Entrevistas

“O preto que falava iídiche”, de Nei Lopes

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Por Cláudia Lamego

Uma saga afro-judaica-brasileira desfilada como num carnaval, da Praça Onze à África, passando pelo bairro carioca de Irajá, pelos estados de Porto Alegre, São Paulo e Bahia e atravessando o sertão brasileiro numa coluna revolucionária: essa é a história de Nozinho, o negro que tinha o dom de aprender línguas, se apaixonou e foi correspondido pela moça judia Raquel, mas viu decretado seu amor proibido, por causa das diferenças de cor. Um romance com tintas fantásticas que, misturadas, dão o recado do seu autor, Nei Lopes: o racismo, “com R maiúsculo”, não está com nada.

Inspirado no suposto encontro da Rainha de Sabá com o Rei Salomão, união da qual seriam originários os judeus africanos da Etiópia, o amor de Nozinho e Raquel serve de mote para o autor contar a história sob o ponto de vista da união de dois povos escravizados e perseguidos, mas que, na diáspora, tiveram trajetórias bem diferentes. O interesse do autor é dar protagonismo à história dos negros, num projeto literário que chega ao ápice neste “O preto que falava iídiche”.

Com grande habilidade para compor personagens, reais e ficcionais, Nei Lopes cria uma trama em que mistura artistas, mães e pais de santo, jornalistas, delegados, comerciantes, compositores, prostitutas, intelectuais. Entre eles, há o ChaimSherman, ironicamente um farmacêutico sem diploma, que é um crítico embasado das teorias de eugenia; o negro Simão, Sebastian Simonsen, que fala sobre “negrofilia” e a necessidade de os povos negros se unirem, em todos os continentes; o pintor Estevão, que, pela metáfora da mistura das tintas, reflete sobre a questão da autodeclaração da identidade e da mestiçagem. Nei Lopes insere na narrativa personagens reais, como os amigos Claudio Camunguelo e Luiz Antônio Pilar, por exemplo, e os de vulto histórico, como o americano Robert Abbott, dono do maior e mais influente jornal, em Chicago, da comunidade negra americana.

O autor falou ao blog da editora sobre seu processo de criação:“Nenhum de meus romances, até aqui, começou com elaboração de argumento, seguida de roteiro, decupagem, edição etc. Eu pego um tema e vou viajando nele. Minha ‘oficina’ é mais de fundição, forja, modelagem (rs,rs). Eu boto lá o ferro aquecido e vou martelando pra dar forma. Ou jogando metal derretido na fôrma, sem saber direito o que vai sair. O que fica bom eu vou limpando e polindo até ver se brilha. Se brilhar pra mim, deu certo. Neste livro, por exemplo, o assunto é Racismo, com “R” grande, tema difícil de abordar. Então, procurei movimentar e colorir bastante a narrativa buscando dar o máximo de veracidade, mesmo aos personagens mais fantásticos. E, como sempre faço, de vez em quando incluo um amigo ou conhecido, vivo ou não, como uma forma de homenagem.”

Ganhador do Prêmio Jabuti pelo livro “Dicionário da história social do samba”, em parceria com o historiador Luiz Antônio Simas, Nei mantém uma produtiva carreira como autor de uma vasta obra de não-ficção. “Continuo escrevendo e publicando livros paradidáticos, como dicionários de história e cultura africana e afro-originada. E, neles, na medida do possível, está a História real. Esses livros, para mim são espécies de manuais ou apostilas de estudo que comecei a criar, inclusive para entender melhor coisas que não me ensinaram na escola”, diz.

“O preto que falava iídiche” chegou às livrarias em maio, pela Record, e será lançado nesta segunda, 4 de junho, no Rio, na Livraria da Travessa de Botafogo, a partir das 19h; em São Paulo, o evento acontece na quinta, dia 7, no mesmo horário, na Livraria da Vila, com a presença da autora Ana Maria Gonçalves.

 

 

Você contou numa palestra recente sobre o livro que se inspirou na visita de um rei etíope ao Brasil para criar o personagem Nozinho. Esse rei seria descendente de um suposto filho da Rainha de Sabá com o Rei Salomão. Ou seja, era um rei negro e judeu. Pode contar um pouco mais sobre como teve a ideia e como a desenvolveu para criar a saga de “O preto que falava iídiche”?

