênero, mas sim a qualidade humana. Busco nas pessoas os valores que nos permitem imaginar um mundo melhor: coragem, alegria, compaixão, generosidade, imaginação.

Entrevista originalmente publicada no site Lamparinascope: https://www.lamparinascope.com/

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