Entrevistas

“Por que perdeu?”, de Marcelo de Mello

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Por Pedro Paulo Malta

O Cristo mendigo da Beija-Flor em 1989, os versos “Abram alas/deixa a Portela passar” em 1995 e o carro do DNA da Unidos da Tijuca em 2004 foram alguns dos momentos que marcaram o Carnaval carioca e ficaram na memória afetiva dos foliões que assistiram os desfiles na Sapucaí ou pela TV. Os três têm em comum, porém, o fato de não terem sagrado suas escolas campeãs, depois da apuração das notas dos jurados escolhidos pela Liga das Escolas de Samba do Rio, a Liesa. A história desses carnavais e de sete outros em que o resultado da Quarta-Feira de Cinzas foi contestado pelo público, pela imprensa e pelas próprias escolas está contada no novo livro do jornalista Marcelo de Mello, “Por que perdeu? – Dez desfiles derrotados que fizeram história”, que sairá pela editora Record.

Jurado do prêmio Estandarte de Ouro, editor-assistente de opinião do jornal O Globo (com décadas de experiência cobrindo o carnaval do Sambódromo), o jornalista assistiu ao seu primeiro desfile, que ainda acontecia na Presidente Vargas, antes da construção do Sambódromo, com apenas 11 anos, em 1977. Esse foi o marco, para ele, da escolha dos dez carnavais que iria tratar no livro – que surgiu da publicação de uma série de reportagens no Globo. É então “Domingo”, da União da Ilha, o primeiro carnaval que, segundo sua percepção e suas pesquisas, foi injustiçado no fim da década de 1970.

Para fazer o livro, o autor entrevistou personagens envolvidos nos desfiles (entre jurados e integrantes das escolas) e pesquisou em livros, periódicos e vídeos. O resultado são histórias como a do já citado “Domingo” (União da Ilha, 1977), “Como era verde o meu Xingu” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1983), “Ratos e urubus… larguem minha fantasia” (Beija Flor, 1989), “Gosto que me enrosco” (Portela, 1995), “O sonho da criação e a criação do sonho: a arte da ciência no tempo do impossível” (Unidos da Tijuca, 2004) e outros cinco “desfiles que ultrapassam quesitos, notas e taças da vitória”, como define no prefácio o jornalista Aloy Jupiara, colega de Marcelo no júri do Estandarte de Ouro.

“Por que perdeu? – Dez desfiles derrotados que fizeram história” é o segundo livro de Marcelo de Mello, que em 2015 lançou “O enredo do meu samba – A história de quinze sambas-enredo imortais”, também pela Record. Na entrevista abaixo, ele conta como chegou às dez histórias selecionadas e relembra momentos do trabalho no livro.

 

Você explica na introdução que o marco inicial da lista é o ano de 1977, quando você começa a acompanhar os desfiles, aos 11 anos de idade. Ainda se lembra com nitidez desses primeiros desfiles? De lá pra cá, o que ainda permanece dessa primeira impressão e o que foi acrescentado a partir de sua experiência cobrindo carnaval e participando do júri do Estandarte de Ouro?

No caso do desfile da União da Ilha em 1977, que é o tema do primeiro capítulo do livro, me lembro claramente daquele momento muito bonito, do dia amanhecendo e a escola passando. Outra lembrança que ficou bem clara daquele desfile foi o samba-enredo, “Domingo”, que depois daquele carnaval continuou sendo cantado lá em casa, por minha mãe, meu irmão… Depois, à medida que cresci, me tornei jornalista e passei a cobrir carnaval, escrevi dissertação de mestrado sobre escola de samba e passei a conviver com meus colegas de júri no Estandarte de Ouro (inclusive a Maria Augusta, carnavalesca daquele desfile), é claro que também fui construindo uma visão desse desfile, além da minha sensação.

E minha proposta nesse livro é justamente misturar essa experiência pessoal que eu trago com a pesquisa. Porque eu tenho uma paixão muito grande pelo universo das escolas de samba, mas – como escrevi na introdução do livro, citando Cazuza – eu queria saber se as minhas ideias correspondiam aos fatos. E por isso fui pesquisar nos arquivos, conversar com as pessoas, levantar informações que me ajudassem a contar essa história.

