Entrevistas

“Foi assim”, de Wanderléa

Nenhum Comentário

Por Luciana Medeiros

Não é fácil abrir mão de um personagem de sucesso e partir com ousadia para novas empreitadas. A mineira Wanderléa poderia ter ficado no tempo da Jovem Guarda, tanto sucesso fez o movimento que tomou conta do Brasil nos anos 1960. Mas internalizar e cristalizar a Ternurinha não foi a opção dessa cantora de temperamento tão firme quanto doce. E ela seguiu pela vida se transformando, trocando de pele artística e descobrindo horizontes. Nunca sossegou. Em conversa pelo telefone, Wanderléa dá uma gargalhada:

– Desde o início da Jovem Guarda, eu não queria fazer um gênero de música só, mas nunca imaginei que íamos fazer taaaaaanto sucesso – confessa.

Aos 71 anos, Wanderléa continua inovando: estrela o musical sobre sua vida, “60! Década de Arromba – Doc Musical”, em cartaz até 4 de março no Theatro Net Rio com sessões lotadas; em novembro, lançou a biografia Foi Assim (Ed. Record), com edição e pesquisa do jornalista Renato Vieira. O livro é um surpreendente e honesto relato, que descortina os traços menos conhecidos dessa mulher solar.

Ela lembra a Jovem Guarda (“éramos muito meninos!”), movimento alavancado pela televisão e pelo poder da juventude. Mesmo assim, um ambiente machista que ela acabava questionando (“esse negócio de Ternurinha, inha, era para me abafar”). E  mostra que não recua diante de desafios pessoais ou profissionais: relata, sem medo, alegrias, vitórias e também grandes tristezas, como a perda do primogênito, a paralisia do noivo José Renato, a morte do irmão (leia trechos ao longo da entrevista). Com vocês, Wanderléa.

 

Você está num momento muito frutífero, com musical e livro. Como está sendo viver essas novidades?

Não foi nada programado! Ou melhor, foi programado pelo universo. Eu vinha escrevendo coisas há uns 15 anos, mas não sabia quando ia lançar. Coincidiu com o convite para o musical, que eu aliás demorei quase um ano para aceitar. É um formato novo, que te prende de quinta a domingo. E meu show é muito solto, diferente de um script e de uma marcação… Mas chegamos a uma conclusão, montamos e… nunca pensei que fosse fazer um sucesso tão grande! Lotado todos os dias, outros estados pedindo montagem, convite para o exterior. Tenho disco para fazer, outros shows, mas não consigo.Eu nunca vi isso: as pessoas vão 15, 20 vezes ao musical!

Foi um ganho no formato, na linguagem e na proximidade com as pessoas, uma novidade na sua carreira. Mas mudar não é novidade: você se mostrou versátil, não ficou presa à Jovem Guarda. De onde vem essa capacidade de ir adiante?

Eu comecei muito menina, fazendo programas infantis nas rádios, com 15 anos era crooner. O que me colocou no palco foi gostar de música, independentemente de gênero. Quando veio o convite para a Jovem Guarda, pensei muito, não queria ficar presa a um gênero só – mas nunca imaginei que fosse fazer tanto sucesso.

E abriu os caminhos para você.

Trouxe reconhecimento do público, um nome nacional a partir daí. Mas, a cada oportunidade que tiver, vou fazer uma coisa diferente. Esse é o meu estímulo. Adoro instrumental, jazz, MPB. E tem coisas boas e ruins em todos os gêneros. Ouço e faço minha avaliação.

“Egberto [Gismonti] tinha a maior paciência para me apresentar os sons (…) e estava gostando de perceber que sua música me sensibilizava” (p. 247) “Apesar da ditadura no auge da repressão política e comportamental nos anos 1970, o público brasileiro recebeu muito bem o trabalho vanguardista de dois coletivos surgidos naquele período: os Novos Baianos e os Dzi Croquettes” (p.201, sobre sua convivência com esses artistas)

Será por isso que as pessoas gostam tanto de você? A identificação com essa abertura, essa aceitação das diferenças, essa antena positiva?

Pode ser! Abraço a oportunidade de fazer o que eu gosto, e eu sempre adorei tudo isso. Dormia no carro, trabalhava sem parar, mas sempre com uma enorme satisfação. No musical tudo é marcado, luz, roteiro. Reavaliei o que fazia, o jeito como fazia. Eu sempre soube da aceitação do público, mas nunca imaginei que depois de décadas, o que fiz estivesse marcado no emocional das pessoas.

“Vinte anos depois do estouro da Jovem Guarda, (…) eu tinha recuperado a alegria de viver com o nascimento de minhas duas filhas. Não entendo porque eu, sendo a primeira representante do rock contemporâneo no Brasil, jamais fui convidada para me apresentar no Rock in Rio. (…) Raul seixas reforçava como eu havia sido importante para toda uma geração: – Wanderléa, você é a maior roqueira do Brasil!”.(pp.295 a 298)

Você está sendo modesta em relação à sua importância na vida de mais de uma geração. E com uma nostalgia de bom astral, nunca triste.