O personagem real que inspirou a fase final do fictício Nozinho não era originário da Etiópia e sim da África Ocidental; dizia-se príncipe e viveu no Rio Grande do Sul. Os africanos que se acreditam descendentes da Rainha de Sabá com o Rei Salomão são os falachas da Etiópia, entre os quais coloquei o Nozinho na última etapa de sua passagem pela África e de onde o nosso herói voltou para o Brasil, como líder religioso. E isto depois de crescer na Praça Onze carioca e ter passado por Porto Alegre, Salvador, São Paulo; ter integrado uma coluna revolucionária que atravessou o sertão brasileiro; e participado de um cordão e de um rancho carnavalesco. Toda essa fantástica saga ele viveu por causa de um amor contrariado por uma moça judia, sua vizinha na Praça Onze.

A história de Nozinho, contada por um advogado vascaíno (alter-ego do autor?), permite ao narrador uma viagem que começa pelo Rio de Janeiro do início do século XX, vai até o Nordeste, tem grande parte na Bahia, viaja até a África, onde se dão os acontecimentos mais fantásticos do livro, com um pezinho importante em Irajá, terra de Nei Lopes e onde Nozinho tem o corpo fechado num ritual que o permitirá tornar-se rei e porta-voz da liberdade e paz entre os povos. Você considera essa sua obra como um grande testamento literário, que não o encerra, mas contém grande parte do seu pensamento, pesquisa e, claro, criatividade e invenção?

É, sim, uma parte do meu futuro legado. Mas já tenho pronto um outro romance, previsto para 2019, inspirado pela minha vivência na Baixada Fluminense, de onde, há três décadas, vejo a “Cidade Maravilhosa”, onde nasci e fui criado, através de uma lente de aumento. E esboço um outro a partir do estabelecimento da minha família nos anos de 1920 no subúrbio de Irajá, então sede de uma freguesia rural, onde os remanescentes permanecem até hoje, quase todos na mesma rua. Minha vivência é muito rica, em todos os sentidos não materiais; e eu seria um tolo se não expressasse isto na minha literatura.

O seu livro, que mistura personagens reais com os de ficção, ensina muito mais sobre a história de nossas origens africanas, atribuindo ao continente renegado por tantos anos glórias e saberes que foram de alguma forma apagados ao longo das décadas, desde a escravidão perpetrada pelo Ocidente a partir das grandes navegações e colonização de países do chamado “novo mundo”. O jornalista Luiz Fernando Vianna, notando essa característica em sua obra, disse numa resenha de seu livro anterior, “Nas águas desta baía há muito tempo”, que você vem contando a história pelo avesso. Não chegou a hora de considerar essa, ao contrário, a nossa história oficial?

Paralelamente à minha ficção, continuo escrevendo e publicando livros paradidáticos, como dicionários de história e cultura africana e afro-originada. E, neles, na medida do possível, está a História real. Esses livros, para mim são espécies de manuais ou apostilas de estudo que comecei a criar, inclusive para entender melhor coisas que não me ensinaram na escola. E tenho publicado para incentivar a criação de outros mais e melhores, pela moçada que está chegando.

O professor Luiz Antonio Simas, seu parceiro no premiado livro “A história social do samba”, já disse em diversas ocasiões que usa os enredos de escola de samba, por exemplo, e outras manifestações populares para ensinar história em sala de aula. O mote do livro (a união entre os povos negros e judeus simbolizando o fim do preconceito de raça) vira enredo de um rancho carnavalesco no meio da história. A literatura, assim como o carnaval, nesse sentido também é um instrumento dos mais eficazes na formação dos saberes e deveria ser melhor usada na educação, não?  

É isto! E eu me sinto bem fazendo uma literatura que pode ter algum alcance social, alguma consequência. Prefiro ser visto como um porta-voz em vez de um “artista da palavra”. Aí, me lembro que o Lima Barreto tinha o propósito de um dia escrever a história dos negros brasileiros. E Machado de Assis, se não me engano, também pensava num livro sobre a escravidão no Brasil, tema que abordou, ao seu jeito, em alguns de seus escritos.