Especificamente sobre minha atuação como jurado do Estandarte de Ouro, preciso dizer que o nosso julgamento não é como o do júri da Liga, que precisa estar atento aos mínimos defeitos, justificar as notas… No Estandarte, é possível, por exemplo, uma escola ser apontada a melhor daquele ano mesmo tendo falhas técnicas que, no olhar do júri da Liga, custariam décimos àquela escola. São critérios diferentes e, no nosso caso, o encantamento do desfile pode resultar no prêmio de melhor escola. Assim, mesmo com todo o meu envolvimento profissional com esse universo e com a atenção que preciso ter para julgar, não perdi o meu encantamento pelo desfile das escolas de samba. É uma coisa que continua me empolgando.

Quais foram os outros critérios para a seleção das dez histórias?

Em primeiro lugar, o “filtro da história”. Ouvi esse termo pela primeira vez no carnaval de 2004, logo depois dos desfiles, durante a reunião do júri do Estandarte de Ouro para a definição dos premiados daquele ano. Conversávamos sobre o desafio de julgar samba-enredo naquele ano (quando a Liesa tinha permitido a reedição de sambas antigos) e o jornalista Roberto M. Moura, que fazia parte do júri, disse que aqueles sambas reeditados já haviam passado pelo “filtro da história”, ou seja: se eles permaneceram, mesmo depois de tanto tempo, é porque têm valor.

E esse “filtro” foi útil tanto para meu livro anterior (que listava quinze sambas-enredo) quanto para definir os dez desfiles derrotados que entrariam neste livro de agora: quais são desfiles que não levaram o título, mas são lembrados até hoje? Se são lembrados é porque têm valor, porque marcantes… Claro que, além do filtro, acaba entrando também minha preferência pessoal, não tem jeito. As histórias que registrei com uma emoção especial, o meu próprio filtro, também foi levado em conta.

Tem um caso à parte no livro, que é o desfile da Portela em 1979, quando ela saiu com “Incrível, fantástico, extraordinário”: um desfile bem tradicional, muito bonito e bem feito, mas que não é lembrado como os mendigos da Beija Flor (1989) ou o carro do DNA da Unidos da Tijuca (2004). Só que a unanimidade que se criou em torno da Portela em 79 fez desse desfile uma grande história: segundo os jornais, os comentaristas de TV e o júri do Estandarte de Ouro, a campeã já estava definida. A edição da Ultima Hora na quarta-feira de cinzas trazia o título, em garrafais: “Portela campeã”. Parecia que o resultado já tinha saído. Só que, quando saiu o resultado, deu Mocidade Independente de Padre Miguel.

Além da pesquisa nos jornais, você ouviu personagens dos desfiles (entre jurados e integrantes das escolas) que, aparentemente, ainda refletem sobre o que aconteceu, depois de tantos carnavais. Qual relato te marcou mais?

Foram dois, ambos para o primeiro capítulo do livro, sobre o desfile da União da Ilha em 1977. Um deles foi o depoimento do poeta Geraldo Carneiro, que foi jurado de samba-enredo do carnaval de 77. E ele começou a entrevista me contando que, por acaso, tinha pensado no samba “Domingo” na véspera. Imagina só! Então eu achei aquilo muito bacana: como é que, 40 anos depois, ele ainda se lembrava, cantarolava, etc. Como aquele samba ficou marcado na memória dele!

O outro depoimento foi o da Maria Augusta, carnavalesca da União da Ilha naquele ano e que guarda uma memória bem viva daquele desfile. Foi um depoimento emocionante, no qual ela me falou, por exemplo, do espanto de todos assim que se decidiu pelo enredo “Domingo”, num tempo em que a preferência era por fazer enredos históricos, tradicionais, cheios de conteúdo… “Como assim, fazer um enredo sobre um dia da semana?!” E o domingo, que pra tanta gente já é um dia lúdico (é o dia da praia, do futebol, do parque…), pra ela, como ex-aluna de colégio interno, era ainda mais forte.

Felizmente, o período compreendido no livro (1977-2004) é rico em testemunhas vivas e registros – como matérias de jornal e vídeos no YouTube – que respaldam essas histórias. Não pude deixar de pensar em casos pré-1977, como “Cântico à natureza” (Mangueira, 1955), “Aquarela brasileira” (Império Serrano, 1964), “Heróis da liberdade” (Império Serrano, 1969) e outros grandes sambas que ficaram na história mas não deram em títulos…

Há outros casos também, como a Mocidade Independente em 1974, com “Festa do Divino”, que parece que teve uma nota absurda… Teve o desfile de 1973, quando deu Mangueira, mas o Império Serrano teria sido melhor… Tem também as histórias de que o Natal (banqueiro de bicho que era o patrono da Portela) teria influído em alguns resultados na década de 60… Não sei se são verdadeiras, mas fazem parte do folclore.

