Entrevistas

“Feminismo em comum”, de Marcia Tiburi

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Por Juliana Krapp

É preciso retirar o feminismo da seara das polêmicas infindáveis e enfrentá-lo como potência transformadora. Com este mote, a filósofa Marcia Tiburi apresenta questões, conceitos e desafios que configuram o movimento como a “chave de acesso a um mundo melhor” em seu novo livro, Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Um dos pontos cruciais desta virada seria, segundo ela, a capacidade de pensar dialeticamente o feminismo, abraçando o diálogo e a diversidade. “O que chamamos de feminismo é feito de presenças complexas, de corpos diversos, desejos variados que têm um único ponto de convergência: defender uma vida mais justa a partir de uma crítica do patriarcado”, explica, na entrevista a seguir.

Para a autora, “cada vez que surge uma nova feminista, um novo coletivo, o feminismo se modifica”. Por isso, segundo ela, essas mudanças e novas práticas precisam ser absorvidas pelo movimento. É o que ela prega em seu manifesto. “Desde o feminismo interseccional, falamos nesses marcadores de opressão junto à raça e à classe. No livro, eu proponho que acrescentemos a questão da plasticidade corporal, deficiências e idade como marcadores que pesam demais sobre as mulheres e que não podem ser esquecidos”, diz.

A obra marca a retomada do selo feminista Rosa dos Tempos, criado por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar na década de 1990. A iniciativa do Grupo Editorial Record reúne um coletivo de editoras, gerentes e a vice-presidente da casa, Roberta Machado.

“A Rosa dos Tempos marcou época, foi uma editora importantíssima para a difusão do pensamento feminista internacional e nacional. Além de tudo, a feminista Rose Marie Muraro é um ícone entre nós. E a volta da Rosa dos Tempos, criada por ela, está sendo saudada com alegria por leitoras e leitores de todo o país. O coletivo de editoras que está à frente dessa reinauguração é algo que combina muito com as práticas feministas”, explica Roberta

Marcia Tiburi fará uma caravana feminista para lançar o livro. A turnê começa em Salvador no próximo dia 29 de janeiro, passa por Recife, Fortaleza, Rio e São Paulo. Após o carnaval, a autora retoma a agenda de viagens. Leia a seguir a entrevista com a autora.

Por que ainda é tão difícil nos assumirmos feministas?

A história do feminismo nos mostra que sempre foi difícil assumir esse nome. O termo ‘feminista’ tem uma história de ressignificações, assim como o termo ‘mulher’ e o termo ‘negro’. Segundo consta, foi primeiramente usado para atacar homens que defendiam direitos das mulheres na França do século 19. Simone de Beauvoir demorou a assumir o nome, pois naquela época seu significado era bem diferente do que vemos hoje. Rosa Luxemburgo, uma liderança socialista, também não se dizia feminista. Assumir-se feminista pode ser muito bom, mas apenas se esse ato é acompanhado de uma prática coerente. O simples assumir-se pode tornar-se apenas publicidade, na época em que o feminismo vira moda. Cada pessoa deve se perguntar por que é feminista e o que o feminismo quer dizer para ela mesma, para que o feminismo não seja um mero “ismo” e possa, de fato, produzir transformações em sua vida e na vida em sociedade. Por outro lado, as maledicências contra o feminismo fazem parte da estratégia misógina do patriarcado, esse sistema violento que se mascara com a ideia de que há uma natureza masculina e outra feminina. De que a heterossexualidade é a única forma de se viver e de que as mulheres existem para servir aos homens. É difícil colocar essas questões para uma sociedade conservadora como é a nossa, mas acredito realmente que, se propusermos o diálogo a partir da crítica feminista, iremos longe. Eu proponho um feminismo dialógico justamente para avançar nessa direção.

O feminismo não pode se tornar mera indignação moral, alerta você, sob o risco de não se converter em ação ético-política eficaz. O feminismo movido por simples impulsos indignados seria murro em ponto de faca. Como distinguir, no vozerio do mundo contemporâneo, o que são simples impulsos e o que são posturas teóricas e práticas que convergem, de fato, para uma transformação?

