Entrevistas

“O outro lado da bola”, de Alê Braga, Alvaro Campos e Jean Diaz

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Um craque do futebol e ídolo da seleção resolve se declarar homossexual depois do assassinato de um ex-namorado. Este é o pontapé inicial de “O outro lado da bola”, graphic novel que chega às livrarias em junho pela Record e mostra, de forma bela e pungente, uma estrutura entranhada de preconceito e corrupção. Na trama, o protagonista Cris vê sua vida pessoal e sua carreira virarem de ponta cabeça com a reação de colegas, patrocinadores e torcida.

Parece impensável que, em pleno 2018, nunca um jogador de futebol no Brasil tenha dito abertamente que é homossexual – algo destacado tanto por André Rizek, na orelha, como por Arnaldo Branco, na apresentação da obra. É aí que reside uma das maiores forças da narrativa de “O outro lado da bola”, que exibe, página após página, o universo preconceituoso e intolerante em que ainda vivemos. Nesta entrevista, a dupla de autores Alê Braga e Alvaro Campos, que divide a autoria do livro com o ilustrador Jean Diaz, fala sobre os temas do livro.

Alê e Alvaro participação do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, nesta quinta, dia 31, em Belo Horizonte. A dupla fara um pré-lançamento de “O outro lado da bola” no estande da Casa dos Quadrinhos, a partir das 15h.

 

Alguns elementos da trama, como o time e a torcida organizada, têm ligação aparente com a vida real, mas e a história do Cris? É inspirada em algum fato verídico (ou quem sabe um conjunto de fatos) ou é, como escreveu Arnaldo Branco na introdução, uma história que ainda vai acontecer?

Sem dúvida é uma história que está para acontecer. No Brasil (e na verdade em todo o mundo, salvo pequenos exemplos pouco representativos) nunca um jogador profissional de destaque assumiu a homossexualidade. Há relatos de que alguns pensaram em fazê-lo, mas foram impedidos por contratos, desvalorização do passe, etc. Fatos de menor relevância já causaram reações fortíssimas das torcidas.

Como foi o processo de trabalho de vocês no livro: desde a criação da história – assinada por dois autores – até a arte de Jean Diaz?

O argumento inicial foi criado por Alvaro Campos. A partir daí houve uma série de discussões com Alê Braga sobre a ideia principal, até que a sinopse foi desenvolvida. Cada capítulo foi discutido em termos de conteúdo e um dos dois desenvolvia o roteiro e depois dividia com o outro, para comentários. A partir do texto fechado, começava a discussão com Jean sobre como ilustrar cada página.

Além do protagonista, que assume publicamente a homossexualidade e é condenado por todos lados (clube, patrocinador, imprensa, torcedores e a própria família), a livro tem político que esconde dinheiro no exterior, torcida organizada que vende apoio, jornalista mancomunado com o clube, chantagem com técnico da seleção… Retratos de um país onde tudo é permitido, se for debaixo dos panos, certo?

A ideia é mostrar um lado do esporte que existe de fato. E que reflete muito uma realidade do país que acreditamos que precisa mudar. Onde a impunidade sempre existiu, e a paixão pelo futebol sempre mascarou. Obviamente, existem pessoas e organizações sérias no esporte. Mas outras…

Em 2011, o jogador de vôlei Michael dos Santos (então atleta do Vôlei Futuro) foi hostilizado por um ginásio lotado em Contagem (MG) por conta de sua orientação homossexual, num claro exemplo do quanto a coletividade pode ser cruel num caso desses. Será que, algum dia, nos veremos livres desse tipo de reação?

Um exemplo de um craque que resolve quebrar esse tabu com certeza iria chacoalhar as estruturas desse preconceito. Se for um craque que traz resultados para o time, aumenta ainda mais a chance de ter um impacto maior nesse preconceito. Um exemplo atual é o jogador Muhamad Salah, do Manchester United. Ele é muçulmano e é craque. Com sua presença no time, está mudando o preconceito contra muçulmanos entre os torcedores de uma forma muito forte.

O mesmo pensamento conservador do nosso país pode ser transposto para o universo esportivo: por que, no futebol, os casos de homofobia são, aparentemente, mais recorrentes do que em outros esportes?

O caso do futebol é ainda muito mais sério. Os xingamentos usados no estádio, contra adversários e árbitros, sempre foram machistas e relacionados à homossexualidade, e considerados absolutamente normais e corriqueiros. As crianças aprendem a xingar nos estádios, com palavras sempre ligadas à homossexualidade. Se hoje a sociedade recebe o tema de uma forma muito mais natural em diversas áreas profissionais, no futebol a situação parece estar décadas atrasada.

Vocês temem algum tipo de retaliação ao livro, por estarem lidando com um tema que, no nosso país, ainda é um tabu, sobretudo no atual contexto, tão polarizado e cheio de radicais dos dois lados?

O livro é uma ficção. O clube é um time inventado, os jogadores, dirigentes, patrocinadores, são todos sem relação com a realidade. A história pode denunciar fatos que acontecem no esporte, mas não em algum local específico, ou com algum atleta em especial. Existem torcidas, clubes, dirigentes e atletas sérios e existem os que fazem do futebol um disfarce para o crime. Não acreditamos que haja qualquer retaliação, porque se alguém se sentir ofendido estará assumindo uma similaridade com a ficção. Esperamos que haja, ao contrário, uma reação positiva. O primeiro ídolo e o primeiro clube que encararem algo tão normal como a homossexualidade de um atleta, na nossa opinião, só terão um espaço muito positivo marcado na história do esporte e do país. Aliás, adoraríamos receber de clubes o apoio ao livro e às causas nele retratadas

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