“Os judeus e os pretos têm muitos pontos em comum. O problema é que a dominação europeia praticamente calou a inteligência africana, pra justificar a colonização. E aí ninguém ficou sabendo do que acontecia lá na África antes da chegada dos europeus”, discorre o personagem Sebastian Simonsen em conversa com Nozinho. Os dois povos têm a diáspora e o preconceito em comum, mas os judeus tiveram melhor sorte em poder contar os horrores por que passaram. Por que as pessoas ainda resistem em ouvir falar dos horrores da escravidão e resistem a temas como políticas de reparação, enquanto os judeus conseguiram erguer até o Estado de Israel?

As duas trajetórias históricas se encontram em alguns momentos, como no episódio do cativeiro dos judeus no Egito, e na menção nominal do faraó Taraca ou Taarka, um negro originário da Núbia, na Bíblia, no livro do profeta Isaías. Mas em essência são trajetórias bastante diferentes.

Queria que você falasse um pouco do processo de realização do livro e da criação de personagens interessantíssimos que orbitam na história de Nozinho. Tem o ChaimSherman, ironicamente um farmacêutico sem diploma, que é um crítico embasado das teorias de eugenia; o já citado Simão, Sebastian Simonsen, que fala sobre “negrofilia” e a necessidade de os povos negros se unirem, em todos os continentes; o pintor Estevão, que, pela metáfora da mistura das tintas, reflete sobre a questão da autodeclaração da identidade e da mestiçagem.  Têm também as figuras dos sambistas, atrizes, mães e pais de santo, por meio dos quais você conta um pouco sobre as religiões de matrizes africanas. Eles são inspirados em personagens reais, como os citados brevemente na narrativa (Claudio Camunguelo e Luiz Antônio Pilar, por exemplo), até os de vulto histórico, como o americano Robert Abbott, dono do maior e mais influente jornal, em Chicago, da comunidade negra americana?

Nenhum de meus romances, até aqui, começou com elaboração de argumento, seguida de roteiro, decupagem, edição etc. Eu pego um tema e vou viajando nele. Minha “oficina” é mais de fundição, forja, modelagem (rs,rs). Eu boto lá o ferro aquecido e vou martelando pra dar forma. Ou jogando metal derretido na forma, sem saber direito o que vai sair. O que fica bom eu vou limpando e polindo até ver se brilha. Se brilhar pra mim, deu certo. Neste livro, por exemplo, o assunto é Racismo, com “R” grande, tema difícil de abordar. Então, procurei movimentar e colorir bastante a narrativa buscando dar o máximo de veracidade, mesmo aos personagens mais fantásticos. E, como sempre faço, de vez em quando incluo um amigo ou conhecido, vivo ou não, como uma forma de homenagem.

Uma das passagens mais curiosas do livro está em seu início, quando você desconstrói a visão da Praça Onze, região da Cidade Nova, como a “Pequena África” brasileira, mostrando que ali está mais para um Lower East Side de Nova York. E que a massa do “povo de cor” estava mais para as bandas da Saúde, da Gamboa e do Estácio. Por que persiste essa visão “errada” do local?

A expressão “Pequena África” nasceu, pelo que eu sei, de uma observação de Heitor dos Prazeres, segundo a qual a Praça Onze, no carnaval (“no carnaval”, friso) parecia “uma África em miniatura”. E isso, pela grande concentração de negros e negras, nos carnavais da juventude de Heitor, nascido em 1898. Daí veio o mito. Porque, no dia a dia, pelo que sabemos, a Praça Onze e seu entorno eram um caleidoscópio de muitos migrantes, entre os quais os da comunidade judaica. E a presença negra se estendia por Saúde, Gamboa, Prainha, até o Cais Pharoux, na atual Praça Quinze. A observação do Heitor dos Prazeres está em um livro do jornalista Edigar de Alencar sobre o carnaval carioca.

Nei Lopes compositor, autor premiado, escritor de alto valor literário e ainda com a importante missão de dar aos negros o protagonismo que tiveram e têm na história do Brasil, curador de uma exposição no Museu de Arte do Rio sobre as origens do samba e das raízes africanas no Brasil, cantor e um dos principais intelectuais brasileiros. Como você se sente a essa altura da carreira? Produzindo muito mais no sítio de Seropédica?

Em Seropédica, sim, mas desde o aniversário de 70 anos troquei o “estado de sítio” pelo de condomínio. É mais fácil de levar a vida; pois continuo a ter um pouquinho de verde e outro tanto de paz, num lugar que, apesar de tudo, sedia uma importante Universidade, na qual tenho ótimos amigos.

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