O que você chama de “vozerio” é importante. Cada gesto feminista é importante e essencial na crítica e na desmontagem da estrutura patriarcal. Além de tudo, toda forma de expressão que enfrente a opressão, toda expressão da dor, é um direito daqueles que são oprimidos e deve ser escutado por quem participa do sistema de privilégios que é o patriarcado. O patriarcado, aliás, é o sistema de gênero do capitalismo, analogamente ao que é o racismo no capitalismo. Mas a indignação e a expressão da dor podem ser politizadas e, desse modo, se tornarem transformadoras. Além disso, não há argumento para que o feminismo não se faça como clamor e até como grito. Não há problema no caráter indócil e irritado do feminismo. Não sou a favor de cerceamentos e censuras ao feminismo. Isso seria contraditório. Seria pedir disciplina e controle a um movimento que é desobediente e convulsivo por sua definição. O feminismo incomoda o patriarcado, é inevitável. Toda crítica incomoda. Mas não podemos deduzir que o clamor e o grito são tudo o que o feminismo pode ou que eles configurem uma espécie de feminismo suficiente. Também não podemos considerar que os feminismos menos gritantes ou mais silenciosos sejam inofensivos. A luta das mulheres por direitos é complexa, tem séculos, nem sempre teve o nome de feminismo e se deu de muitos modos. Eu sempre digo que o chamado “pé na porta” do qual as feministas gostam tanto pode se dar de muitas maneiras. Sou a favor de todas essas formas de luta. Bom lembrar que o feminismo foi ressignificado ao longo do século 20 e nesse momento está acontecendo uma ressignificação fundamental, sobretudo, a partir das feministas negras interseccionais. A ético-política feminista que eu proponho parte daí, investe no diálogo que é a presença das diferenças e nas diversas formas de criar a luta a partir das singularidades.

Você afirma que os homens, “mesmo em seus privilégios, vivem afundados na miséria de espírito”. Como você define essa miséria de espírito? Poderia citar exemplos de situações banais nas quais ela se manifeste de forma em geral despercebida?

O machismo é a prática concreta dessa miséria do espírito. Em resumo, o machismo é a prática da grande covardia que é o patriarcado. A violência contra as mulheres é a prova cabal dessa covardia institucionalizada. O machismo é violento física e simbolicamente, é mau, é burro, é estúpido, é ignorante, é prepotente. Toda a miséria espiritual de todas as épocas, toda a neurose e seus efeitos, toda a violência que há ou foi produzida por ele ou tem relação direta com ele. Quando falo de machismo me refiro à prática e à metodologia do patriarcado. O que chamo de machismo é a própria encarnação da miséria do espírito que serve ao capitalismo e que se alimenta dele. Todo gesto machista seja público, seja na vida privada, é violento. Um homem inteligente não pode gostar do machismo ou sentir-se bem com ele. Evidentemente que o machismo não é apenas questão de consciência, há o machismo estrutural da sociedade patriarcal. Os homens são subjetivados nele e precisam questionar sua moral convencional para chegar a uma postura ética que não seja machista. Nesse sentido, acho bem importante que aquelas pessoas que foram marcadas como homens e que se aproveitam do sistema de privilégios aprendam a se desconstruir. O tempo do machismo acabou. As mulheres percebem diariamente com mais atenção os jogos de poder e a violência que pesa sobre elas. Eu insisti nesse livro sobre a questão do poder e da violência porque acredito que o patriarcado é fundado sobre uma equação em que se dá poder aos homens e se submete as mulheres à violência. E acredito que só o feminismo pode ser a crítica que desmancha essa equação.

Estamos num período especialmente delicado no panorama político do país, iniciando um ano marcado por eleições. Um ano que, por ora, não parece apresentar muitas novidades. Como o feminismo pode efetivamente ajudar a mudar as perspectivas desse “rumo delirante do patriarcado” que tem marcado o cenário nacional?

A situação é realmente tensa em termos políticos. Torna-se cada vez mais clara a perseguição política. A caça às bruxas se repete. O feminismo incomoda e incomodará mais porque é uma crítica social completa: anti-racista, anti-capitalista, contra toda forma de opressão, inclusive a opressão política. As mulheres foram transformadas em “bruxas” justamente na passagem do feudalismo para o capitalismo. Nesse momento,  os machistas donos do poder, autoritários e até mesmo fascistas, se insurgem em diversos níveis contra as feministas e contra mulheres em geral. Há também mulheres parlamentares atacadas com mais veemência desde que o feminismo cresceu. A violência contra a mulher é uma constante, mas os crimes contra mulheres proliferam. Há muitos crimes “passionais”, o que chamamos hoje de feminicídio, na esfera da vida cotidiana. Creio que é um momento em que se precisa ter cuidado, porque diante das vitórias feministas o machismo afia suas armas por medo de perder terreno. Espero que as mulheres se candidatem em massa, o que é muito difícil porque a cultura política brasileira (inclusive partidária) é intensamente machista e as mulheres não se relacionam muito bem com o poder, seja porque são oprimidas, seja por que introjetaram as regras machistas do patriarcado. Transformar esse cenário é um desafio imenso.