Só que, como a proposta do meu livro é fazer um questionamento dos resultados oficiais, fiz questão também de só escrever sobre desfiles que eu vi. Acho que eu poderia, com um trabalho de pesquisa, de entrevistas e reconstituição, ter uma abordagem sobre os carnavais que não vi, mas eu quis manter esse critério, de ter como ponto de partida para essas histórias a minha própria impressão, ainda que complementada com informações obtidas na pesquisa.

As injustiças recorrentes nos resultados revelam o descompasso que existe entre o resultado oficial e o júri do Estandarte de Ouro, que costuma estar mais alinhado com a vontade popular do que os jurados da Liesa… Depois de tantas “campeãs morais”, o que a Liesa poderia ter feito, e ainda não fez, para que isso mudasse?

É complicado porque, com o modelo de julgamento que a Liesa propõe, não sei se é possível chegar a outro tipo de resultado. Como eu já disse, se uma escola está passando e empolgando, mas tem uma escultura quebrada na alegoria, é obrigação do jurado da Liga tirar alguns décimos daquela escola naquele quesito. No caso do Estandarte de Ouro, pode ser que aquela escultura quebrada não tenha a menor relevância diante da empolgação que, para o Estandarte, é suficiente para se apontar uma escola como a melhor daquele ano. É a história do capítulo 9 do livro, sobre o desfile da Beija Flor em 2001, com o enredo “A saga de Agotime – Maria Mineira Naê”. Um desfile inesquecível, mas que, por um problema específico em uma escultura de um carro, não resultou em título.

Para mim, é complicado falar, pois faço parte do júri do Estandarte: pode parecer que estou avaliando o julgamento dos outros, mas não se trata disso. Os jurados da Liga assistem aos desfiles como fiscais dos quesitos, para buscar erros que estabeleçam diferenças entre as escolas: se você é jurado de alegorias e adereços e passou na sua frente um carro alegórico com uma escultura quebrada, o que você vai fazer? Vai fingir que não viu? Mesmo que seja um desfile apoteótico, é seu dever anotar aquele problema e atribuir uma nota ao que você viu.

As dez histórias do livro são protagonizadas por algumas escolas que se dão mal, outras que se dão bem e ainda as que vivem as duas situações. Mas, em linhas gerais, fica a impressão de que acaba havendo uma compensação natural entre tristezas e alegrias. Exceto no caso de uma escola: a União da Ilha, que, apesar dos sambas e do encantamento dos anos 70/80, segue zerada em termos de títulos…

As pessoas que não acompanham carnaval com muita atenção se espantam quando ficam sabendo que a União da Ilha nunca foi campeã: “Como assim?!” É uma escola que tem identidade, tem torcida, é muito querida e é esperada na hora do desfile… Uma escola de sambas muito bonitos e que ainda estão aí, ou seja: passaram pelo “filtro da história”: “É hoje”, “Festa profana”, “O amanhã”, “De bar em bar, Didi um poeta”, o próprio “Domingo”. Todos grandes sambas, mas que não levaram a escola ao título.

Não gosto tanto de bater na tecla da injustiça, embora em alguns casos fique claro que foi um resultado injusto. O que eu quis propor foi uma reflexão, sobre qual o modelo de carnaval que ganha. E nesse caso específico do desfile da União da Ilha em 1977, se “Domingo” tivesse levado o título, a gente fica pensando sobre os rumos que o carnaval poderia ter seguido a partir daquele exemplo, daquele carnaval lúdico, da forma como as cores foram usadas pela Maria Augusta, daquelas soluções criativas e baratas… Com a derrota de “Domingo”, talvez tenha se fechado a porta para que outros tipos de carnaval também pudessem ser campeões.

A vitória da Beija Flor, dentro daquele modelo muito bonito, colabora para que se consolide a ideia de que aquela riqueza, aquela exuberância são os caminhos para uma escola que pretende ser campeã – o que aliás é um caminho válido. Mas convenhamos que é um problema em momentos como o atual, de uma crise financeira muito séria, com a Prefeitura diminuindo a verba… Será que um desfile, para ser bom, precisa consumir milhões? Será que não há soluções mais baratas para se fazer um desfile campeão? São perguntas que permanecem.

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