Mas eu não tinha essa noção! Meu trabalho foi meio missionário. Hoje estou grata por estar fazendo esse momento bonito, lúdico, no mundo difícil de hoje. A maioria das pessoas não está ali lamentando nada, está vivendo um momento intenso. Muito lindo isso!

Você foi pioneira também como mulher na Jovem Guarda: era a garota papo firme, com força e presença, individualidade.

Interessante! Eu nunca tinha visto por esse ângulo. Nós estávamos ali na televisão, muito meninos, fazendo coisas diferentes. Pegamos o Brasil de ponta a ponta. Trazendo uma cultura jovem para o país.

Mas era mais do que jovem. Era feminina também. A mulher era uma figura forte também.

A minha atuação nesse sentido foi mesmo decisiva. A transgressão que eu vivia em casa, levei para o palco, e carreguei uma geração inteira, modificando o comportamento geral. Hoje eu constato isso. E fico muito feliz em ver que era uma figura de proa ali. De certo modo, tentavam abafar: “Ternurinha” é um apelido que diminui. Eu com aquelas botas e saias curtíssimas, eles querendo me segurar [ri alto].Ficavam escandalizados com a minha ousadia, os decotes, as saias. E na época o público era machista mesmo.

Era um tempo em que a repressão familiar incomodava demais. (…) A regra era obedecer sem nenhum tipo de questionamento. Filho não tinha vontade nem voz própria. (…) Vivi isso com meu pai e creio que, se tivesse acatado tudo o que ele determinou para a minha vida, havia a possibilidade de eu não ter sido feliz e o ato decantar talvez ficasse restrito ao chuveiro” (p.91)

O que você fazia ali não era agressivo. Tinha uma felicidade, uma alegria.

Era isso. Eu ia fazendo e dizendo “vem comigo!”. As meninas levantavam o cós da saia para que ficasse curtinha! Acabou esse negócio de anágua, combinação. As pessoas se lembram de mim independentemente de um sucesso. O que marcou foram as transformações provocadas pela gente na vida das pessoas. Tem gente que vai assistir ao musical levando filhos, netos. A gente não tinha um discurso preparado, programado. Queria era fazer e acontecer. E o que mais viesse! Foi preciso seguir em frente, mas ali aconteceu um momento importante.

“Dez anos haviam se passado desde a eclosão do fenômeno Jovem Guarda. Não negava sua importância, como nunca negarei. Sei que o que fiz nos anos 1960 mexeu com o coração das pessoas (…) mas eu estava esperando uma nova oportunidade de virar a mesa” (p.225)

Sua capacidade de superação é notável. No livro, você narra diversos momentos terríveis que enfrentou e deles conseguiu sair, mais uma vez se recriando.

A gente precisa continuar! Todos temos dificuldades, cada um de sua forma. Mas precisamos superar.

“Tudo aconteceu muito rápido. Sônia chamou minha mãe e Lalo, que foram direto à piscina. Seu corpo estava dentro d´água” (p. 267, narrando a morte do primogênito Leo) – “Cheguei ao apartamento e o vi deitado em sua própria cama, como ele sempre desejou. Foi muito cruel me deparar com seu corpo inerte e sem vida” (p. 320, sobre a morte do irmão Bill)

Você segue alguma religião, ou orientação espiritual?

Sou mística. Busco aprendizado. Medito, procuro caminhos. De todas as religiões encontro coisas boas para absorver. Os Mestres da Fraternidade Branca, em particular, adoro!Não estamos aqui sozinhos, somos seres maiores. Somos espíritos atuando dentro da matéria. Por isso temos de cuidar da matéria direitinho.

Projetos?

Vou gravar um disco só de inéditas! Erasmo foi assistir ao show e mandou uma música incrível para mim. Vou ter canções de Marisa Monte, Marina Lima, Arnaldo Antunes… só que nessa batida atual não dá para ir para o estúdio. Tenho um livro de poesias pronto. Mas não fico preocupada com o tempo. Sem ansiedade, por favor! As coisas aconteceram e acontecem naturalmente.

O que você diria para quem acompanha sua carreira, gosta de você, descobriu na sua biografia uma Wanderléa com questões profundas?

Fico muito, muito feliz com as oportunidades que a vida me deu. Somos fios condutores e o fato de ter ligação com tantas almas, numa conexão de carinho, é uma coisa muito linda que eu agradeço demais. Obrigada pelo carinho, pelo amor.

“Ainda sou uma criança. (…) A alegria é valiosa e a música é parte importante dos momentos felizes. O tempo do amor nas jovens tardes de domingo é hoje. É agora. Aquela boa energia do passado me deixa com sede do futuro. Estou aqui, pronta para o que virá”. (p. 351)

Comentários
Posts Populares

Este website usa cookies para melhorar a experiência do usuário. Navegando neste site você consente com a nossa Política de Privacidade.

Leia Mais