Todo feminismo “está em tensão dialética, em tensão com o outro”. Abraçar essa tensão dialética parece ser um dos grandes desafios do movimento feminista. Como você vê a evolução no enfrentamento desse desafio entre as feministas no Brasil?

O feminismo poderia ser pensado mais dialeticamente. Ou seja, como diálogo e como processo. Cada vez que surge uma nova feminista, um novo coletivo, o feminismo se modifica. Ele não está dado como bloco pronto na história. Não podemos contar com uma ideia única de feminismo, o que chamamos de feminismo é feito de presenças complexas, de corpos diversos, desejos variados que têm um único ponto de convergência: defender uma vida mais justa a partir de uma crítica do patriarcado. Hoje em dia, as feministas teóricas ou práticas nem se ocupam mais apenas de gênero e sexualidade. Desde o feminismo interseccional, falamos nesses marcadores de opressão junto à raça e à classe. No livro, eu proponho que acrescentemos a questão da plasticidade corporal, deficiências e idade como marcadores que pesam demais sobre as mulheres e que não podem ser esquecidos.  A meu ver, estamos avançando positivamente nesse esforço de construir um feminismo nosso, latino-americano, amefricano, indígena e anti-capitalista. No livro, aliás, eu insisto na questão das mulheres como trabalhadoras (toda mulher é vista como uma figura da servidão e precisamos mudar isso), porque isso também é uma marca do nosso feminismo brasileiro.

“Feminismo em comum” foi um convite feito a você para reinaugurar o selo Rosa dos Tempos. Quais precauções, inspirações e desafios marcaram o trabalho de escritura?

Foi uma grande honra, uma alegria imensa escrever esse livro a partir desse convite. A Rosa dos Tempos marcou época, foi uma editora importantíssima para a difusão do pensamento feminista internacional e nacional. Além de tudo, a feminista Rose Marie Muraro é um ícone entre nós. E a volta da Rosa dos Tempos, criada por ela, está sendo saudada com alegria por leitoras e leitores de todo o país. O coletivo de editoras que está à frente dessa reinauguração é algo que combina muito com as práticas feministas. Fiquei contente quando soube que o selo havia sido adquirido pela Record e, faz algum tempo, cheguei a comentar com Lívia Viana como seria importante retomá-lo. Foi um gratíssima surpresa ter sido chamada para escrever esse livro número um. Embora eu escreva muito sobre feminismo – artigos acadêmicos e ensaios para revistas, jornais e blogs – eu não havia escrito algo com esse teor. Nesse livro eu quis falar como vejo o feminismo. Como professora de filosofia e como feminista que sou, eu quis falar de um modo bem pessoal, propondo reflexões que, a meu ver, podem contribuir com o debate e, sobretudo, com o diálogo atual. Falei, portanto, do feminismo que eu tento pensar e elaborar, que eu tento praticar, narrei situações, falei de mulheres que fazem parte da minha vida. É uma meditação que eu partilho agora com a intenção de que outras pessoas possam, cada uma a sua maneira, pensar e avaliar a história da qual é parte.  A meu ver isso é uma das potências mais importantes do feminismo, devolver o pensamento, a biografia e o corpo a cada mulher e a cada pessoa.

A Rosa dos Tempos lançou, entre 1990 e 2005, diversos títulos feministas e sobre questões de gênero.  Como a leitura de livros como os publicados pela Rosa dos Tempos marcou a sua formação intelectual? Como a retomada da editora, agora no formato selo, pode marcar as gerações atuais?

Eu li a própria Rose Marie Muraro que foi publicada na Rosa. Li também “O Martelo das Feiticeiras” naquela época. Um livro maravilhoso que terá reedição com novo prefácio da autora é “Eunucos pelo Reino de Deus”, de Uta Ranke-Heinemmam. Estou relendo a antiga edição em função de uma pesquisa para o livro que lanço no ano que vem e ansiosa para ver a nova edição.

Se você tivesse que dizer apenas algumas poucas palavras às mulheres de nosso tempo, o que diria?

Conversem com as outras mulheres, ouçam as outras mulheres, empoderem umas às outras. Sejam generosas e gratas para com as feministas que lutam contras as opressões. Tornem-se feministas para colaborar com a luta por direitos de todas, todes e todos.

E aos homens?

Pratiquem uma ético-política da escuta. Ouçam e desconstruam a covardia que é seu legado de gênero. O desafio do feminismo para os homens implica grande questionamento sobre a subjetividade masculina, fortemente marcada pela violência e, desse modo, pelo autoritarismo. Ouvir o feminismo é uma chance de ultrapassar as formas de violência do patriarcado.

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